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RESSURREIÇÃO E MATERNIDADE VIRGINAL
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O papel da Virgem Maria nos estados post-mortem próprios à tradição cristã é o de um escudo protetor contra as primeiras investidas da travessia póstuma, um refúgio para a alma solitária desprovida da racionalidade do corpo grosseiro, como evocado na tradição litúrgica, nomeadamente na invocação final da “Ave Maria” e nos títulos que lhe são atribuídos nas ladainhas e missas.
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A Mãe de Cristo apresenta-se como um escudo e uma “proteção” contra as “terrores” ilusórios que assaltam a “alma” solitária na travessia póstuma.
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A tradição, florescente na época de Bernardo de Claraval, vê na invocação dos Nomes de Jesus e Maria a garantia da graça paradisíaca, como recordado na “Ave Maria” (“… e na hora da nossa morte. Amém”).
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A liturgia católica atribui à Virgem títulos como “Virgem Poderosa”, “Arca da Aliança”, “Porta do Céu”, “Refúgio dos Pecadores”, “Consoladora dos Aflitos”, invocando-a para ser libertado das tristezas e gozar as alegrias da eternidade.
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As missas de Maria Imaculada, da Assunção, do Coração Imaculado, do Santíssimo Rosário, de Nossa Senhora Auxiliadora, do Perpétuo Socorro, da Esperança e das Sete Dores, entre outras, pedem a sua intercessão para a vitória sobre o espírito maligno na morte, a libertação de todo mal, a defesa no fogo e no juízo, e a glória do Paraíso.
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Emergem das citações litúrgicas três temas principais relacionados aos estados post-mortem: a proteção defensiva no mundo sutil, as ideias de Paz, Alegria e Libertação, e a ascensão entre a lua e o sol, sendo este último tema de particular significado por remeter à “mandorla”, a amêndoa que envolve a Virgem nas representações iconográficas e que, como “Luz” em hebraico, designa o núcleo indestrutível do ser e o local de imortalidade.
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Os três temas são a proteção defensiva no mundo sutil, as ideias de Paz, Alegria e Libertação, e a ascensão entre lua e sol.
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A Virgem Maria é representada na “mandorla” (amêndoa) nos tímpanos das catedrais, como Cristo em glória, sendo a amêndoa o “mistério da luz”.
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A “amêndoa mística” é um qualificativo consagrado à Virgem Mãe, evocando a noção de oculto, secreto, inviolabilidade e clausura.
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“Luz”, o termo hebraico para amêndoa ou amendoeira, designa na mística judaica a partícula corporal indestrutível à qual a alma permanece ligada após a morte até a ressurreição, contendo os elementos virtuais para a restauração do ser.
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Luz é também chamada “cidade azul”, cor do manto da Virgem Maria.
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A “cidade azul” de Luz, onde o anjo da morte não pode penetrar, é o lugar do sonho de Jacó, onde viu a escada de anjos entre o Céu e a Terra, o eixo vertical que parte do centro do estado humano e conduz aos estados superiores do ser até a Divindade, e que na Virgem Maria, por sua assunção, se encontra recapitulado, dispensando o percurso pela multiplicidade desses estados.
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Luz designa o lugar chamado Betel, onde Jacó teve o sonho da escada de anjos entre a Terra e o Céu.
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A escada de Jacó representa o eixo vertical que parte do centro de todo o estado humano e inclui todos os “estados superiores do ser” até o cume da Divindade.
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Na Virgem Maria, por sua “assunção nos céus”, todas as hierarquias angélicas que ela “domina” estão recapituladas, justificando o título de “Maria Rainha dos Anjos”.
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O “Luz” bíblico, na tradição judaica, é a cidade imortal onde o anjo da morte não tem poder, e perto dela situa-se uma amendoeira sobre um “cavo” acessível por um subterrâneo, a “caverna secreta” que se aproxima da matriz virginal, a “casa de Deus” (Betel) que mais tarde se torna Belém (casa do pão), remetendo à Mãe de Cristo envolta em seu véu de azul.
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A tradição judaica afirma que o anjo da morte não pode penetrar na cidade de Luz, que é o local de imortalidade e o ponto de partida da “vivificação dos ossos” para os inscritos no Livro da Vida.
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Perto de Luz, uma amendoeira situa-se sobre um “cavo” acessível por um subterrâneo, a “caverna secreta” que pode ser aproximada da matriz virginal.
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O local onde Jacó teve o sonho, chamado Betel (casa de Deus) e anteriormente Luz, é onde mais tarde se erguerá Belém (casa do pão), a “casa do pão” e local de nascimento de Cristo.
