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VER DEUS POR TODA PARTE

  • A ideia de “ver Deus em toda parte” ou “em todas as coisas” comporta múltiplos graus, desde a simples rêverie até a intuição intelectual, e para compreendê-la sem risco de ilusão é necessário considerar nas coisas o “milagre da existência”, pelo qual elas se destacam do nada, conferindo a cada coisa, mesmo a um grão de poeira, um caráter absoluto e, portanto, “divino”.
    • O afastamento entre as coisas e o nada é infinito.
    • Ver Deus na existência dos seres e das coisas, incluindo a própria, é o primeiro significado de “ver Deus em toda parte”.
  • Além da existência, os fenômenos possuem qualidades que os distinguem entre si e, na medida em que são positivas, representam Deus assim como a existência o faz, pois toda qualidade ou virtude transmite algo da Perfeição divina, que é a fonte imutável de toda atração.
    • As qualidades positivas são, em menor escala, análogas à existência que distingue a coisa do nada.
    • Não se pode amar, metafisicamente, por nenhum outro motivo senão a Perfeição divina.
  • Há ainda uma dimensão “subjetiva temporal” a considerar: o fato de que as coisas não apenas existem com qualidades, mas também nos são dadas pela Providência para que as percebamos e delas gozemos, o que corresponde a “ver Deus” no dom, gerando no coração o agradecimento, enquanto a percepção das qualidades gera louvor e a visão na simples existência gera uma consciência geral da Realidade divina.
    • A percepção do dom divino está ligada ao “agradecimento”.
    • A percepção das qualidades está ligada ao “louvor”.
    • A visão da existência gera uma consciência fundamental da Realidade divina.
  • Deus também se revela pelos contrários: a limitação das coisas, seus defeitos, e a privação ou desaparecimento do que é bom, que ensinam o caráter “não-divino”, “ilusório” ou “irreal” de tudo o que não é Ele.
    • A limitação impede a existência de se estender até o Ser puro, ou seja, de se tornar Deus.
    • A limitação (forma, matéria, número, espaço, tempo) deve ser distinguida do defeito (fealdade), que é um mero obscurecimento do simbolismo.
    • A privação das coisas ou qualidades revela a relatividade e o vazio do sujeito humano em face de Deus.
  • Todas as coisas são acidentalidades de uma substância única e universal, a Existência, que é o ato criador divino, a Palavra “seja!”; portanto, são reais a substância, o invariável, não as coisas, as variações, e é pelas suas múltiplas limitações que as coisas proclamam a unicidade da Palavra divina e de Deus.
    • A Existência é a substância única e universal, o ato criador.
    • As coisas são as acidentalidades dessa substância.
    • As limitações das coisas proclamam a unicidade da Palavra divina.
  • As coisas são limitadas em si mesmas e também nos escapam, seja pela distância espacial, seja pelo destino que as retira; se Deus manifesta sua Realidade, Plenitude e Presença ao dar, Ele manifesta nossa relatividade, nosso vazio e nossa ausência ao retirar o que deu.
    • O ato de dar manifesta Deus; o ato de retirar manifesta nossa relatividade.
    • Isso constitui uma nova maneira de “ver Deus em toda parte”.
  • As qualidades exprimem a existência em seu próprio plano, e as limitações exprimem, inversamente, a irrealidade metafísica das coisas, de modo que discernir em toda coisa, além dos aspectos existenciais, o “nada” diante de Deus, é “ver Deus em toda parte” pelo aspecto da irrealidade do mundo.
    • As coisas são irreal ou ilusórias na medida em que seu contato com o Espírito divino se torna indireto.
    • O defeito exprime a limitação de maneira puramente negativa e acidental.
  • A limitação situa-se entre a existência e o nada: é positiva enquanto desenha uma forma-símbolo, e negativa enquanto desfigura essa forma, confundindo o supra-formal com o informe, o que é a chave da arte “abstrata” e “surrealista”.
    • A forma tem função positiva pelo seu poder de expressão, mas limita a essência que expressa.
    • O mais belo corpo é como um fragmento congelado de um oceano de beatitude inefável.
