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"PERSONALIDADE" DE RENÉ GUÉNON

René Guénon — Témoin de la Tradition

  • As críticas ao “intelectualismo glacial” de Guénon e à sua suposta falta de caridade são refutadas pela própria natureza de sua obra e pelo teor das objeções de seus detratores.
    • René Guénon dedicou a vida a transmitir as mais altas verdades a seus semelhantes, apesar de incompreensões frequentemente hostis.
    • A divisa dos Templários — Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam — seria perfeitamente aplicável a ele.
    • A acusação de falta de caridade parte de defensores dos valores do Ocidente, cuja ironia o texto sublinha sem disfarce.
  • As virtudes, esvaziadas de significado real e reduzidas a moralismo e sentimentalismo, exigem que a “caridade” de Guénon seja ilustrada de modo anedótico, mediante testemunho inédito.
    • Um amigo relata sua primeira visita a Guénon na rue Saint-Louis-en-l'Île, em junho de 1928, das 21h à 1h da madrugada.
    • Guénon começou interrogando o visitante sobre si mesmo, depois passou a contar anedotas sobre ocultistas conhecidos, criando atmosfera de descontração e camaradagem antes de abordar assuntos sérios.
    • O que emanava de Guénon era um duplo irradiamento de benevolência e certeza, transmitindo ao interlocutor a sensação de pertencerem à mesma raça espiritual.
    • A adesão às posições de Guénon era imediata, sem necessidade de exame prévio — diferente do que ocorria com outros homens notáveis conhecidos pelo mesmo visitante.
  • A leitura das cartas de Guénon revela paciência inesgotável, delicadeza infinita e atenção rara aos outros, por meio das quais se constituiu uma verdadeira comunidade intelectual dispersa pelo mundo.
    • Guénon correspondia com inúmeros interlocutores que jamais havia visto e provavelmente nunca veria pessoalmente.
    • Essa rede epistolar, com Guénon como centro, formava uma comunidade intelectual de alcance mundial.
  • A determinação do “grau” espiritual de Guénon seria presunçosa, mas indícios fornecidos por ele mesmo — em declarações públicas e privadas — permitem sugerir sua eminente dignidade.
    • Em polêmica com a Revue Internationale des Sociétés Secrètes (R.I.S.S.), Guénon afirmou que a personalidade de “René Guénon” lhe importava menos do que a seus adversários, pois as individualidades não contam na ordem das coisas de que se ocupava.
    • Propôs que “René Guénon” fosse tomado como pura designação convencional, equivalente a qualquer outra assinatura.
  • As réplicas de Guénon à R.I.S.S. — agrupadas num período breve, logo após seu estabelecimento no Egito — revelam que a existência da “individualidade René Guénon” tornava-se progressivamente problemática.
    • Guénon chegou a ameaçar “suprimir totalmente” essa individualidade — alusão que não se referia a suicídio.
    • Mencionou “entidades diversas” enxertadas sobre sua individualidade, algumas das quais haviam cessado de existir há muito tempo.
    • A hipótese de simples evolução psicológica ou iniciática não satisfaz, dado o rigor técnico da linguagem guénoniana.
  • Uma carta de 17 de junho de 1934 fornece a chave decisiva: as diferentes assinaturas usadas por Guénon não eram pseudônimos literários, mas representavam “entidades” realmente distintas.
    • As assinaturas utilizadas nas revistas Gnose e France Antimaçonnique não deviam ser atribuídas a “R.G.” como simples nomes de convenção literária.
    • Cada vez que Guénon se serviu de outras assinaturas, havia razões especiais para isso.
  • Essas entidades aproximam-se do conceito tibetano de tulkou, definido por Alexandra David-Neel como reencarnação de um santo ou sábio falecido, ou encarnação de um ser não humano — deus, demônio etc.
    • Segundo certa crença lamaísta, a energia sutil que subsiste após a morte atrai elementos simpáticos e torna-se núcleo de um novo ser.
    • Outra variante diz que o feixe de forças desencarnadas se une a um ser já existente, cujas disposições físicas e mentais permitem uma união harmoniosa.
