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GVEI 483-499 CONCLUSÃO — DO DOGMATISMO TEMPORALISTA À REDESCOBERTA DA TRANSCENDÊNCIA

SER E INDIVIDUALIDADE (GVEI)

I. O Círculo da Imanência

  • 1.1. A Impasse do Instante Negativo
    • A análise da estrutura temporal negativa conduz a um “círculo do vazio” ou “círculo da imanência”.
    • A passagem das estruturas panteístas para a esfera negativa não implica um retorno necessário à Transcendência.
  • 1.2. A Dupla Recusa e a Vontade de Potência
    • A consciência temporalista recusa simultaneamente:
      • Perder-se no Vazio do Não-Ser metafísico (Transcendência).
      • Identificar-se completamente com o Nada (devido a um “instinto ontológico” e à atividade da vontade).
      • Esta dupla recusa garante a continuidade e unidade das três estruturas temporais, apesar da mudança do tempo criador para o tempo destruidor.
  • 1.3. A Afirmação Paradoxal do Nada
    • Do ponto de vista interno da imanência, o “Nada substancial” nunca é vivido como negativo, mas sempre como positivo e valorizado.
    • A consciência, mesmo ao descobrir o absurdo, afirma a equivalência entre o ser e o tempo, fundamentando sentido e valor no devir.
  • 1.4. A Individuação no Círculo da Imanência
    • As estruturas temporais falham em justificar uma irredutibilidade qualitativa* do indivíduo:
    • Estruturas Panteístas: O indivíduo é integrado em totalidades cósmicas (Humanidade, Vida).
    • Esfera Negativa: O indivíduo escapa à integração, mas perde toda profundidade e qualidade, reduzindo-se a um movimento puro de “transdescendência” vazia.
    • A suposta “individuação radical” é, na verdade, abstracta, formal e uniformizante (coincidência da extrema singularidade com a extrema uniformidade).
  • 1.5. A Proximidade Iônica da Transcendência
    • No ponto mais baixo da revolta (Esfera Negativa), a Transcendência está paradoxalmente mais próxima.
    • A lucidez satânica desmistifica as ilusões das totalidades panteístas e é obsediada pela ideia de Transcendência, que nega explicitamente.
    • No entanto, esta proximidade é anulada pela identificação da consciência com um “Nada hipostasiado”, um reflexo invertido e infinitamente resistente do Infinito metafísico, formando um ecrã que a separa da verdadeira Transcendência.

II. O Problema da Passagem da Imanência à Transcendência

  • 2.1. A Discontinuidade Radical e a Ilusão do Círculo
    • Do ponto de vista da imanência, há uma descontinuidade radical e intransponível entre o finito e o Infinito.
    • Não há passagem natural ou necessária. A noção de “graça” nas tradições espirituais expressa esta impossibilidade de auto-superação.
    • No entanto, do ponto de vista metafísico último, este “círculo da imanência” é uma ilusão (Maya), pois o finito nunca existiu verdadeiramente separado do Infinito.
  • 2.2. O Homem Traditional vs. O Homem Moderno
    • Homem Traditional: Vive numa mentalidade onde o finito é espontaneamente transparente ao Infinito. O mundo é um reflexo do Absoluto, e a razão é um reflexo do Intelecto divino. A “prova” de Deus parte de uma consciência já impregnada pela Transcendência.
    • Homem Moderno (Temporalista): Acredita na autonomia do eu e do mundo. O finito é opaco e auto-suficiente. As estruturas panteístas erigem o homem e o mundo em Absolutos imanentes, tornando impossível qualquer passagem a partir do seu conteúdo positivo.
  • 2.3. O Ponto de Partida Possível: A Esfera Negativa
    • A única possibilidade de passagem para o homem moderno está na Esfera Negativa.
    • Ao experienciar o vazio e o absurdo dos absolutos imanentes (panteístas), a consciência negativa destrói as ilusões que obscureciam a Transcendência.
    • O “écran” do Nada hipostasiado, embora ainda resistente, é menos opaco que o das totalidades panteístas.
  • 2.4. O Satanismo Explícito e o Reconhecimento Implícito
    • A revolta explícita da consciência negativa (satanismo) baseia-se num reconhecimento implícito da Transcendência.
    • Ela precisa de Deus para se afirmar contra Ele. Ao negar explicitamente a Transcendência, reconhece-a implicitamente como a única realidade absoluta, num mundo que descobriu ser vazio.
  • 2.5. A Conversão: Contemplação do Nada e “Graça”
    • A conversão requer que a subjetividade, em vez de se crispar no seu nada (afirmação satânica), o contemple.
    • Este acto de contemplação desfaz a hipostasia e reintegra o Nada na plenitude do Ser.
    • Contudo, este retorno não é uma necessidade lógica ou dialética. É um “mistério” ou uma “graça”.
    • Existe uma correlação circular: a experiência real* do desespero (que leva ao desejo do Infinito) já pressupõe um desejo latente do Infinito (que permite a experiência real do desespero).
    • A ruptura do círculo resulta de um retornoamento abrupto da vontade, onde o desejo do Infinito, até então latente, surge ao contacto com a experiência do nada, possibilitado por essa mesma experiência. Este processo é facilitado pelo sofrimento e pela consciência da morte, que podem abater o orgulho do ego.
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