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MÍSTICA VOLUNTARISTA
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A mística voluntarista é uma via de amor que, ao contrário da bhakti hindu, não comporta nenhum elemento intelectual ativo em seu método, exigindo qualificações quase exclusivamente morais.
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Vive de símbolos dogmáticos e conceitos teológicos, mas não de intelecções: é inteiramente centrada no amor — a vontade com concomitâncias emotivas — e não na gnose.
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Em certo sentido é negativa, pois seu método consiste sobretudo na negação dos apetites naturais, daí o culto do sofrimento e a importância das provas e consolações.
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São João da Cruz é citado como exemplo: para ele, o espírito é limitado à ciência natural e toda conhecimento deve passar pelos sentidos — o que equivale à negação do intelecto e à redução da inteligência à sola razão.
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Nessa perspectiva, não há lugar nem via para o homem de natureza intelectiva, condenado a se ocupar de filosofia e a seguir a via de amor apenas marginalmente.
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Um caráter particularmente marcante da mística voluntarista é a humildade sentimental, que aparece como fim em si mesma e exclui todo concurso da inteligência.
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A humildade como tal é condição de espiritualidade em toda parte, mas só na mística passional ela se situa no plano da sentimentalidade.
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Isso prova que os grupos humanos a que ela se dirige têm tendência fundamental ao individualismo — aquela obsessão do eu que influi sobre a inteligência, gerando propensão ao racionalismo, à aventura filosófica e ao egocentrismo.
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Nos grupos cuja mentalidade não é centrada no indivíduo, a ascese não pode acentuar a humilhação sistemática e cega, contrária à natureza das coisas e à inteligência.
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O que distingue mais o metafísico nato do homem ordinário é que no primeiro a paixão cessa onde começa a inteligência, enquanto no segundo a inteligência não se opõe por si mesma ao elemento passional e se torna seu veículo.
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Santa Teresa d'Ávila, cuja inteligência era viva, reconhecia os perigos da posição da humildade sentimental, mas não lhe trouxe remédio decisivo por causa do caráter empírico de seu próprio ponto de vista.
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Ela recusa que se permaneça enfurnado na consideração da própria miséria, e descreve longamente as tolices a que o demônio induz as almas por meio de escrúpulos que tomam a aparência de humildade.
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O verdadeiro remédio seria purificar a ideia de humildade, restituindo-lhe seu sentido profundo: o conhecimento sadio da natureza das coisas.
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Todo esse caos de dificuldades artificiais e sutilezas psicológicas quase inextricáveis resulta da abolição orgulhosa da inteligência.
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O homem que não sabe metafisicamente que não é nada deve sempre se lembrar com esforço e lamentos que é baixo e indigno — o que no fundo não acredita.
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A caça aos pecados denota perspectiva bastante exterior, pois se o homem é pecador, não é de forma superficial e quantitativa que se libertará de sua natureza.
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A atitude sadia reduz-se a: fazer o que está prescrito, abster-se do que está proibido, esforçar-se nas três virtudes fundamentais — humildade, caridade e veracidade.
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Sobre essa base, o espírito pode se concentrar em Deus, que se encarregará de transformar a virtude simbólica em virtude efetiva e sobrenatural.
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Exagerar o pecado vai junto com o individualismo; perseguir o pecado em toda parte é cultivá-lo, enquanto o objetivo da espiritualidade é superar o humano, não amplificá-lo.
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Cristo disse Sede perfeitos como vosso Pai do Céu é perfeito — e a perfeição de Deus é bem-aventurada, de modo que a do homem deve também ter um aspecto de serenidade e paz que a contemplação da verdade confere.
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A doutrina sanjuanista é a do vazio segundo a fé, a esperança e a caridade: vazio do entendimento, da memória e da vontade.
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A concepção da esperança e da caridade é universal, mas não a da fé: o vazio deveria ser não a negação da inteligência pura, mas a do mental, do pensamento formal.
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Em vez de o entendimento se apagar diante do dogma, é o mental que deve se apagar — não diante do dogma, mas diante da pura intelecção, a visão intelectiva direta e supraformal.
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Quando são João da Cruz afirma que a alma não se une a Deus compreendendo, seria preciso poder ler: nem pensando; e quando diz que a Fé impede o entendimento de compreender, seria preciso ler: impede de raciocinar.
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Não se pode colocar a inteligência pura — que é algo de Deus — no mesmo plano que as faculdades estritamente individuais.
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A diferença entre a fé como crença e a fé como gnose está em que a obscuridade da fé, no crente ordinário, está na inteligência, enquanto no metafísico está na vontade, na participação do ser.
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No sábio, o assento da fé é o coração, não o mental, e a obscuridade vem do estado de individuação, não de uma não-inteligência congênita.
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A fé do sábio tem dois véus: o corpo e o ego, que velam não o intelecto, mas a consciência ontológica.
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O conhecimento teórico mais perfeito não pode abolir a ignorância existencial; em compensação, o conhecimento metafísico é a chave certa para a realização da Verdade, e a intelecção por si só tem o poder de purificar o coração, tornando supérfluas muitas complicações de uma ascese individualista.
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Seria ilógico perguntar como as limitações do individualismo místico se conciliam com a santidade e os sinais mais evidentes da graça divina — êxtases, levitações e outros —, pois o gênio religioso e a heroicidade das virtudes fornecem explicação suficiente.
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A envergadura da inteligência é outra questão: a heroicidade das virtudes e os milagres não bastam para provar o valor universal de uma doutrina — caso contrário o Catolicismo deveria aceitar a teologia palamita por causa de são Serafim de Sarov, ou as doutrinas asiáticas pela santidade incontestável de certos de seus representantes.
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A santidade dos autores é garantia de ortodoxia intrínseca, mas não critério de perfeição intelectual das doutrinas sanjuanista e teresiana.
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Todas as vias espirituais tendem para a União, de modo que é normal que a santidade em si possa comportar estados e estações que ultrapassam a eventual estreiteza de seu ponto de partida.
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Santa Teresa d'Ávila é citada descrevendo a sétima morada: a ausência quase contínua de secura, a isenção de perturbações internas, o calme mais pur, a certeza de que Deus é o autor da graça, o silêncio profundo que recorda a construção do Templo de Salomão, onde nenhum ruído devia ser ouvido.
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Se o objetivo é a União, esta deve poder se anunciar no percurso.
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