  • A todas as categorias existenciais acrescentam-se as do simbolismo, pois todo fenômeno é um símbolo, havendo graus de conteúdo e inteligibilidade (símbolos diretos, indiretos, negativos) e a ciência simbolista, que procede das significações qualitativas das coisas, corresponde a uma maneira de “ver Deus em toda parte” baseada no conhecimento íntimo dos princípios.
    • A ciência simbolista distingue-se do simples conhecimento de símbolos tradicionais.
    • As qualidades cósmicas são hierarquizadas em direção ao Ser e independentes dos gostos individuais.
    • O simbolismo, na natureza ou na arte sacra, permite uma visão espontânea de Deus nas coisas.
  • As coisas simbolizam Deus ou seus aspectos divinos não por serem Deus, mas por não serem “outra coisa que Deus” em certos aspectos: sua existência, sua vida, suas qualidades particulares e seu simbolismo são modos de afirmar Deus sob diferentes relações.
    • A árvore, por exemplo, afirma Deus pela vida, criação, majestade, imutabilidade axial ou generosidade.
    • O simbolismo só tem sentido como modo contingente, mas consciente, de percepção da Unidade.
  • “Ver Deus em toda parte” é perceber a Unidade (Âtmâ, o Si) nos fenômenos, como ensina a Bhagavad-Gitâ ao distinguir a cognição que reconhece uma essência única e imperecível em todos os seres (sattwa) daquela que vê entidades diversas e distintas (rajas) e daquela que se apega a um objeto particular como se fosse tudo (tamas).
    • A cognição sattwica percebe a unidade de essência sem negar a existência das diferenças no seu plano.
    • A cognição rajásica é censurada por dar às diferenças um caráter absoluto.
    • A cognição tamásica é limitada por não remontar às causas.
  • As condições da existência sensível (espaço, tempo, forma, número, substância/matéria) são princípios que permitem “ver Deus nas coisas”, cada uma com suas características próprias de expansão, limitação, expressão, quantidade e nível de existência.
    • O espaço estende e conserva, limitando pela forma.
    • O tempo limita e devora, estendendo pela duração.
    • A forma expressa e limita.
    • O número é um princípio de expansão sem poder qualitativo.
    • A substância/matéria marca o nível de existência.
  • O espaço, o tempo, a forma, o número e a matéria possuem cada um um ponto de partida (centro, instante, simplicidade, unidade, éter) em direção ao qual tendem sem poder atingi-lo, e essa tensão revela a impossibilidade de a condição alcançar a perfeição do princípio do qual deriva.
    • O espaço tende à infinitude sem a alcançar.
    • O tempo tende à eternidade sem a alcançar.
    • A forma tende à perfeição sem a alcançar.
    • O número tende à totalidade sem a alcançar.
    • A matéria tende à imutabilidade sem a alcançar.
  • O espaço, como continente que preserva, conecta-se à Bondade/Misericórdia e ao amor; o tempo, que tudo devora e nos lança em direção à morte, conecta-se à Rigor/Justiça e ao temor; a matéria lembra a Realidade por ser o modo de “não-inexistência” sensível; a forma lembra a Lei divina ou norma universal; o número desdobra a ilimitação da contra-Possibilidade.
    • O que entra no espaço também entra no tempo.
    • O que entra na forma também entra no número.
    • O que entra na matéria entra na forma, número, espaço e tempo.
  • A existência manifesta-se pela substância, que tem como continentes o espaço (positivo) e o tempo (negativo), e como modos a forma (limitativo) e o número (expansivo), sendo que o número reflete o espaço (expansão) e a forma reflete o tempo (restrição).
    • O espaço não impede as coisas de existirem, apenas as limita.
    • O tempo não impede as coisas de cessarem, apenas as estende.
    • No espaço, nada se perde totalmente; no tempo, tudo se perde irremediavelmente.
  • Cada condição da existência terrestre possui duas “aberturas” para Deus: o espaço, pelo centro e pelo infinito; o tempo, pelo instante/presente e pela eternidade; a forma, pela perfeição geométrica (fria) e pela perfeição corpórea (quente); escapamos às condições por esses polos, que não pertencem mais ao domínio da condição.
    • O centro não tem extensão; o infinito é o “não-espaço”.
