(Zolla2016)
Aconteceu-ME ouvir um raga vespertino de sarod acompanhado pelo tamborim (tabla). O sarod é uma variante excepcionalmente rica do violão. A música indiana tem um andamento uniforme: começa com provas lentíssimas, enigmáticas, de combinações que aos poucos se desenrolam, e, como uma agonia, surge de vez em quando uma melodia. São lampejos quase oníricos. Por fim, a melodia se delineia claramente e, gradualmente, começa a liberar execuções em ritmos acelerados — como se desatassem fúrias amorosas, até o êxtase que, milagrosamente, se sustenta, prolongando-se, variando, até nos lançar no silêncio sobre o qual brincava o prelúdio. O tocador de sarod primeiro cadencia o som abrindo os olhos e sorrindo para o companheiro percussionista, que lhe responde com um rosto ora sério, ora sorridente, numa imprevisibilidade de macaquinho. Quando o som se desata, o músico fica de cabeça inclinada, com um sorriso fixo, transpassado.
Medito essa experiência tantas vezes repetida, e lembro-ME de que uma figura certamente emergiu: Dioniso, dócil, infantil, brincalhão — e depois desenfreado, arrebatado. Aos indianos agradava comprar pinturas ocidentais de bacanais; era talvez o ponto de fusão entre eles e nós. Sempre se disse que Shiva e Dioniso coincidem.
Recordo um encontro com Dioniso, no dia em que se prova o vinho novo, no campo grego. Caminhava pelos campos, adentrara um bosque e estava feliz como quando se penetra numa paisagem encantadora — mas, com o tempo, nem mesmo ME lembro dos traços dessa paisagem. Na Grécia, sobretudo na Ática, são os perfumes que ocupam a atenção, desafiando-a com sua variedade, impossível de capturar em palavras. São os aromas daquelas flores e ervas que só brotam no solo grego e chegam fresquíssimos às narinas, mal se sai de Atenas, rumo ao Hymettos. Cheguei a uma casinha diante da qual um grupo de homens provava o vinho novo e ME observou com atenção. Por fim, o mais velho convidou-ME a participar, num tom em que senti a força, de origens tão remotas, da hospitalidade. De fato, seus rostos sérios e benevolentes ME deram a sensação daquele rito arcaico. Meu grego precário bastou; sentimo-nos unidos. Antes que eu partisse, quatro deles levantaram-se para dançar, dignamente, a lenta dança grega em roda. Despedimo-nos em silêncio. E também ali senti Dioniso, recostado, saboreando sua taça.
Acredito, ainda, que isso pertença à experiência de toda criança: surge-lhe um companheiro de idade, e os dois se observam, trocando olhares entediados, imóveis e indiferentes, um diante do outro.
Mas, de repente, uma palavra quebra o silêncio, ou uma corrente salta entre seus olhos — e imediatamente sentem-se transportados para um espaço outro, incomparável. Distância, diferença, intervalo de separação se esvaem; eles formam uma unidade. Correm furiosos, gritando, agitando-se; exaltados, arfam ofegantes, como se nadassem em água fervente.
Dura o que dura — alguém intervém, basta uma voz serena, e eles voltam a si, separados, distintos.
Esse transporte tem um nome próprio: Dioniso, a quem Ovídio se dirigia exclamando: tu puer aeternus.
As crianças haviam sofrido sua possessão, dele haviam adquirido conhecimento. Hoje, tudo permanece incerto, confuso, negligenciado — mas ainda se pode perceber que cada aparição dionisíaca é um evento glorioso e um abismo que rasga a existência.
Contei uma historinha infantil, mas o encontro com Dioniso pode nascer de um vinho qualquer que, de repente, precipita uma risada exuberante, e cada palavra faz cócegas, cada movimento desata gargalhadas, tudo se revela uma imensa brincadeira.
Os antigos diriam: Dioniso apresentou-se, iluminou a terra, moveu os ventos, perturbou os corações, infundindo uma energia inesperada ou esgotando-os num lânguido abandono, ou lançando-os numa hilaridade escrachada. Seja como for, quebrou leis e costumes, mergulhou-nos na natureza animal e vegetal, destruiu a identidade pessoal.
Não creio que algum dia possamos ignorá-lo. Ele é capaz de apropriar-se de nossa vida subitamente, a qualquer momento. Dioniso rompe o jugo das dualidades: consciente/inconsciente, pessoa/cosmo. Está sempre à espreita, e graças a ele aglutinamo-nos ao ambiente, já não sabemos onde têm fronteira o bem e o mal.