(Laurant1975)
No momento em que ia começar o segundo círculo de sua vida [de Guénon], a personalidade marcante de Papus compartilhava com a Sociedade Teosófica a liderança do movimento ocultista.
O “Teosofismo” praticava a história comparada das religiões, cujas diversas formas, coroadas por um saber reservado, eram inteligíveis aos iniciados; as oposições aparentes dissipavam-se no nível de um Budismo e um Cristianismo esotéricos. Annie Besant, que sucedera a H.P. Blavatsky à frente da Sociedade, acentuara seu caráter oriental e anticlerical em detrimento da tendência do Cristianismo esotérico de Lady Caithness, duquesa de Pomar — em cujo círculo foi criada, ou melhor, recriada, durante uma sessão espírita, a Igreja Gnóstica de Jules Doinel, investido do Patriarcado pelos “Santos Eons”. Sacerdotes reformadores como o Abade J.A. Petit ou o pitoresco Abade Rocca, discípulo de Saint-Yves d’Alveydre, frequentavam seu salão.
Além de estudos de um sincretismo aproximativo, a Sociedade Teosófica publicou numerosos textos tradicionais da Índia, dos quais Guénon teve conhecimento através de suas traduções. Seus exageros — como “cartas precipitadas” pelos Mahatmas dos centros ocultos do Tibete — não abalaram as convicções de Guénon sobre a existência de um centro e de Mestres: os Teosofistas (como ele os chamava) haviam simplesmente deturpado uma verdade tradicional.
O ecletismo dos livros de Papus, tingido de esoterismo “crístico”, procedia dos mesmos princípios. Ambos ambicionavam um papel de direção espiritual, até mesmo uma influência política, e suas obras apresentavam-se como manuais práticos para a formação acelerada de discípulos-combatentes. A origem das ideias que expunham deve ser buscada mais longe, e um livro como Os Grandes Iniciados de Édouard Schuré, publicado em 1889, constitui um excelente repertório das preocupações e ideias correntes nesses meios. Seu sucesso duradouro (em 1925 alcançava a nonagésima edição) ilustra a vitalidade dessa corrente. Guénon dela se nutriu após os ocultistas, antes de ser por sua vez plagiado.
Certas “ideias-força” transbordavam amplamente desses círculos. Quando Schuré aproximava Rama, Krishna, Hermes, Pitágoras, Moisés, Orfeu, Platão e Jesus sob o qualificativo comum de “Grandes Iniciados”, respondia à mesma tendência que triunfava nas Exposições Universais, nas obras-primas da “arte compósita” reunindo símbolos de todas as grandes civilizações. Nessa busca de um fundo comum a toda humanidade, Schuré podia unir as consciências ao escrever:
“Ou a Verdade é para sempre inacessível ao homem, ou foi possuída em larga medida pelos maiores sábios e primeiros iniciadores da Terra. Ela se encontra, pois, no fundo de todas as grandes religiões e nos livros sagrados de todos os povos. Mas é preciso saber encontrá-la e dela extraí-la.”
E mais adiante:
“Todas as grandes religiões têm uma história exterior e uma história interior. Por história exterior entendo os dogmas e mitos ensinados publicamente… Por história interior, a ciência profunda, a doutrina secreta, a ação oculta dos grandes iniciados… A primeira, a história oficial, desenrola-se à luz do dia; nem por isso é menos obscura, confusa, contraditória. A segunda, que chamo tradição esotérica ou tradição dos mistérios, é muito difícil de discernir, pois passa-se no fundo dos templos, nas confrarias secretas… é preciso adivinhá-la…”
Eliphas Levi já expusera ideias semelhantes em A Chave dos Grandes Mistérios. A ação dos grandes iniciados do passado prefigurava para eles, como para Guénon, o encontro com os do presente. Schuré reconheceu imediatamente em Rudolf Steiner um desses Mestres ocultos do mundo — e isso à primeira vista, no patamar de seu apartamento. O tema não era novo: Le Forestier ou Alice Joly mostraram a importância, no século XVIII, do encontro com um agente ou “Superior Desconhecido” — seja para o Barão de Hundt, criador do regime maçônico da “Estrita Observância Templária”, seja para Jean-Baptiste Willermoz.