Pierre Stables
STABLES, Pierre. Deux clefs initiatiques de la “Légende dorée”, la kabbale et le “Yi-king”. Paris: Dervy, 1975
Em todos os planos daquilo que René Guénon denomina “a manifestação”, vê-se os homens de nossa época, e sobretudo os ocidentais, buscar por detrás das aparências, cavar sua terra, romper os tetos de sua camada vital, o ar. Já não lhes basta viver entre a terra e o céu objetivos, é-lhes necessário descobrir o oculto material, esteja ele sob seus pés ou acima de suas cabeças. Evidente no plano das coisas grosseiras, essa tendência manifesta-se também no plano psicológico e igualmente no domínio religioso. Esse imenso movimento de desvelamento significa que o ocidental que pensa, do cientista ao psicólogo e ao homem em busca de Deus, é movido por uma operação alquímica que se realiza, bem ou mal, nele e por meio dele, e ordena sua busca: todos, consciente ou inconscientemente, fazem, a seu modo, o percurso arquetípico do ta'wil que Henri Corbin descreveu: “ocultar o aparente, desocultar o oculto”, e tudo isso é realizado em planos que vão do mais grosseiro ao menos grosseiro. Mas a primeira parte dessa dupla função só é inteiramente possível para aqueles que praticam a alquimia espiritual. Os outros, físicos e psicólogos, não ocultam o domínio das aparências, antes o poluem, e as brumas que espalham sobre a terra mancham-na e obscurecem o céu.
O Sr. Albert de Pouvourville, Matgioi, mostrou-nos onde se encontra o verdadeiro Céu, e o caminho indicado por esse Mestre atraiu-nos.
Nosso trabalho tem por objetivo indicar que há uma verdadeira escala, a de Jacó, cuja via ascendente é a “Escada Santa” de São João Clímaco. É próprio de nosso tempo manifestar o que se viu pessoalmente do universal, ainda que bem oculto, nessa “Religião de Mistérios”, no bom sentido do termo, que é o cristianismo. Ora, não é, no momento atual, por meio de obras edificantes, nem por análises de experiências vividas, marcadas por “psicologismo”, que se pode fazer entrever a existência da realidade espiritual. Em nossos dias, é pela confrontação audaciosa da essência das diversas tradições que se pode interessar e talvez agir.
Escolhemos o Yi-King, a Cabala e a Lenda Dourada, porque esta mostra o desfecho lógico das duas primeiras e, sem elas, é incompreensível.
Tal confrontação, abordando o âmago do tema, que é a realização espiritual, e somente por meios simbólicos, afasta todo sincretismo, desde que se consinta em não “mentalizar”, mas, ao contrário, permanecer no domínio do “Coração” das espiritualidades às quais se vinculam esses textos. Pois o sincretismo é uma forma de mentalização, e o domínio que estudamos por meio dos símbolos é supramental. É por essa razão que aqui não se encontrará referência alguma às teorias intelectuais de etnólogos, sociólogos, psicólogos em voga.
Nosso estudo deixará, portanto, de lado, voluntariamente, toda uma série de pseudoproblemas, por serem meramente históricos e intelectuais, como o da Tradição Primordial, sobre a qual ninguém se entende, uns afirmando-a, outros negando-a, outros ainda interpretando-a a seu modo. Que nos importa que ela exista ou não, que seja ou não uma filiação irradiada a partir de um centro criado, uma transmissão regular, ou uma apreensão súbita assumindo por vezes a forma de iniciação espontânea seguida, ou não, de transmissão oral, ou de pensamento a pensamento? Tudo isso pertence às interpretações de um fogo mental alimentado por dados dos sentidos e da consciência de vigília, em que todas as teses explicativas são perfeitamente legítimas diante das coincidências perturbadoras que apresentaremos ao leitor, em número impressionante.
Mas o essencial está em outro lugar que não nesses pontos de vista humanos. Encontra-se no coração daqueles que sabem por que vivem e morrem por sua certeza, por seu conhecimento adquirido por meio da humildade, diante do que os transcende.
Tais foram os grandes espirituais cujos trabalhos ilustram nosso estudo: todos compreenderam que “conhecer-se” é conhecer, por experiência humilde, os limites da abertura do compasso que traça para cada um de nós o círculo fronteiriço de sua compreensão possível. Conhecer-se não é conhecer nossos pensamentos discursivos, conscientes ou não, nem nossas associações de imagens e ideias individuais ou de grupos de pensamentos, mas renunciar a elas e unir deliberadamente o próprio espírito a uma espiritualidade universal cujos símbolos substituir-se-ão aos miragens projetadas pelo eu.
Desvincular o leitor de seus laços associativos não tradicionais e fazê-lo viver na simbólica universal, tal é o nosso objetivo.