    • O presente absoluto não tem duração; a eternidade é o “não-tempo”.
    • A esfera é a forma mais próxima do vazio (centro), expressando unidade; o corpo humano normativo é o que mais se aproxima da plenitude, expressando totalidade.
  • “Ver Deus em toda parte” é ver a Si mesmo (Âtmâ) em toda coisa, é ter consciência das correspondências analógicas entre os princípios divinos que se refratam “em direção ao nada” constituindo o microcosmo e o macrocosmo, seus receptáculos (espaço, tempo) e conteúdos (forma, número).
    • A matéria é continente e conteúdo, “contém” as coisas e “preenche” o espaço, sendo quase intemporal.
    • A doutrina monoteísta da alma (criada no tempo, mas sem fim) exprime simbolicamente nossa relatividade (começo) e nosso aspecto absoluto (a qualidade “incriada” de sua essência, o Si).
    • A creatio ex nihilo afirma a causalidade divina contra o naturalismo.
  • A faculdade de “ver Deus em toda parte” pode ser uma graça independente de análise intelectual, brotando do amor de Deus, embora a percepção das categorias mencionadas dependa de um discernimento que “separa” para “unir”, assim como o olho precisa de recuo para ver a montanha em sua totalidade.
    • O discernimento analítico não é especulação vazia, mas uma necessidade para a visão sintética.
    • O recuo revela diferenças e permite a análise, mas também fornece a imagem total e unificada.
  • Ver Deus em toda parte é ver a infinitude nas coisas finitas, percebendo ao mesmo tempo a relatividade das categorias em que o homem se move, e compreender que só o “lembrança de Deus” no imutável escapa à irrealidade do tempo e da existência passageira.
    • A flor é eterna porque um eterno primavera se afirma através dela.
    • O instante presente já é passado antes mesmo de ocorrer.
    • Se o tempo parasse, a “mascarada humana” surgiria em toda a sua sinistra irrealidade.
  • “Ver Deus em toda parte” é, essencialmente, ver que nós não somos, e que só Ele é, sendo essa a razão pela qual a humildade é considerada a maior das virtudes, pois implica a cessação da egoidade, assim como a caridade perfeita é perder-se por Deus e, por acréscimo, dar-se aos homens.
    • O amor ao próximo é capital porque o “próximo” é, em última análise, o Si, e porque projetar-se no “outro” é o principal meio de a maioria dos homens se desapegar do “eu”.
    • Perder-se por Deus e dar-se aos homens estão indissoluvelmente ligados.
  • A forma é o ego, a incapacidade de ser outro que si mesmo e de ser totalmente si mesmo; o ego é empiricamente um sonho em que nos sonhamos a nós mesmos, com imagens do exterior e tendências que são respostas ao mundo, criando um tecido de sonhos exteriorizados e materializações interiorizadas que nos encerram.
    • O ego quer apenas sua própria vida, usando os conteúdos do sonho como pretextos.
    • O sonho do ego é um espelho que reverbera sua vida de múltiplas maneiras.
  • O ego é uma ignorância que se debate em modos objetivos de ignorância, como o tempo (ignorância do que será “depois”) e o espaço (ignorância do que escapa aos sentidos); se fôssemos “pura consciência” como o Si, seríamos “sempre” e “em toda parte”, e não seríamos “eu”, que é uma criação do espaço e do tempo.
    • O ego é como o Si congelado, precipitado “ao chão” e partido em mil fragmentos.
    • A matéria nos confere peso mineral e expõe à impureza e mortalidade.
    • A forma nos impõe um modelo e nos separa de um todo que, na morte, nos abandona.
    • O número nos repete e nos diversifica, pois a Toda-Possibilidade é infinita.
  • Sendo o ego não outro que o Si, está condenado à eternidade, e a recuperação do Centro (o Si liberto, que nunca deixou de ser livre) é a beatitude, enquanto o inferno é a resposta da Realidade ao ego que se quer absoluto, à periferia que usurpa a glória da Unidade.
    • O ego é dividido em si mesmo pela diversidade de tendências e pensamentos.
    • “A porta é estreita”, e “dificilmente um rico entrará no Reino dos Céus”.
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