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FUTURO DA PHILOSOPHIA PERENNIS

VERSLUIS, Arthur. Perennial philosophy. Minneapolis, Minnesota: New Cultures Press, 2015.

  • A filosofia perene não é em si mesma política, econômica ou cultural, mas contato com o que é anterior a tudo isso, sendo em seu cerne o contato com o que é anterior a qualquer coisa que hoje se chamaria de “filosofia” ou “religião” — trata-se de como aproximar-se e realizar a própria verdade, e isso sempre será uma jornada individual.
    • A jornada individual existiu no passado e às vezes gerou renascimentos culturais; existe hoje e existirá no futuro.
    • A busca individual pela verdade continuará enquanto existirem seres humanos.
  • O “anti-essencialismo,” prevalente em círculos intelectuais progressistas do final do século XX, estava fundado no igualitarismo e ocultava um niilismo tácito: ao rejeitar a verdade metafísica e as essências ou ideias metafísicas, o indivíduo fica mais ou menos à deriva, o que se expressa em formas de relativismo ou antinomianismo.
    • A premissa subjacente do anti-essencialismo era o igualitarismo.
    • O argumento construcionista — de que os seres humanos constroem suas próprias verdades e realidades — tem alguma validade, pois se interpreta o que se vê e se buscam padrões no que se percebe.
  • A afirmação de que não existe verdade metafísica pressupõe que toda cognição humana é razão discursiva colorida por paixões, mas se a ascensão contemplativa é possível e acompanhada pelo cultivo de virtudes — bondade, amor, compaixão, generosidade —, então a realização da verdade também pode ser possível.
    • A questão real do “essencialismo” é metafísica, não apenas física ou discursiva.
  • Compreender a filosofia perene em seus próprios termos transforma dramaticamente a visão de tudo — o que antes parecia razoável revela-se como nonsense —, e mesmo que todos afirmem não existir verdade metafísica, isso não elimina a possibilidade de que ela exista.
    • Quando se vê as coisas à luz da filosofia perene, o que antes era irreconhecível como nonsense revela-se como tal.
  • “Verdade” aqui não significa uma verdade particular, mas a realidade última — além do alcance da razão discursiva, inexprimível adequadamente em linguagem, além de sujeito e objeto —, e a tradição Platônica sustenta que é possível ascender pela contemplação a vislumbres e mesmo à realização da natureza da realidade última.
    • A tradição Platônica, de Pitágoras a Plotino, traz a ideia recorrente de renascimento cultural centrado na possibilidade de realizar uma comunidade com a ascensão contemplativa e a transcendência em seu centro.
  • Em muitos domínios da vida contemporânea, toda orientação direcional parece perdida, e nas artes não existe um cânon aceito nem uma maneira de estabelecê-lo, enquanto a expressão artística contemporânea tende ao auto-expressionismo narcisista e ao iconoclasmo crescentemente provocador.
    • A palavra “cânon” vem do grego kanon, κανών, e significa um padrão de medida.
    • Os defensores da ideia de um cânon são vistos como impossibilitados de retroceder, e o futuro parece ser um iconoclasmo individualista sem meios de medir significado ou valor.
  • Na tradição Pitagórica e nas esculturas gregas e budistas clássicas, a beleza terrena é bela quando manifesta com maior clareza a beleza celeste ou transcendente — atemporal —, refletindo proporções e cânones geométrico-matemáticos; quando essa proporcionalidade não é respeitada, o resultado é desequilibrado.
    • O que é retratado também é invocado e guia o observador em direção a uma aspiração cultural e espiritual de ser como o que vê.
  • A medida de uma obra de arte, sob a perspectiva da filosofia perene, é o grau em que ao contemplá-la o observador se une ao que ela manifesta — o grau em que a divisão aparente entre sujeito e objeto se dissolve —, e o que se perde é o egoísmo ordinário, enquanto o observador é elevado em direção ao celestial ou transcendente.