    • Um mesmo falecido pode multiplicar-se, post-mortem, em vários tulkous reconhecidos oficialmente e existentes de modo simultâneo.
    • Existem duas categorias de tulkous: os dos deuses, que manifestam funções espirituais de ordem elevada, e os de personalidades históricas, resultantes da transmissão de um agregado de elementos psíquicos.
  • O quadro de Guénon representando o funeral de um brâmane, descrito por Louis Caudron e retomado por Paul Chacornac, liga-se a uma resposta enigmática: ao ser perguntado sobre quem era o brâmane a ser incinerado, Guénon teria respondido que era ele mesmo.
    • O quadro ficou no pequeno apartamento de Guénon até 1924: à esquerda, o guru de branco e vermelho observando o cortejo fúnebre do discípulo; ao fundo, um templo hindu com a pira já acesa; à direita, palmeiras recortadas contra o céu flamejante do pôr do sol.
    • Essa resposta se harmoniza com a hipótese das entidades e torna sem interesse a busca por eventuais hindus desconhecidos que teriam “informado” Guénon.
  • A réplica de Guénon a Paul Le Cour — que o acusava de “hinduísmo” — de que este “não sabia o quanto tinha razão” ganha sentido à luz da hipótese das entidades, já que, pelo sistema de castas, nasce-se hindu sem poder tornar-se hindu por escolha.
    • Guénon também sublinhou, em várias ocasiões, que a função de Kshatriya não lhe convinha, de um modo que evocava o próprio quadro hindu em vez de mera adaptação terminológica.
  • Entre as entidades, a de função mais duradoura e axial parece ser “o Sphinx”, cuja manifestação poderia corresponder à de um tulkou que manifesta uma função espiritual coletiva, e não apenas o agregado psíquico de uma individualidade desaparecida.
    • As entidades de função mais exterior e circunstancial — como Palingenius, ligado à revivescência “gnóstica” — teriam se “reabsorvido” no Sphinx como em seu centro comum.
    • O Sphinx ocuparia assim uma posição axial em relação às demais entidades.
  • A primeira manifestação literária do Sphinx data de 18 de dezembro de 1913, na France Antimaçonnique, com o artigo “A propos des Supérieurs Inconnus et de l'Astral”.
    • Colaboradores da R.I.S.S., sob cobertura de um antimaçonismo oficial, usavam o método histórico universitário para negar a existência dos verdadeiros Superiores Desconhecidos e, simultaneamente, introduziam concepções ocultistas e teosóficas para identificá-los a “entidades astrais”.
    • O Sphinx respondia com textos de antimaçons sérios, usados de modo “tântrico”, visando fazer os católicos mais abertos compreenderem que o que condenavam na Maçonaria era fruto de degenerescência, não de sua natureza original.
  • O artigo “l'Énigme”, publicado em 29 de janeiro de 1914 na France Antimaçonnique, em resposta a Charles Nicoullaud (alias Fomalhaut), indica que o Sphinx era a síntese de múltiplos componentes inseparáveis.
    • Nicoullaud recusava-se a dialogar sem saber a qual dos quatro componentes do Sphinx fabuloso — homem, águia, touro, leão — tinha a ver.
    • O Sphinx replicou que não era animal fabuloso, mas símbolo: síntese de seus componentes, não mera soma deles.
    • A resposta aludia veladamente à teoria da multiplicidade dos estados do ser e de sua simultaneidade, aplicada tanto ao Sphinx quanto ao composto humano.
  • O nome árabe do Sphinx — Abul-Hawl — é mencionado por Guénon no Voile d'Isis de novembro de 1932, em referência à “affaire Mariani”, como assinatura alternativa equivalente a “René Guénon”.
    • Pierre Mariel havia se envolvido imprudentemente nessa obscura polêmica.
    • A menção a Abul-Hawl remete diretamente à France Antimaçonnique e ao enigma que tanto inquietava Nicoullaud.
  • A natureza do Sphinx é descrita no próprio artigo “l'Énigme”: os Superiores Desconhecidos são individualidades de caráter essencialmente simbólico, sem fisionomia própria, afranquidas das limitações do nome e da forma.
