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PENSAMENTO: LUZ E PERVERSÃO
* A palavra “filosofia” precisa ter restituído seu sentido original de ciência de todos os princípios fundamentais, operando com a intuição que percebe, não apenas com a razão que conclui.
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Subjetivamente, a essência da filosofia é a certeza; para os modernos, ao contrário, é a dúvida.
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A pretensão de raciocinar sem nenhuma premissa (voraussetzungsloses Denken) é ela mesma uma ideia preconcebida — contradição clássica de todo relativismo.
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Duvida-se de tudo, exceto da dúvida.
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A solução do problema do conhecimento não é a promoção do dúvida, mas o recurso a uma fonte de certeza que transcende o mecanismo mental: o puro Intelecto, ou a Inteligência em si.
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O chamado “século das luzes” não suspeitava da existência do Intelecto.
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Tudo o que o Intelecto podia oferecer — de Pitágoras aos escolásticos — era para os enciclopedistas dogmatismo ingênuo ou obscurantismo.
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Paradoxalmente, o culto da razão acabou no infra-racionalismo que é o existencialismo em todas as suas formas, substituindo ilusoriamente a inteligência pela existência.
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Alguns pensadores tentaram substituir a premissa do pensamento pela personalidade do pensador, elemento arbitrário, empírico e subjetivo, o que equivale a destruir a própria noção de verdade.
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Quanto mais o pensamento quer ser concreto, mais se perverte.
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O empirismo foi o primeiro passo para o desmantelamento do espírito; buscou-se a originalidade, e a verdade foi sacrificada.
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Os sofistas, com Protágoras à frente, são os verdadeiros precursores do pensamento moderno, pois se limitavam a raciocinar sem se preocupar em perceber e dar conta do que é.
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É equivocado ver em Sócrates, Platão e Aristóteles os pais do racionalismo ou do pensamento moderno em geral.
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Esses filósofos raciocinam — assim como Shankara e Râmânuja —, mas nunca afirmaram que o raciocínio é o alfa e o ômega da inteligência e da verdade, nem que experiências ou gostos determinam o pensamento e primam sobre a intuição intelectual e a lógica.
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A filosofia moderna é a codificação de uma enfermidade adquirida: a atrofia intelectual do homem marcado pela queda teve como consequência uma hipertrofia da inteligência prática.
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Dessa hipertrofia resultaram a explosão das ciências físicas e o surgimento de pseudociências como a psicologia e a sociologia.
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O racionalismo tem circunstâncias atenuantes diante da religião, na medida em que se faz porta-voz de legítimas necessidades de causalidade suscitadas por certos dogmas tomados ao pé da letra.
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Um racionalista pode ter razão no plano das observações e das experiências, pois o homem não é um sistema fechado.
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Ninguém pode ser censurado por se escandalizar com as tolices e os crimes perpetrados em nome da religião ou com as antinomias entre os diferentes credos.
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Os horrores não são apanágio da religião — os pregadores da deusa razão fornecem a prova —, e os excessos e abusos estão na natureza humana.
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O “imperativo categórico” de Kant não significa grande coisa da parte de um pensador que nega a metafísica e ignora que a moralidade intrínseca é antes de tudo conformidade à natureza do Ser.
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As aparentes absurdidades de certas formulações teológicas se explicam pela tendência voluntarista e simplificadora inerente à piedade monoteísta, que reduz os mistérios supremos do Princípio divino suprapessoal ao Princípio divino pessoal.
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É a distinção entre o Sobre-Ser e o Ser, ou entre a Gottheit e o Gott em termos eckhatianos, ou entre o Para-Brahma e o Apara-Brahma em termos vedantinos.
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Na teologia semítica monoteísta, o Deus pessoal não é concebido como projeção do puro Absoluto; ao contrário, o puro Absoluto é considerado como essência desse absoluto já relativo que é o Deus pessoal.
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Resulta disso graves dificuldades lógicas, mas inaperceptíveis do ponto de vista do temor e do amor de Deus.
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A Toda-Possibilidade e a Toda-Potência pertencem em realidade ao Sobre-Ser, não ao Ser senão por participação, o que descarrega o Princípio-Ser de certa responsabilidade cosmológica.
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A ideia de um Deus infinitamente poderoso e infinitamente bom que cria um mundo repleto de imperfeições e calamidades, incluindo um Inferno eterno, só pode ser resolvida pela metafísica.
