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VIAS ESPIRITUAIS FUNDAMENTAIS

Yoga espiritual de São Francisco de Assis

* O ser humano porta em si elementos voltados ao conhecimento, à atitude volitiva e afetiva e à ação, e essa tripartição funda as três vias espirituais fundamentais do hinduísmo.

  • René Guénon, em L'Homme et son devenir selon le Vêdânta, cap. VIII, é referência para as cinco faculdades de conhecimento (jnânendriya) e as cinco de ação (karmendriya).
  • Os três yogas correspondentes são: jnâna yoga (conhecimento), bhakti yoga (devoção ou amor) e karma yoga (ação).
  • Na realidade da vida espiritual, múltiplas nuances se impõem e raramente um ser humano segue uma via em estado puro.
  • Toda via espiritual comporta três etapas — purificação, iluminação e união — que estruturam o percurso do início ao término.
    • A etapa purgativa é preparação; a iluminativa é o pleno desenvolvimento da via; a unitiva é o ultrapassamento da própria via, pois o fim foi atingido.
  • Numerosos textos da Escritura e da Tradição fundamentam a distinção das três vias, sendo o passo central a epístola de Paulo aos Efésios (Ef 3,14-19).
    • No Antigo Testamento, o Sl 34,15 articula as três etapas; no Novo Testamento, Lc 9,23 e textos paulinos (1Cor 9,26-27; Fl 3,13-17; Gl 2,20; 2Cor 12,2) referem-se a cada uma delas.
    • Na Tradição, a distinção é desenvolvida por Clemente de Alexandria, Cassiano, Agostinho, Bernardo e Tomás de Aquino.
    • A palavra yoga significa “método de união”: união do homem consigo mesmo e união transformante do homem a Deus.
  • A via purgativa, segundo Paulo (Ef 4,20-24), é a fase em que a alma combate seus inimigos, desapega-se dos sentidos e prepara os caminhos de Deus.
    • O processo implica abandonar o gênero de vida anterior, despir o homem velho corrompido pelas concupiscências e revestir o homem novo criado à imagem de Deus.
  • A via iluminativa é aquela em que a luz do Espírito Santo ilumina os que pela fé possuem Cristo no coração, conforme as doutrinas de Paulo e João.
    • João (Jo 12,35-36; 1Jo 1,5-7) enuncia que Deus é luz e que caminhar na luz é condição de comunhão.
    • Paulo (Ef 5,8-9; 1Ts 5,5) chama os fiéis de filhos da luz e do dia, em oposição às trevas.
  • A terceira etapa é a união, na qual o homem alcança a plenitude do amor e do conhecimento de Deus e torna-se participante da natureza divina, conforme 2Pe 1,3-8.
    • A sequência de virtudes enumerada em 2Pe 1,5-7 — fé, virtude, ciência, temperança, paciência, piedade, amor fraterno, caridade — garante que o conhecimento de Cristo não seja ocioso nem estéril.
  • A doutrina das três vias é ensinada por Dionísio Areopagita e formulada definitivamente por Tomás de Aquino, que a articula em torno dos graus da caridade.
    • Para Tomás (S. Th. II, II, q. 24, a. 9), a primeira etapa é a dos principiantes que resistem ao pecado para não corromper a caridade; a segunda é a dos progressantes que se esforçam por aumentá-la; a terceira é a dos perfeitos que aderem a Deus e o fruem (Fl 1,23).
    • A analogia usada é a do movimento corporal: afastamento do ponto de partida, aproximação do término e repouso nele uma vez atingido.
  • Na iniciação cristã, três sacramentos marcam as três etapas: o batismo purifica do pecado original e incorpora ao Corpo Místico de Cristo; a confirmação aperfeiçoa e confere o Espírito Santo; a comunhão une à divindade de Jesus Cristo.
    • Embora cada sacramento seja eficaz ex opere operato, seus efeitos são virtualmente dispostos no crente, cabendo a ele realizá-los ao longo da vida espiritual.
  • A via de ação divide-se em via do trabalho, via das obras e via da ascese ou do sacrifício, segundo graus crescentes de integração espiritual.
    • O trabalho não é em si santificante, mas pode ser integrado à via das obras se for necessário, oferecido a Deus e bem executado.
    • A via das obras consiste em oferecer cada ação a Deus como sacrifício; a via da ascese alcança os devotamentos mais sublimes.
    • Apenas o trabalho é propriamente ação; os dois graus superiores impõem-se também a quem segue a via de amor ou de conhecimento.
  • A via de amor divide-se em via da confiança, via do amor heroico e via do amor supremo, sendo este último o ponto em que converge com o conhecimento supremo.
    • A via de devoção é assunto da vontade, não apenas do sentimento ou da afeição; os elementos afetivos devem ser integrados e podem, em certos casos, tornar-se predominantes.
    • O devoto desconfia da inteligência por temer sua secura e suficiência, e das obras por temerem desviar do único necessário (Lc 10,42).
    • Tomás de Aquino, embora defenda a superioridade da inteligência sobre a vontade, admite o inverso no amor a Deus: querer e amar a Deus é mais perfeito do que conhecê-lo, pois a bondade divina existe mais perfeitamente em Deus como é desejada pela vontade do que como é concebida pela inteligência.
  • A via de conhecimento divide-se em via do estudo ou da ciência, via da meditação contemplativa e via da contemplação unitiva, sendo apenas esta última o conhecimento propriamente dito.
    • A via das obras, por sua exterioridade relativa, não permite ao homem ultrapassar o estágio do criado; a via de amor, por seu caráter subjetivo, atinge de Deus apenas um Nome ou Aspecto.
    • Somente o conhecimento objetivo e impessoal na contemplação imutável faz o homem participar da Divindade.
    • A via das obras deve desabrochar na via de amor ou de conhecimento; a via de amor supera-se no amor supremo, onde coincide com o conhecimento supremo — posição desenvolvida por Frithjof Schuon em L'Oeil du coeur.
  • Os seis símbolos fundamentais do Cântico das criaturas — Terra, Ar, Água, Fogo, Lua, Sol — constituem suportes de meditação para as três vias de ação, amor e conhecimento, a serem tratados em três capítulos distintos.
    • Cada via espiritual dispõe de um simbolismo próprio que pode ser considerado o método que a vincula à doutrina, justificando a existência de ordens correspondentes: a ordem sacerdotal e monástica, a ordem da cavalaria e a ordem dos ofícios.
    • Jean Tourniac, em Symbolisme maçonnique et Tradition chrétienne e Propos sur René Guénon, desenvolve esses pontos.
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