    • Na Índia, existe uma categoria de homens que portam um longo chifre de antílope como sinal de reconhecimento e apresentam todos exatamente os mesmos traços — presentes nas esculturas dos mais antigos monumentos indianos.
    • Esse mesmo tipo foi reconhecido na Europa, em homens que eram agentes de um “poder oculto” que agia muito além das “lojas traseiras” da “Maçonaria universal”.
    • O Sphinx cita como exemplo convencional o famoso conde de Saint-Germain, cujo nome pode ter servido a mais de um personagem, embora sempre com a mesma fisionomia.
    • A mesma “entidade”, ao abandonar esse nome de empréstimo, poderia continuar a desempenhar um papel oculto nos dias atuais, sem necessidade de “reencarnar” — bastando, entre uma missão e outra, “recolher-se aos pés do Eterno” ou “sob o olho do Pólo”, como dizem os iniciados muçulmanos.
  • A relação estreita entre o Sphinx e o conde de Saint-Germain é confirmada numa nota de “Dernière réponse à M. Gustave Bord”: a citação de Saint-Germain fora feita como exemplo, mas havia razões particulares para mencionar a possibilidade de um papel atual da mesma “entidade” complexa.
    • A individualidade de Guénon teria se apagado diante da entidade do Sphinx, sem que isso implique uma impossível osmose com outro ser, mas sim o acesso ao grau ocupado por esse ser.
    • Essa entidade manifestava um aspecto do Guru interior e, a partir de então, uma função comum cuja realidade espiritual coincide com o estado primordial, podendo manifestar-se em múltiplos suportes — individualidades diferentes mas exteriormente indiscerníveis, membros de uma única “Fraternidade Santa”.
    • Trata-se, portanto, da entrada em contato, em sentido estrito, com um centro espiritual.
  • O grau de Rosa-Cruz foi comumente atribuído ao conde de Saint-Germain, e os Aperçus sur l'Initiation indicam que, após a destruição da Ordem do Templo, os iniciados no esoterismo cristão se reorganizaram com os do esoterismo islâmico para manter o elo aparentemente rompido.
    • O hiêronimo “conde de Saint-Germain” designaria uma entidade coletiva conhecida anteriormente como Philaléthe e, mais remotamente, como Christian Rosenkreutz, o fundador lendário dos Rosa-Cruzes, “nascido” no século XIV.
    • Essa entidade teria se remanifestado logo após a ressurreição efêmera da Ordem do Templo.
    • Os Teosofistas, sempre prontos a imitar dados tradicionais, suscitaram um “Mestre R…” que se fazia passar pelo conde de Saint-Germain e que não era outro senão Basil Zaharoff, o famoso traficante de armas e membro importante do Intelligence Service.
  • A função “universalista” reconhecida por Guénon aos Templários e aos Rosa-Cruzes pode iluminar a coexistência, no ensino dado na O.T.R., de dados ocidentais e orientais — incluindo um esboço do Symbolisme de la Croix — antes que Guénon tivesse podido conhecer, por vias normais, o ensino do sheikh Elish El-Kébir transmitido ulteriormente por Abdul-Hâdi.
  • A individualidade de Guénon precisava, ela própria, de uma dignidade particular para servir de suporte a tais entidades — o que remete ao artigo “Sagesse innée et Sagesse acquise”, publicado nas Études Traditionnelles de janeiro-fevereiro de 1949 e retomado em Initiation et Réalisation spirituelle.
    • O artigo descreve o caso excepcional de um ser que atingiu certo grau de realização num estado de existência e passa a outro, trazendo consigo o que adquiriu previamente — realização que aparece no novo estado como “inata”.
    • Esse ser não precisa de um Guru exterior e humano, pois a ação do verdadeiro Guru interior opera nele desde o início.
    • Na era atual, a sabedoria inata não se manifesta espontaneamente como no Idade de Ouro, sendo necessário o rattachement a uma cadeia iniciática.
    • Para tal ser, a iniciação é imediatamente efetiva — não apenas virtual como o é habitualmente —, e os degrés são “reconhecidos” como se já estivessem nele, numa espécie de reminiscência platônica.