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As doutrinas tradicionais de hermetismo ensinam que, na morte corporal, o núcleo indestrutível (Luz) se recolhe no interior da terra, num “repouso” ou “sono” litúrgico, enquanto a alma espiritual ascende na modalidade sutil da individualidade, aguardando a aspiração vertical para o estado incondicionado em Cristo, o que exclui o retorno a um novo estado individual cíclico para o batizado.
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Na morte corporal, o “núcleo indestrutível” (Luz) desce ao “interior” da terra, num recolhimento do que era o estado corporal, correspondendo ao “repouso” ou “sono” dos defuntos na liturgia.
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A alma espiritual “sobe” no prolongamento da modalidade sutil da individualidade humana, enquanto a alma “animal” usufrui do repouso.
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Para o batizado, o prolongamento da individualidade em modo sutil até a ressurreição exclui a eventualidade de retornar a um novo estado individual ligado ao “retorno indefinido” horizontal.
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O batizado aguarda a aspiração vertical do estado incondicionado, onde tudo será reunido gloriosamente “em Cristo”, correspondendo ao lado “sublime” do novenário dos nove coros dos anjos.
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Em certos casos, como para as almas do purgatório, o “sono da paz” não se aplica, pois continuam uma ascese, enquanto para os eleitos e santos esse sono é desnecessário, tendo funções a cumprir, e na Ressurreição final ocorre a absorção do corpo, alma e espírito na carne do Ressuscitado, implicando a unidade eterna de todos os modos do ser, o que é o Juízo final.
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As almas do purgatório continuam uma ascese, com apenas o “osso da ressurreição” ainda em sono, necessitando de orações e ritos para encontrar o repouso.
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Os eleitos e santos não necessitam do “sono da paz”, pois seus “corpos de ressurreição” já podem manifestar-se.
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Na Ressurreição, ocorre a absorção do corpo, alma e espírito na carne do Ressuscitado, no sentido mais elevado do “novenário” (Nova Jerusalém, nova terra, novos céus).
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A ressurreição implica a unidade do “pneuma”, da “psyche” e do “soma” no corpo “sarx”, que reúne na eternidade todos os modos do tempo do ser, o que constitui o Juízo final.
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Diversos eventos bíblicos de ressurreição e elevação corporal, como a ressurreição de Cristo, de Lázaro, a assunção de Elias e de Henoque, culminam na assunção da Virgem Maria, que introduz a mediação da Virgem nos estados post-mortem, a qual se exerce a partir de um “plano” donde procede a verticalidade do “Homem Universal” em Cristo.
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A ressurreição de Cristo, com seu corpo por vezes distinto e por vezes idêntico ao anterior, a revivificação corporal de Lázaro, o arrebatamento corporal de Elias e de Henoc, a ressurreição do filho da viúva de Sarepta e da filha do chefe, e a assunção da Virgem Maria são eventos que atestam a realidade da ressurreição corporal.
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A assunção da Virgem Maria, em particular, introduz a mediação da Virgem nos estados post-mortem.
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Essa mediação se exerce a partir de um “plano” (termo impróprio) de onde procede a “verticalidade” do “Homem Universal” em Cristo.
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O papel da Virgem Maria no cristianismo decorre do fato de que o Verbo eterno se encarnou numa forma humana, a de Cristo Jesus, e essa encarnação implica um princípio passivo e puro, uma “substância” refletora e imaculada, que é o “vazio” ou “vaculdade” fecundado pelo Verbo, princípio da “carne virginal” em que o Cristo se encarna e que é Maria, concebida sem pecado original.
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O Verbo original eterno encarnou-se numa forma humana, a de Cristo Jesus, ressuscitado e “subido” aos “céus” espirituais, arrastando consigo a natureza e a forma humana para “transformá-las”.
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No princípio, o Criador é o Som ou vibração primordial que “emulsiona” o vazio puro e virgem, que é o princípio da “carne virginal” na qual o Cristo se encarna.
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Esse vazio, essa vaculdade de existência, é uma “substância” refletora e não maculada, totalmente pura, um “reflexo de Deus”, que é a “conceição imaculada” de Maria.
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A relação entre Cristo e a Virgem é análoga à complementaridade entre a Perfeição Ativa (masculina, o Sol) e a Perfeição Passiva (feminina, a Lua), onde a Virgem é a “Toda Poderosa suplicante”, cuja oração é toda poderosa sobre as determinações do Filho, sendo a primeira das criaturas, situada nos confins do humano e do divino, e a própria carne de Cristo.
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A representação “solar” de Cristo e “lunar” da Virgem corresponde ao homem fecundante e à mulher fecundada, a “envelopada”.
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Na criação, o Divino exterioriza-se desdobrando-se, criando algo “entre Deus e Deus”, que é o seu reflexo, a “substância” divina da “Essência divina”, a Virgem do Eterno.