    • Uma grande obra de arte pode ser estática ou dinâmica, incluir o escuro e o luminoso, ser aterrorizante, trágica, cômica ou horrífica, mas ainda assim transporta o observador além de si mesmo.
    • O poeta Rainer Maria Rilke expressou isso ao evocar o encontro com um anjo, que na tradição Platônica desempenha papel análogo ao dos deuses.
  • O cânon natural das artes baseia-se na ascensão contemplativa em que eu e outro, sujeito e objeto, conhecedor e conhecido revelam-se progressivamente como um, e a arte mais elevada é a que mais completamente une o observador com a beleza, bondade e verdade divinas que brilham através dela.
    • A medida da grande arte é a exaltação — a expansão para além do que transcende o indivíduo.
    • Por “cânon” não se entende uma prescrição rígida, mas a medida da grande arte na escala da exaltação e da transcendência do eu e do outro.
  • Dionísio Areopagita, em Hierarquia Celeste, observou que alguns símbolos do divino são belos e outros são discordantes ou chocantes, mas ambos pertencem à via positiva — o caminho afirmativo através das imagens em direção à união transcendente —, e a arte pode servir como suporte contemplativo que ressoa e desperta uma ascensão contemplativa no observador.
    • Parece ter-se esquecido que a arte pode funcionar como suporte contemplativo; ela não é contemplação em si, mas é muito afim a ela.
  • Na literatura, o cânon literário tal como habitualmente ensinado no ensino superior refere-se vagamente a “clássicos” sem considerar em que sentido uma obra é realmente clássica — do latim classicus, o ideal em sua classe —, e o campo literário está tão fragmentado que a própria ideia de cânon literário está em descrédito.
    • A filosofia perene oferece um modo inteiramente diferente de compreender o que um cânon literário significa.
  • A tradição literária ocidental tem suas origens no Orfismo, e a cadeia dourada de filósofos-poetas-videntes começou com Orfeu e incluiu Pitágoras, Platão e Plotino; a poesia órfica era uma forma de epiclesis — invocação dos deuses —, e seu poder pode ser medido pelo grau em que divinamente intoxica, eleva em direção ao divino e desperta uma espaciosidade transcendente.
    • Orfeu era um poeta e músico cujas canções eram acompanhadas por sua lira, produzindo harmonias cósmicas.
    • Os iniciados nos Mistérios eram descritos como divinamente intoxicados — en theos, origem da palavra “entusiástico.”
    • Poesia nesse contexto é mágica e invocatória; são “palavras de poder,” mythos e logos juntos.
  • A grande poesia e a grande literatura transportam para além do sentido ordinário do eu — em um êxtase que é também uma enstasia, intimidade e transcendência ao mesmo tempo —, e esse transporte inclui implacabilidade, terror, ira, alegria, serenidade e amor, sendo em última análise além de todos eles.
    • Esse tipo de exaltação se experiencia em Emerson e Thoreau, especialmente em Walden; em Rilke, Yeats, Eliot e Kathleen Raine; também em Shakespeare, Melville em Moby Dick e McCarthy em Blood Meridian.
    • A grande literatura é iniciática: nela se experiencia exaltação, expansão do que significa ser humano e vislumbres do que é mais do que humano.
  • O padrão para medir arte, literatura e música é a paradosis — a tradição em si, o que é transmitido de geração em geração como o mais valioso, o que mais evoca exaltação, luminosidade e espaciosidade —, e a cadeia dourada de filósofos é horizontal no tempo, mas cada figura nela representa uma abertura vertical para a atemporalidade.
    • O que é valioso na cadeia é medido individualmente pelo grau em que evoca atemporalidade no observador, e cumulativamente pelo tesouro das gerações anteriores.
    • A Academia Platônica era não tanto uma instituição quanto uma maneira de transmitir essa tradição à próxima geração.
  • A economia contemporânea pode ser entendida como a objetificação de tudo — outras pessoas, florestas, solo, animais, água —, e a filosofia perene não se opõe diretamente ao consumismo, mas lembra que existe outra maneira de entender a arte, a literatura, a música e a própria vida humana.