  • A “sensibilidade espiritual prodigiosa” mencionada por Michel Vâlsan, destinada a um papel de reconhecimento e identificação universal dos símbolos, encontra explicação nessa chave da sabedoria inata.
    • Guénon podia reconhecer imediatamente a validade iniciática de uma organização — o que explica sua passagem por numerosos grupos mais ou menos ocultistas e suas conclusões sobre a ausência de transmissão de “influência espiritual” neles.
    • Esse caso excepcional era o único que permitia a uma individualidade que não havia atingido o grau de Rosa-Cruz — o que teria tornado impossível sua função literária nas modalidades exteriores que teve de assumir — beber diretamente na fonte intemporal das formas e símbolos tradicionais.
    • Cartas a Coomaraswamy, de 26 de abril e 26 de dezembro de 1936, ilustram esse privilégio: Guénon reconhecia “de modo natural e sem poder explicar” certas associações simbólicas relativas ao Dhamma-pada e aos rhomboi de Jâmblico.
  • A geração espiritual excepcional de Guénon torna vã a busca por seus “mestres”, e explica também por que ele sempre recusou ter discípulos — o que, ademais, não entrava em sua função.
    • Um mestre espiritual deve ter percorrido sucessivamente os graus em que guia seus discípulos, experimentando seus obstáculos e armadilhas.
    • Guénon obteve uma realização imediata e espontânea, não progressiva — o que tornava desnecessária e inadequada a função de guia de discípulos.
  • A razão pela qual Guénon dedicou um artigo inteiro à sabedoria inata — possibilidade reservada a ínfima minoria nas condições do mundo atual — sugere que estava fornecendo a chave de seu próprio caso.
    • Uma simples nota, com as cautelas habituais, teria bastado para evocar essa eventualidade, dado que Guénon afirmava que “em suma, não há que contar com isso praticamente”.
    • A publicação do artigo coincidiu com um período em que certos leitores, que ao intelectual tudo deviam, manifestavam uma independência muito “ocidental” em relação ao homem e à sua função, invocando considerações doutrinárias mal fundamentadas.
    • Guénon pode ter lançado um aviso destinado aos que eram capazes de compreender.
  • A participação de Guénon nos ritos islâmicos no Egito, sob seus aspectos exotérico e esotérico, não contradiz a hipótese da sabedoria inata, pois esta pode abranger graus de realização diferentes no caminho rumo ao estado primordial.
    • Após a tomada de consciência imediata da realização adquirida num estado anterior, resta prosseguir o caminho iniciático pelos próprios meios.
    • A série de infortúnios que precedeu imediatamente a partida de Guénon para o Egito sugere a ocorrência de uma “passagem” importante — fenômeno descrito nos Aperçus sur l'Initiation como hostilidade inconsciente do meio, que tenta reter o ser prestes a lhe escapar.
  • A geração espiritual excepcional de Guénon manifestou-se também em sua “vida islâmica”, conforme indica sua correspondência com Coomaraswamy sobre El-Khidr (Seyidna El-Khidr).
    • Em carta de 5 de novembro de 1936, Guénon afirmou que havia “algo muito além de simples lendas” em relação a El-Khidr, acrescentando que o tema o tocava “diretamente” demais para que viesse a escrevê-lo.
    • Em 31 de janeiro de 1938, Guénon distinguiu a jurisdição do Qutb da função de El-Khidr como mestre dos Afrâd.
    • Em 6 de fevereiro de 1938, Guénon desejou que Coomaraswamy completasse seu artigo sobre El-Khidr nas Études Traditionnelles, preferindo que o tema fosse tratado por outra pessoa.
  • O tratado de Muhyi-d-din Ibn Arabi intitulado Tartib ut-tasawwuf, parcialmente traduzido por Abdul-Hâdi, descreve a terceira categoria iniciática — a dos Afrâd, os “Solitários” — como aquela em que cada iniciado possui uma fórmula especial de iniciação e escapa à vigilância do Qutb.
