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HÁ UMA MÍSTICA NATURAL?
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O conceito de uma mística natural funciona como petição de princípio para rebaixar espiritualidades fora de certa religião tida como a única sobrenatural, atribuindo-lhes fechamento no criado e tratando eventuais graças a santos não cristãos como irregulares e acidentais.
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A espiritualidade extra-campo é apresentada como atingindo apenas centro ou ápice do criado, sem o poder de ultrapassá-lo.
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Deus é suposto intervir diretamente apenas na religião considerada a única sobrenatural.
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Graças concedidas a um santo não cristão são admitidas como exceções sem vínculo com sua religião.
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A objeção principal afirma que o criado não pode ser absolutamente criado, pois não existe relatividade absoluta sem que o criado se confunda com o nada, de modo que o incriado permanece oculto no natural e pode ser alcançado em princípio pelo Intelecto.
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A inexistência de participação do incriado tornaria o criado indistinto do nada.
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O sobrenatural encontra-se oculto no natural e é acessível ao Intelecto.
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O Intelecto contém essencialmente um elemento incriado.
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Os dois polos sobrenaturais do criado são a Existência pura e o Intelecto puro.
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O sobrenatural é ser e inteligência, realidade e consciência.
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A tese da mística natural nega a transparência metafísica e reduz as criaturas à projeção separativa.
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O divino não é contido pelo mundo, mas é acessível a partir de suas traces cósmicas, pois a Existência das coisas e a Conhecimento do sujeito abrem vias concretas ao Absoluto sem implicar panteísmo ou panenteísmo.
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O mundo não é Deus nem contém Deus como conteúdo.
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O mundo, por existir, é aspecto de sua Causa divina e algo de Deus.
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A Divindade é absolutamente transcendente e presente no centro de toda realidade cósmica.
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O mundo demonstra qualidade divina pelo milagre de sua Existência.
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O mundo demonstra qualidade divina por seu simbolismo múltiplo e inesgotável que manifesta o Infinito.
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O Intelecto é divino por ser cognoscente e por reduzir fenômenos ao Princípio.
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O Intelecto vê a Causa em todos os efeitos e supera a multiplicidade devorante do fenômeno.
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A Existência diversifica e dispersa enquanto a Inteligência reconduz à unidade, de modo que toda coisa existente envolve a Existência e, em última instância, a Realidade absoluta, e todo ato de conhecer envolve o Princípio do conhecimento, o Sujeito divino além da polarização sujeito-objeto.
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A multiplicidade dos sujeitos decorre de sua inserção na Existência.
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A unidade da Existência universal decorre de sua procedência do Intelecto divino.
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Em toda coisa existente há tudo o que existe, incluindo a dimensão existencial e a realidade absoluta.
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A Existência avança como dimensão ilusória em direção ao nada.
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Em todo ato de conhecer há tudo o que conhece, isto é, o Sujeito divino ou o Si.
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O Sujeito divino é em si mesmo além de sujeito e objeto.
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A exposição não implica naturalismo, pois o Intelecto não basta de fato para a salvação nem opera sem sabedoria tradicional, mas, quando despertado por uma sabedoria preexistente, basta para discernir em que consiste a salvação e suas condições.
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O Intelecto precisa do sobrenatural objetivo de modo acidental e não essencial.
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Uma vez despertado por seu correlato exterior, objeções extrínsecas deixam de ter pertinência.
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Negar prova da validade do Intelecto é contradição, pois toda prova supõe o próprio Intelecto.
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A impossibilidade de convencer certas inteligências não invalida a evidência da verdade.
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Se a evidência intelectual fosse ilusória, as provas externas o seriam ainda mais.
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Fenômenos existem para a inteligência e não inversamente.
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A existência simultânea de inteligência e inteligibilidade exclui as hipóteses de ilusão total.
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Declarar um polo do universo ilusório em seu próprio plano conduz a nihilismo integral.
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A distinção entre perspectiva intelectual unificante e perspectiva existencial separativa opõe transparência metafísica a cosmocentrismo fenomenista, exigindo combinação de ambas por serem válidas sob aspectos diferentes.
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A perspectiva unificante vê tudo sob unidade, inclusive a Existência.
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A perspectiva separativa vê tudo sob separatividade, inclusive a Inteligência.
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A visão separativa compara o mundo a círculos concêntricos que refletem o centro sem alcançá-lo.
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A visão unificante compara o mundo a uma estrela em que raios ligam periferia e centro.
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A transparência metafísica vê Deus em tudo o que existe e o realiza de certo modo no Intelecto.
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As coisas são separadas do Princípio enquanto coisas, sem continuidade possível nesse registro.
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As coisas, por realidade essencial e simbolismo imediato, não são outras que o Princípio, sob outro registro.
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A combinação de imagens sugere a teia de aranha como símbolo do cosmos.
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A espiral marca continuidade divina ao atingir o centro.
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Raios convergindo para vazio luminoso sugerem infinitude do Centro divino.