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O crente aceita essas enigmas não por ingenuidade, mas por um instinto do essencial e do sobrenatural.
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A perda desse instinto permitiu ao racionalismo eclodir e se difundir: a piedade se enfraquecendo, a impiedade pôde se afirmar.
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O mundo da fé comporta inegavelmente certa ingenuidade, mas o mundo da razão carece totalmente de intuição intelectual e espiritual, o que é incomparavelmente mais grave.
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Os teólogos respondem às objeções racionais sobre as motivações divinas com uma recusa legítima: quem é o homem para sondar as motivações de seu Criador?
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Deus é incompreensível, e incompreensíveis são suas vontades — o que, do ponto de vista da mâyâ terrestre, é a estrita verdade, e a única que a humanidade à qual a mensagem religiosa se dirige é capaz de assimilar com fruto.
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Trata-se de uma assimilação mais moral do que intelectual: não se prega o platonismo a pecadores em perigo de perdição.
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As religiões não tinham escolha: a cisão, no homem médio da idade de ferro, entre o Intelecto e uma inteligência extravertida e superficial, as obrigava a tratar os adultos como crianças, sob pena de ineficácia psicológica, moral e social.
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As ideologias profanas, ao contrário, tratam como adultos homens tornados quase irresponsáveis por suas paixões e ilusões, incitando-os a brincar com fogo.
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Para o teólogo voluntarista e moralista, é verdadeiro o que produz bons resultados; para o metafísico nato, ao contrário, é eficaz o que é verdadeiro.
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Nem todos são pneumáticos, e é preciso equilibrar as sociedades e salvar as almas como se pode.
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A gnose tem direito à existência, mas os teólogos a veem com maus olhos, e os racionalistas também a atacam, cada grupo por motivos opostos.
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Os partidários da fé reduzem a inteligência à sola razão e acusam a inteligência de orgulho intelectual quando ela segue os imperativos de sua própria natureza.
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Os racionalistas acusam a gnose de substituir a inteligência por um dogmatismo gratuito e uma mística irracional.
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Um terceiro adversário da Sophia Perennis é o realizacionismo ou o extatismo: o preconceito místico — bastante difundido na Índia — que afirma que só a realização ou os estados espirituais contam.
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Esse preconceito esquece que sem as doutrinas — a começar pelo Vedanta — ele não existiria, e perde de vista que uma realização subjetiva fundada na ideia do Si imanente necessita do elemento objetivo que é a Graça do Deus pessoal e o concurso da Tradição.
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Falsos mestres, herdeiros do ocultismo e inspirados pelo realizacionismo e pela psicanálise, inventam enfermidades inverossímeis para inventar remédios extravagantes.
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Encontram sempre ingênuos, mesmo entre os chamados intelectuais, porque essas novidades vêm preencher um vazio que nunca deveria ter ocorrido.
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O ponto de partida de todos esses métodos é uma falsa imagem do homem; o objetivo é o desenvolvimento de poderes latentes ou de uma personalidade amadurecida ou liberada.
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Como esse ideal não existe e a premissa é imaginária, o resultado só pode ser uma perversão — a rançon de um racionalismo supersaturado que explodiu em seu limite extremo, tornando-se agnosticismo desprovido de toda imaginação.
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Rigorosamente falando, há apenas uma filosofia, a Sophia Perennis, que é também — em sua integralidade — a única religião.
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A Sophia tem duas origens: uma intemporal e vertical, descontínua como a chuva que pode descer a qualquer momento do céu; e uma temporal e horizontal, contínua como um riacho que brota de uma fonte.
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Os dois modos se encontram e se combinam: a Revelação metafísica atualiza a faculdade intelectiva, e esta, uma vez despertada, dá lugar à intelecção espontânea e independente.
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A dialética da Sophia Perennis é descritiva, não silogística: as afirmações não são produto de uma prova, embora possam utilizar provas reais como ilustração.
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A linguagem da Sophia é antes de tudo o simbolismo em todas as suas formas.
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A abertura à mensagem dos símbolos é dom próprio do homem primordial e de seus herdeiros de toda época: Spiritus ubi vult spirat.
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Um dos paradoxos da época moderna é que o esoterismo, discreto por força das coisas, se vê obrigado a se afirmar publicamente, pois não há outro remédio para as confusões do tempo presente.
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Como dizem os cabalistas: é melhor divulgar a Sabedoria do que esquecê-la.
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