    • O número dos Afrâd é indeterminado; eles permanecem ocultos no maqam chamado “a Cela”.
    • El-Khidr é seu mestre — o que se evidencia na tradição em que El-Khidr diz a Moisés: “Possuo uma ciência que procede de Allah e que tu não podes ter”, sendo Moisés o Qutb da época.
  • Uma carta de Guénon a Marcel Clavelle-Jean Reyor, de 14 de março de 1937, compara os Afrâd a príncipes e os Aqtab a ministros: um príncipe, mesmo sem exercer função alguma, é por si mesmo superior a um ministro.
    • Os Afrâd são independentes da “jurisdição” do Polo porque trazem consigo, ao mundo humano, uma realização adquirida num estado anterior.
    • El-Khidr representa para eles um aspecto do Guru interior — assimilação que se torna mais compreensível à luz das palavras do sufista do século XIV Ali Wafa, segundo o qual cada espiritual ouve na voz de um Khizr a inspiração de seu próprio Espírito Santo.
    • Ibn Arabi recebeu a investidura de El-Khidr sob a forma do rito do manto, que evoca a transmissão de Elias a Eliseu.
  • O papel de El-Khidr em relação ao sheikh Abdel Wahed Yahia não contradiz o da entidade conhecida como conde de Saint-Germain: o simbolismo de El-Khidr, que bebe na “Fonte da Vida”, remete diretamente ao do Paraíso terrestre, que é também o dos Rosa-Cruzes.
    • Os mesmos personagens, vindos do Cristianismo ou do Islamismo e tendo vivido no Oriente e no Ocidente, puderam ser ao mesmo tempo Rosa-Cruzes e sufis dos graus superiores, pois o estado espiritual que atingiram os situava além das diferenças entre formas exteriores.
    • Havia, em relação à “individualidade Guénon”, uma conjunção de influências — ou polarização de uma mesma função espiritual em duas manifestações complementares e hierarquizadas, sendo El-Khidr de grau evidentemente superior ao do conde de Saint-Germain.
  • A razão profunda de certo trecho ao final de Le Roi du Monde — em que Guénon admitiu ter dito mais sobre o assunto do que qualquer outro, ainda que não tudo — reside na relação privilegiada do sheikh Abdel Wahed Yahia com El-Khidr e em sua independência correlata em relação ao Polo.
    • Guénon recusou escrever um artigo sobre El-Khidr, mas consagrou um livro ao Qutb — e isso é significativo.
    • Nesse trecho, Guénon reconhece que certas coisas de caráter inabitual levantam uma questão de oportunidade quando se trata de expô-las publicamente.
  • A questão do Rei do Mundo e do Centro Supremo — o Agarttha — provocou reticências mesmo entre leitores da obra metafísica de Guénon, especialmente entre aqueles inclinados ao intelectualismo abstrato, que dificultava a “transparência” do mundo sensível em relação às realidades inteligíveis.
    • Essa mesma tendência pode traduzir-se por certo desconhecimento do valor dos ritos.
  • A origem do livro de Guénon sobre o Rei do Mundo foi, por um lado, a publicação de La Mission de l'Inde en Europe, de Saint-Yves d'Alveydre, e, por outro, a de Bêtes, Hommes et Dieux, de Ferdinand Ossendowski, que haviam “popularizado” a noção de Agarttha e de seu chefe.
    • Guénon julgou chegado o momento de restituir a certos elementos de aparência pitoresca e anedótica sua verdadeira dimensão simbólica.
    • O objetivo era devolver à consciência tradicional do Ocidente a ideia do Centro Supremo, sede da Tradição primordial, cujo último vestígio se encontrava na concepção medieval do “Reino do Preste João” e no ciclo do Graal.
    • Em todas as tradições, um centro espiritual de caráter eminentemente “paradisíaco” é representado por uma ilha ou por uma montanha — ou por ambos os símbolos associados — e tornou-se subterrâneo desde o início do Kali-Yuga, devendo reaparecer ao fim do ciclo.
  • Sobre a realidade “efetiva” desse centro, Guénon afirmou que os fatos geográficos e históricos, como todos os demais fatos, possuem valor simbólico que não lhes retira a realidade própria, mas lhes confere, além dela, uma significação superior.
