(Zolla2016)
Reinhold Merkelbach quis interpretar a fundo Daphne e Chloe, um conto bucólico de Longo do século II, para auxiliar-se a penetrar os ritos dionisíacos no tempo do Império Romano, quando se tornaram pretexto para reuniões festivas, dividindo-se os muitos papéis: sacerdotisa, portador da efígie do deus, cuidadores de Sileno, carregadores do cesto com brinquedos e serpente, pastores, raposas, porta-leque, porta-falo, porta-tocha, guardiões da gruta, noviços silenciosos — aos quais se somavam os cingidos com peles de cabra, ovelha ou corça. Uma ilustração mostra o bacante inteiramente coberto pela pele de animal, com o falo ereto, armado de uma vara, em plena dança. Competições e banquetes celebravam o culto ao deus. Todos os artistas do Império pertenciam a uma das sociedades dionisíacas. Algumas delas eram mais estritamente órficas, abstinham-se de comer menta, ovos e favas. O culto dedicava-se à exaltação do sereno gozo (tryphê), das flores e da vida sempre renovada. “Dioniso era a glória dos campos divinos”, disse Virgílio.
Sem dúvida, Merkelbach tem razão ao supor no conto de Daphne e Chloe uma referência constante aos ritos dionisíacos, especialmente às iniciações de crianças e adolescentes. Bastariam os nomes dos protagonistas: o loureiro (daphne) e a verdura pálida (Chloe, “Pálida”, é um epíteto de Deméter) representam o par ideal dos mistérios. O loureiro será transmitido como símbolo na Idade Média, e Petrarca fundará sobre ele sua complexa mitologia, sobretudo no feminino: Laura será sucessivamente L’Aura, Laur’ora, L’aurea, L’Auro — “um espírito celeste, um sol vivo”. Não menos rico de significados é o Daphne ou Louro grego: é Dioniso. Duvido, porém, que se possa explicar passo a passo todo o romance, como Merkelbach tenta fazer.
Daphne é filho do Revelador de Dioniso, podendo assim ser lido como o próprio Dioniso. O pai o abandona porque já tem três filhos e não quer causar tumulto — declaração enigmática, que esconde uma referência mítica para nós ininteligível. Sua serva, Inteligência, o coloca sob uma hera, onde uma cabra o amamentará e um cabreiro o adotará. Enquanto isso, um pastor descobre na gruta das ninfas uma ovelha que amamenta a menina Pálida, também abandonada pelo pai. Cabreiro e pastor sonham que Eros fere os dois pequenos, destinando-os a cuidar, respectivamente, de cabras e ovelhas. Um dia, Louro cai numa armadilha, e o pastor Dorkas o salva; Pálida o lava e descobre sua beleza. Dorkas encanta-se pela menina e lhe dá uma pele de corça, e ao menino, uma flauta. Mas Pálida prefere Louro e lhe rouba o primeiro beijo, que o emudece: ele se torna um “silencioso”, como eram chamados os noviços dionisíacos. Dorkas disfarça-se de lobo e ataca Pálida, mas falha.
O verão passa para as duas crianças numa contínua contemplação mútua, mas no outono irrompem piratas que os capturam junto com os bois. Louro e Pálida partem pelo mar. Pálida, instruída por Dorkas ferido, toca a flauta e atrai os bois embarcados pelos piratas; seu movimento faz o barco virar, e Louro, agarrado a dois chifres, retorna. Dorkas foi abatido pela expedição pirata “como um touro”.
Enquanto as crianças se banham juntas, o corpo de Pálida se revela em toda sua beleza a Louro, ferindo-lhe o coração e cortando-lhe a respiração. Aparece-lhes então o cabreiro Filetas, cujo jardim ideal é chamado Paraíso — e nele diz ter encontrado uma criança que logo se transformou num velho mais antigo que o tempo, Eros cosmogônico, aquele que faz seu jardim crescer, oferece-lhe a esposa Amarílis e desaparece. Filetas explica que Eros faz crescer “as asas da alma” (as mesmas de que se fala no Fedro) e dá vida a tudo, dos astros às ervas. Para defender-se dele, é preciso deitar-se abraçados. As crianças obedecem, mas não sabem o que fazer além de beijar-se e abraçar-se.
Caçadores de lebres (atividade comum nos tíasos) suspeitam que Louro lhes roubou o barco e o atacam. Filetas o defende, Pálida limpa suas feridas e o beija, mas os caçadores voltam e o raptam. No dia seguinte, serão dominados pelo terror pânico, e os golfinhos dionisíacos destruirão seu barco.
Chega o inverno, e os dois enamorados veem-se raramente. Antes da primavera, a jovem esposa de um velho cabreiro — chamada Lobazinha — ensina a Louro as artes do amor. Assim, quando finalmente Louro e Pálida se casam, tudo se cumpre perfeitamente. Os pais então se revelam.
A decifração de Daphne e Chloe é incerta: sem conhecer profundamente os ritos, pouco se pode explicar. Estamos tão distantes de seus segredos quanto dos de Petrarca. Mas é certo que, mesmo na alegre brandura dos costumes rituais dionisíacos, aprofundava-se na doutrina, até revelar Dioniso-Tempo e Criador.