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As imagens visam mostrar que o sobrenatural reside primariamente na natureza das coisas e não em condições fenomenais exclusivas, de modo que tais condições podem auxiliar a atualização espiritual sem legitimar monopólio do sobrenatural.
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Condições fenomenais podem somar-se ao sobrenatural existencial e intelectivo.
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A função circunstancial dessas condições exclui monopólio único do sobrenatural.
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O sobrenatural possui caráter universal por residir na estrutura metafísica do criado.
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O sobrenatural oferece-se onde houver receptividade correspondente.
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A receptividade é indicada pela existência de sabedoria correspondente onde se alegaria mística natural.
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Védantismo shankariano e Dhamma podem parecer racionalistas por dialética externa e técnica.
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O caráter transcendente das doutrinas e a presença de iniciações indicam origem sobrenatural.
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Vishnouísmo e Amidismo configuram vias de graça e misericórdia sem racionalismo predominante.
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O termo mística natural pode ter algum uso apenas para designar confusões humanas, mas nesse caso aponta para falsa mística que ignora o sobrenatural, enquanto as tradições orientais mostram sabedorias que, como receptáculos de vida divina, não podem carecer do conteúdo correspondente.
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Uma mística inteiramente humana pode existir como possibilidade de confusão.
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O termo mística natural equivale a erro ou abuso de linguagem quando aplicado a sabedorias autênticas.
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É falsa a mística que nega o sobrenatural ou o usurpa, separando-se do mistério.
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Tradições orientais milenares indicam presença de conteúdo divino correspondente.
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O Espírito sopra onde quer.
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A contradição do postulado mística natural e de seu complemento, o sobrenatural judaico-cristão, reside na inversão dos termos, chamando natural uma sabedoria que transcende a natureza e chamando sobrenatural fatores que permanecem no domínio fenomenal.
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Sabedorias estrangeiras são acusadas de irrealismo por não se limitarem ao fenômeno.
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Especulações no limite do exprimível são tratadas como sonhos abstratos.
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Tal juízo implica incompetência metafísica.
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O fenômeno passa a operar como deus ex machina em detrimento da verdade supra-fenomênica.
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Petição de princípio substitui a evidência e os direitos do que é essência.
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A falsidade do postulado aparece em fissuras lógicas disfarçadas de análise objetiva.
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A hipótese de mística natural transforma diferenças tradicionais em desvios diante de uma religião única e leva a interpretações depreciativas de outras formas, como ao tratar sutras mahâyânicos como artifícios poéticos sem causa proporcional.
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A impressão do Cântico dos Cânticos sobre um monge budista é ignorada como problema de receptáculo.
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Sutras mahâyânicos são reduzidos a fantasia estética.
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A potência moral e espiritual do Grande Veículo, sua vitalidade e profundidade artística não se explicam por fantasmagorias.
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A amplitude histórica e cultural do efeito reflete qualidade do motor primeiro.
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A alegação de incompatibilidade entre karma e misericórdia de Amitâbha é respondida pela analogia com a predestinação e a redenção cristã, indicando que tensões desse tipo não são exclusivas.
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Predestinação decorre do conhecimento divino do destino das criaturas.
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Predestinação opõe-se tanto quanto se opõe o karma à misericórdia.
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A potência redentora do Cristo não é anulada pela predestinação.
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A preferência por uma perspectiva em que Deus prime o paraíso, contra a perspectiva budista em que o Nirvana prime o Buda, deriva de horror antimetafísico ao nada e do desejo de manter o humano no divino, absolutizando homem e história.
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No Budismo, o Budha aparece como expressão do Nirvana.
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A expressão é qualificada como ilusória em certo registro.
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No judaico-cristianismo, o paraíso pode reduzir-se a Deus de certo modo.
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A rejeição da primazia do Nirvana liga-se ao desejo de não perder contato com o humano.
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Busca-se instalar o humano e o individual no Divino e colocar o Absoluto num humano sublimado.
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A absoluidade do homem e da história produz humanização e historicização do Absoluto.
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O argumento do milagre sustenta que sinais sobrenaturais de causa divina, ocorrendo na natureza, corroboram verdade e santidade em diversas religiões e não podem ser verdadeiros num lado e falsos em outro sem absurdo da condição humana.
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Não se trata de prodígios lendários, mas de sinais com causa divina.
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Deus favorece seus eleitos por sinais que fortalecem a fé dos fiéis.
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Hônen Shônin, do Amidismo japonês, apresentou luminosidade e leitura noturna sem luz.
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Fenômenos análogos foram observados na grande Teresa em séculos posteriores.
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Hônen teve visões de Buddhas e Bodhisattvas, às vezes compartilhadas pelo entorno.
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Místicos do Ocidente viram o Cristo e a Virgem com clareza análoga.
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Curações, levitação e bilocação aparecem como fatos recorrentes em várias religiões.
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A semelhança e a quantidade de milagres inter-religiosos exigem sentido e excluem assimetria de verdade sob pena de absurdo.
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