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O complementarismo entre Cristo (Toda Poderosa agente) e a Virgem (Toda Poderosa suplicante) significa que a oração da Virgem é toda poderosa sobre as determinações do Filho, estando incluída de toda eternidade na determinação de Cristo.
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Maria não é divina, mas a primeira das criaturas, situada “nos confins do humano e do divino”, sendo a carne mesma de Cristo.
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A “influência espiritual” da Virgem manifesta-se na história, como em Caná, onde ela atrai a atenção de Cristo para as necessidades humanas e ensina os homens a se conformarem à vontade de Cristo, sendo uma “transparência divina” de Cristo, uma “carnação de Jesus”, que não pode ser adorada, mas cujo socorro e graças podem ser solicitados junto ao Cristo.
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Em Caná, a Virgem atrai a atenção de Cristo para as necessidades dos homens, e este age, embora a sua “hora não tenha chegado ainda”.
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Ela ensina os homens a se conformarem à vontade de Cristo: “Fazei o que ele vos disser”.
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A resposta de Cristo a Maria (“Mulher, que há entre mim e ti?”) significa que, em Deus, ele não tem mãe, irmão ou parente, o que não impede a sua relação com ela no plano da incarnação.
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A “total reflexão” divina em Maria manifesta-se no seu “Fiat” ao anjo Gabriel.
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As orações dirigidas a Maria não fazem obstáculo à fé em Jesus, mas são “refletidas” ou “focalizadas” por ela nele.
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Maria é uma transparência divina de Cristo, uma “carnação de Jesus”, pelo que se pode solicitar o seu socorro e graças junto a Cristo, que é a Realidade.
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Nos estados post-mortem, descritos analogamente ao Bardo Thödol tibetano, o “eu” do defunto erra por 40 a 50 dias, privado do suporte carnal, enfrentando visões de luz e fantasmas oníricos, podendo ser atraído pelo que lhe permite subsistir como indivíduo, o “desejo de Eva” e a “atração do útero”, que o conduziriam a um novo estado individual, possibilidade que é excluída para o cristão em estado de “salvação”.
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O “eu” do defunto erra após a morte, privado do suporte estabilizador carnal, vislumbrando a Luz ou sentindo o apelo da Clara Luz (Jesus Cristo).
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O peso dos desejos e necessidades individualizantes pode impedir a absorção na Luz, levando a alma a ser arrastada por fantasmas irreais e oníricos, surgidos dos seus próprios “estados de alma”.
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A alma defunta, perseguida ou sem conseguir “situar-se”, corre o risco de não descobrir o centro do estado humano, tornando-se “errante” e afastada do Si libertador.
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A “atração do útero” pode levar o ser para outro estado “individual”, com os riscos de excentricidade periférica em relação à realização espiritual.
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Para o cristão em estado de “salvação”, a eventualidade de um novo estado individual é excluída, mas o mundo sutil, com os mesmos medos e desejos, constitui o purgatório e os infernos, daí o valor das orações e ritos e das proteções angélicas, divinas e marianas.
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O “desejo do útero”, sublimado na veneração e amor a Maria e no recurso a ela, torna-se a “passagem deiformante” no “Útero divino” de São Bernardo, que “capta” a alma do cristão errante post-mortem, explicando as núpcias místicas com a Shekinah e o papel da “Dama” do cavaleiro cristão, permitindo uma “transferência psico-espiritual” que prepara a ressurreição em “curso de vida póstuma”.
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O “desejo do útero”, sublimado na veneração e amor a Maria, torna-se a “passagem deiformante” no “Útero divino” (São Bernardo), que “capta” a alma do cristão errante post-mortem.
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Isso explica as núpcias místicas do justo de Israel com a Shekinah, a Torah, e o papel da “Dama” (Notre-Dame) do cavaleiro cristão.
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A veneração marial permite uma “transferência psico-espiritual” desde a vida terrestre, que continua post-mortem, sublimando a necessidade de amor na feminilidade materna do “Bel Amour”.
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Maria é o “paradigma” do complementar feminino, o útero deiformante e cristo-formador, que atrai a individualidade cristã “mantida em modo sutil” para uma renascença não num estado individual, mas num “estado incondicionado” divino.
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O cristão torna-se espiritualmente “parido” na terceira nascimento gloriosa, participante da natureza divina, por uma semente incorruptível gerada na mesma Virgem Maria, o que constitui a ressurreição, uma “incarnação espiritual” do homem, doutrina exposta com realismo por São Bernardo e São Luís Maria Grignion de Montfort, que designa Maria como o “molde de Deus”.
