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IMPOSSÍVEL CONVERGÊNCIA

  • A causa do sofrimento no mundo, segundo a convicção unânime da antiga cristandade e de todas as humanidades tradicionais, é a desarmonia interna do homem — o pecado —, não a simples falta de ciência e organização.
    • Nenhum progresso nem nenhuma tirania eliminará jamais o sofrimento; apenas a santidade de todos o conseguiria, transformando o mundo numa comunidade de contemplativos.
    • Buscar certo bem-estar em vista de Deus é uma coisa; buscar a felicidade perfeita na terra e fora de Deus é outra, e este segundo objetivo está de antemão condenado ao fracasso.
    • Enquanto os homens não realizarem a interioridade santificante, a abolição das provações terrestres é não apenas impossível, mas sequer desejável: o pecador necessita do sofrimento para expiar suas faltas e se arrancar do pecado.
    • Do ponto de vista espiritual, o mal não é por definição o que faz sofrer, mas o que frustra um máximo de almas de seus fins últimos.
  • Todo o problema se reduz a um núcleo de questões: de que vale eliminar apenas os efeitos e não a causa do mal?
    • De que vale eliminá-los se a causa permanece e continua a produzir efeitos semelhantes indefinidamente?
    • De que vale eliminá-los em detrimento da eliminação da própria causa, ou substituindo a causa por outra ainda mais perniciosa — o ódio ao sobrenatural e a paixão pelo terrestre?
  • Combater as calamidades do mundo fora da verdade total e do bem último cria calamidades incomparavelmente maiores.
    • Os que pretendem libertar o homem de uma frustração secular são na realidade os que lhe impõem a mais radical e irreparável das frustrações.
    • A civitas Dei e o progressismo mundano não podem convergir, ao contrário do que imaginam os que se esforçam por adaptar a mensagem religiosa às ilusões e agitações profanas.
  • A sentença evangélica Buscai primeiro o reino de Deus e sua justiça, e o resto vos será dado por acréscimo é a chave do problema da condição terrestre.
    • O mal só será vencido pelo jejum e pela oração — ou seja, pelo desapego do mundo exterior e pelo apego ao Céu interior.
    • O reino dos Céus está dentro de vós: o acesso ao Céu passa pelo sujeito humano.
  • O pecado refere-se a dois planos: o primeiro exige obedecer aos mandamentos; o segundo, seguir o Cristo — estabelecer-se na dimensão interior e realizar a perfeição contemplativa.
    • O sofrimento no mundo se deve não apenas ao pecado no sentido elementar, mas sobretudo ao pecado de exterioridade, que engendra fatalmente todos os outros.
    • Três graus: pecado-ato (assassínio, roubo, mentira, omissão do dever sagrado); pecado-vício (orgulho, paixão, avareza); pecado-estado (a exterioridade que é ao mesmo tempo dispersão e endurecimento, gerando todos os vícios e transgressões).
    • A ausência do pecado-estado é o amor de Deus ou a interioridade; só essa interioridade seria capaz de regenerar o mundo, e é por isso que se diz que o mundo teria desmoronado há muito sem a presença dos santos.
  • O pecado-vício e sobretudo o pecado-estado constituem o pecado intrínseco, e ambos se encontram no orgulho — noção-símbolo que resume tudo o que aprisiona a alma na exterioridade.
    • No primeiro grau — a transgressão —, só há pecado intrínseco em função da intenção: é sempre permitido mentir a um bandido ou matar em legítima defesa.
    • Fora de tais circunstâncias, o ato ilegal se integra ao pecado-vício e pelo mesmo caminho ao pecado-estado — o endurecimento do coração ou o estado de paganismo segundo a linguagem bíblica.
  • A impossível convergência é em suma a aliança entre o princípio do bem e o pecado organizado: as potências do mundo organizam o pecado com o objetivo de abolir os efeitos do pecado.
    • A nova pastoral busca falar a linguagem do mundo, entidade que se tornou honorável sem que se possa discernir a menor razão para essa inesperada promoção.
    • Querer falar a linguagem do mundo é fazer a verdade falar a linguagem do erro e a virtude falar a linguagem do vício.
    • O problema da pastoral em busca de uma linguagem se reduz ao seguinte tour de force: como falar latim para que se acredite ser chinês?
    • Com a adulteração relativista que isso implica, pode-se ganhar adeptos, mas não se converte ninguém; não se ilumina nem se chama para a interioridade salvadora.
  • Compreender a religião é aceitá-la sem lhe impor condições; impor condições é não compreendê-la e torná-la subjetivamente ineficaz.
    • Impor condições — seja no plano do bem-estar individual ou social, seja no da liturgia que se quer tão plana e trivial quanto possível — é ignorar fundamentalmente o que é a religião, o que é Deus e o que é o homem.
    • O humanitarismo profano com o qual a religião oficial pretende se confundir é incompatível com a verdade total e com a verdadeira caridade: o bem-estar material do homem terrestre não é todo o bem-estar e não coincide com o interesse global da pessoa humana imortal.
  • Para estar a salvo de todo reprovação de inconsequência, hipocrisia e traição, não basta estar numa religião: é preciso estar nela em verdade e em espírito.
    • O versículo corânico: Ó filhos de Israel, lembrai-vos de Minha misericórdia com a qual vos cobri e cumpri vosso compromisso para comigo; então cumprirei Meu compromisso para convosco — exprime a verdade de que tal aliança tem necessariamente caráter unilateral.
    • O homem não pode se situar no mesmo terreno de realidade que o Absoluto que só Ele é real; uma relação entre Deus e o homem, entre o Absoluto e o relativo, é unilateral a priori.
    • A reciprocidade entre Deus e o homem só é realizável ao preço de certas condições que o homem deve cumprir e que lhe conferem, diante de Deus, uma estabilidade simbolicamente conforme à imutabilidade divina.
    • O homem só pode beneficiar da fidelidade divina graças à sua estabilidade espiritual: sua situação na aliança é condicional, pois o homem não porta em si mesmo sua razão suficiente, sendo ele mesmo apenas por participação na imutável Ipseidade divina.
  • O caráter incondicional de uma promessa divina que consagra uma aliança refere-se à absoluta fidelidade de Deus, não à eventual infidelidade do homem.
    • A promessa é absoluta enquanto emana de Deus; não o é no sentido de permanecer válida quando o homem, tendo perdido o estado de graça, deixou de ser aquele a quem a promessa se dirigia.
    • Toda aliança que estabelece a origem de uma tradição implica necessariamente, por mais incondicional que seja sua formulação, uma reserva concernente ao homem que, no momento da aliança, se tornou simbolicamente absoluto.
    • É somente enquanto o relativo é um espelho do Absoluto — representando mesmo, em grau que pode ser dito sobrenatural, uma espécie de aspecto simbólico do Absoluto — que pode haver medida comum, representada pela aliança, entre Deus e o homem.
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