    • Não importa tanto se arte, literatura ou música são comodificadas, se ainda assim podem servir como suportes para a ascensão contemplativa e proporcionar exaltação e enobrecimento.
    • O propósito da vida humana, em última instância, é a ascensão contemplativa e o despertar para a transcendência.
  • Uma cultura animada pela filosofia perene é naturalmente orientada para a realização espiritual, e sua economia é moldada não pelo desejo, ganância e inveja de objetos de troca, mas pela paixão pela transcendência expressa através das artes e práticas contemplativas como a meditação.
    • O Budismo histórico no Tibete e o Budismo butanês são exemplos de culturas orientadas para a prática e realização contemplativas — experimentos nobres na história humana.
    • A marca central de tal cultura é a compaixão estendida não apenas à família ou comunidade, mas a todos os seres humanos e, além da humanidade, à terra, às árvores, às águas, aos ventos, aos peixes, às aves e aos animais.
  • Aldous Huxley observou, perto do fim de seu livro sobre filosofia perene, que nessa tradição é axiomático que o fim da vida humana é a contemplação; que a ação é o meio para esse fim; que uma sociedade é boa na medida em que torna possível a contemplação para seus membros; e que a existência de pelo menos uma minoria de contemplativos é necessária para o bem-estar de qualquer sociedade.
    • Tal perspectiva é 180° contrária à “filosofia popular de nosso tempo,” assim como a economia que ela encoraja é 180° contrária à economia popular contemporânea.
    • O modelo econômico popular desagrega tudo para que possa ser comodificado, o que é visível tanto em sociedades capitalistas quanto comunistas.
  • A filosofia perene encoraja a descentralização política, e tanto Platão imaginou não o império ideal, mas a cidade ideal, quanto Plotino buscou fundar Platonópolis, pois uma cidade ou localidade é mais adequada para a governança sábia por haver responsabilidade e prestação de contas locais.
    • O gigantismo político não é sustentável, como demonstraram a queda do império soviético, o declínio do império britânico e o declínio do império americano.
    • Quando um sistema político torna-se demasiado gigantesco e desconectado do povo, é capturado por indivíduos e grupos que o exploram em benefício próprio.
    • O modelo butanês de família real orientadora e o sistema suíço de referendos públicos são exemplos em acordo com a filosofia perene.
  • A filosofia perene não é ideológica nem doutrinária, não tem agenda milenarista e não está ancorada em sonhos de consumo material como progresso, mas representa uma maneira inteiramente diferente de compreender o propósito humano no mundo, aplicável às artes, à literatura, à cultura, à economia e à política.
    • Sua independência de qualquer construto religioso ou tipo artístico, literário ou político particular é o que a torna perene e o que torna o termo alternativo “ciência contemplativa” igualmente apropriado.
    • Novas culturas podem emergir da ciência contemplativa em ambientes budistas, hindus, cristãos, pagãos europeus ou não alinhados a qualquer tradição religiosa preexistente.
  • A filosofia perene é mais produtivamente vista como fundamentalmente experiencial — um mapa individual para compreender a prática contemplativa e seus significados —, e suas implicações culturais mais amplas são, em última análise, secundárias; falar de filosofia perene é falar de “filosofia” no sentido em que o termo foi originalmente compreendido: um modo de vida centrado no amor pela sabedoria.
    • Demasiadas vezes a filosofia perene é descrita como um amálgama sincrético de diferentes tradições ou como o resíduo de uma tradição universal no passado remoto.
    • Para quem sente algo se mover ao ler sobre ela, os diálogos de Platão, as Enéadas de Plotino, a prosa densa de Damascius, as descrições puras de Dionísio Areopagita, as palavras gnômicas de Meister Eckhart e os conselhos sábios do autor do Livro do Conselho Privado são pontos de partida para uma jornada que pode abrir mundos inteiramente novos.
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