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A terceira nascimento gloriosa e eterna é o tornar-se “participante da natureza divina”, “regenerados não por uma semente corruptível, mas por uma semente incorruptível, a Palavra Viva de Deus”.
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Essa semente cristã é gerada na Virgem Maria para uma nascimento divina do homem, a ressurreição, que pode ser qualificada de “incarnação espiritual”.
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Santo Agostinho chama a Virgem de “Forma Dei”, o molde de Deus, próprio para formar e moldar deuses.
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São Luís Maria Grignion de Montfort ensina que Maria é o “molde vivo de Deus”, onde Deus-homem foi formado ao natural e onde o homem pode ser formado em Deus ao natural, pela graça de Jesus Cristo.
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Nos casos de devir póstumo, excetuando a realização espiritual efetiva ou a queda infernal, há uma busca por um novo útero pela alma defunta, mas para o defunto situado no “corpo de Cristo” pelo batismo, essa busca, embora permaneça, conduz às “entranhas deiformantes” da Virgem Maria, que o “pari” dando-lhe a carne espiritual de Cristo, as primícias do corpo de ressurreição.
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Para o defunto situado no “corpo de Cristo” pelo batismo, a renascença a um outro estado individual está excluída até a “fim dos tempos”.
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A “questão uterina” permanece, mas, devido à “economia escatológica” da incarnação do Verbo, ela conduz às “entranhas deiformantes” da Virgem Maria.
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Maria “pari” o defunto, dando-lhe a carne espiritual de Cristo e, com isso, as primícias do corpo de ressurreição ou Corpo glorioso.
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Essa parturição virginal pode ocorrer durante o prolongamento em modo sutil do defunto e interromper a prova do fogo purificador, sendo auxiliada pela qualidade das relações espirituais do defunto com a Mãe de Cristo durante a vida corporal, o que constitui o aspecto de intercessão e proteção.
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A parturição virginal pode operar-se na duração do prolongamento em modo sutil do defunto e interromper a prova do fogo purificador.
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A qualidade das relações espirituais que uniam o defunto à Mãe de Cristo durante a vida corporal vem em auxílio no momento do socorro último.
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Esse é o aspecto de intercessão e proteção, que replica as modalidades de veneração, confiança e amor que ligam o homem à Virgem.
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A graça de Cristo, contudo, basta-se a si mesma, e mesmo fora do cristianismo, o “batismo de desejo” e a integração no “corpo místico” de Cristo são possibilidades, pois todos os que buscam Deus de coração sincero podem chegar ao salvamento eterno, e o discípulo do Mestre, consciente ou não, está chamado a ressuscitar no Corpo glorioso do Messias, sendo, metafisicamente, gerado na carne incorruptível e virginal, passando pela Virgem, ainda que inconscientemente.
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A graça de Cristo basta-se a si mesma e não tem limites, existindo um “batismo de desejo” e uma integração no “corpo místico” de Cristo.
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A constituição Lumen Gentium do Vaticano II admite que todos os homens são chamados à comunhão da vida divina, incluindo os que buscam Deus de coração sincero sem ter recebido o Evangelho.
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Aquele que inscreve os homens no “Livro da Vida” é o Enviado, o “Schiloh” de Israel, também o Israel das Nações.
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O discípulo do Mestre, consciente ou não, está chamado a ressuscitar no Corpo glorioso do Messias triunfante e, metafisicamente, será gerado na carne incorruptível e virginal, passando pela Virgem ainda que inconscientemente.
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A “estratégia” póstuma da Boa Nova culmina na parturição ressurrecional da Virgem Maria, cuja imagem final é a da Cidade Santa, a Jerusalém Celeste do Apocalipse, que encerra em si o Templo e é iluminada pela lâmpada do Cordeiro, onde reside a Árvore da Vida, cujos frutos são a vida eterna, em consonância com a revelação bíblica de que Deus é o Deus dos vivos e Cristo é a Ressurreição e a Vida.
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A imagem final da feminilidade vitoriosa e compassiva é a da Cidade Santa, a Jerusalém Celeste do Apocalipse, com doze portas, aberta aos descendentes das doze tribos de Israel e à multidão dos eleitos.
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Esta Cidade virginal contém em si o Templo-Deus-Todo-Poderoso e é iluminada pela lâmpada do Cordeiro, onde reside a Árvore da Vida.
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A Árvore da Vida é a sabedoria do Zohar, cujos frutos dão a vida, a Terra da Vida Eterna.
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A ressurreição é atestada por Moisés na passagem da sarça ardente, onde Deus se revela como o Deus de Abraão, Isaac e Jacob, o Deus dos vivos, não dos mortos.
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Cristo é a Ressurreição e a Vida, e aquele que crê nele viverá, ainda que morto, e não morrerá jamais.
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