    • O caráter concreto — não meramente ideal — do centro é inequívoco, embora sua localização precisa seja questão secundária.
  • As contestações ao conceito de Agarttha, mesmo entre leitores de Guénon, incluem a crítica de Marco Pallis ao próprio nome — contestação sustentada por hipóteses do professor russo Georges Roerich, segundo quem Ossendowski teria preferido o nome Agharti ao de Shâmbala para evocar uma lembrança familiar nos leitores russos que conheciam Saint-Yves.
    • Pallis sugeriu que se trataria de um pequeno subterfúgio de autor — não de plágio —, pois os demais detalhes do relato de Ossendowski seriam verossímeis.
    • Para duvidar da palavra de Ossendowski — que afirmou a Guénon nunca ter ouvido falar de Saint-Yves antes da tradução francesa de Bêtes, Hommes et Dieux — seriam necessárias mais do que puras hipóteses.
    • Mesmo admitindo empréstimos de Ossendowski a Saint-Yves, o problema apenas se deslocaria: Saint-Yves teria inventado o nome Agarttha, a menos que o tivesse obtido de seus informantes hindus ou que fosse Jacolliot o responsável — que, embora tenha “arranjado” de modo fantasioso os dados colhidos na Índia, também registrou esse nome.
  • A única conclusão razoável sobre os que recusam o nome Agarttha é que são aqueles que, estando ou crendo estar bem posicionados para ouvi-lo, simplesmente não foram informados — razão insuficiente para deduzir a inexistência do nome.
  • Marco Pallis retornou ao tema com falta de serenidade e contradições internas, atacando Guénon — a quem chamara de “grande Jnanin” em 1951 — e esquecendo que este declarara, no próprio Roi du Monde, que sabia “por fontes totalmente diferentes” que relatos semelhantes aos de Ossendowski eram correntes na Mongólia e em toda a Ásia Central.
    • Os questionários enviados por Pallis a amigos e personalidades tradicionais revelaram-se infrutíferos.
    • O Tilopa Hutukhtu, a personalidade mais autorizada aos olhos de Pallis, respondeu a um de seus discípulos que Ossendowski havia feito alusão ao “reino secreto” — mas Pallis só soube disso dois anos após a morte do Hutukhtu.
    • Pallis concluiu que a opinião do Lama coincidia com a sua — afirmação que soa como alívio diante de tantas negações anteriores.
  • Uma leitura atenta do Roi du Monde teria poupado a Pallis todo esse esforço: Guénon declarou que citava Ossendowski e Saint-Yves apenas como ponto de partida para considerações que nada deviam ao julgamento que se pudesse fazer de um ou de outro, trazendo indicações que, ao seu conhecimento, ainda não haviam sido dadas em lugar algum.
  • Os atos do colóquio internacional de Cerisy-la-Salle consagrado a René Guénon trazem uma informação relevante levantada por J.-P. Laurant: o escritor romano do século III Lucius Ampelius, em seu Liber Memorialis, menciona uma cidade chamada Agartus, perto do Nilo, no centro da qual se ergue uma estátua prodigiosa com uma esmeralda límpida na testa.
    • Os animais são tomados pelo timor panicus mencionado por Guénon no Roi du Monde diante dessa estátua.
    • Como um mesmo nome “arquétipo” pode ser aplicado a centros secundários constituídos à imagem do centro principal — conforme indicado em relação a Thulé —, esse simbolismo reforça os que veem no nome Agarttha um “sinal” inviolável.
  • Essas considerações sobre o Centro Supremo introduzem diretamente os “prolongamentos” da obra de Guénon, abrindo caminho para examinar as reações da contra-iniciação e do “mundo”, bem como o percurso da mensagem guénoniana entre aqueles a quem ela se destinava.
    • Resta seguir as conclusões práticas que os leitores de Guénon extraíram de sua obra e as diferentes vias pelas quais a puseram em aplicação — vias que permanecem acessíveis, ainda hoje, a homens de intenção reta e boa vontade.
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