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REALIZAÇÃO GUÉNON

LAURANT, Jean-Pierre. Le Sens caché selon René Guénon. Paris: Éditions L’Age d’homme, 1975.

  • A partida de Guénon para o Egito em 1930, da qual nunca regressou, foi considerada surpreendente e condenada por Paul Sérant, que a interpretou como exílio patético de um homem votado à solidão.
    • Para Sérant, a conversão ao Islã fez Guénon perder o Magistério que reivindicava na restauração do pensamento ocidental.
    • Os textos e a correspondência volumosa de Guénon contradizem essa leitura: ele se sentiu à vontade no Islã e recusou diversas propostas de retorno.
  • Guénon não partiu em reação a um fracasso nem para combater uma forma de solidão por outra; partiu para integrar, não para romper.
    • No Cairo, realizou ao menos parcialmente a unidade entre vida cotidiana, prática religiosa regular e projeto metafísico.
    • As questões sobre as relações entre esoterismo e exoterismo, a necessidade de prática religiosa e as condições da iniciação só foram abordadas após e em razão de sua partida para o Cairo.
  • Outros atribuíram ao acaso a viagem ao Egito, embora tudo parecesse empurrar Guénon em direção à Índia.
    • Para Guénon, uma série de sinais o convidava a deixar Paris, e as circunstâncias fortuitas provavelmente não foram as causas reais da decisão.
  • As relações de Guénon com a Igreja foram se deteriorando desde os primeiros atritos com N.M. Denis-Boulet.
    • Em 1924, uma mesa-redonda organizada pelas Nouvelles Littéraires opôs Guénon a J. Maritain sobre amor e caridade: dimensão divina para um, limitação sentimental para o outro.
    • Guénon ficou isolado entre F. Lefèvre, Grousset, Maritain e Ossendowski.
  • Em maio de 1927, Guénon publicou seu último artigo em Regnabit, após o Padre Anizan ser atacado em sua concepção do Sagrado Coração.
    • Guénon cessou a colaboração, mas não Charbonneau-Lassay, que o havia introduzido na revista.
  • Uma carta posterior ao correspondente e tradutor brasileiro de Guénon revela interesse em sociedades de esoterismo cristão.
    • A organização do Paraclet, sobre a qual havia esperanças, entrou em torpor após a morte de Charbonneau-Lassay.
    • Guénon não via ninguém capaz de reativá-la.
  • As relações entre Guénon e Charbonneau-Lassay não foram tão estreitas quanto a carta sugeria.
    • Foi em 1939 que Charbonneau-Lassay mencionou em Le Rayonnement Intellectuel a existência dessas sociedades, e Guénon acrescentou uma nota sobre o assunto em Aperçus sur l'Initiation.
    • Olivier de Frémond serviu ao menos em parte de intermediário na correspondência entre os dois.
  • As posições de Guénon eram suscetíveis de inquietar muitos católicos; Olivier de Frémond escreveu em novembro de 1936 a Charbonneau-Lassay que o afastamento de Guénon o tranquilizava quanto à ortodoxia do Padre Anizan.
    • Guénon interpretou essas tomadas de posição como se Roma houvesse falado, como bom herdeiro dos ocultistas ditos cristãos, mas marcados por desconfiança em relação ao clero e ao Vaticano.
    • A revista do Padre Anizan desapareceu rapidamente, e ele terminou a vida um pouco à margem de sua ordem.
  • Essa incompreensão somava-se à dos meios universitários e literários e a outras decepções, como a tentativa do grupo dos “Polares” de entrar em comunicação com o centro supremo por intermédio de um eremita.
    • Fernand Divoire, diretor de L'Intransigeant, se interessava pelo assunto; Guénon havia prometido um prefácio ao livro Asia Mysteriosa, mas o retirou ao constatar a falta de seriedade da coisa.
    • A partir de 1928, Guénon passou a colaborar regularmente com Le Voile d'Isis.
  • Os laços sentimentais também se desfizeram; os carnets do Doutor Grangier registram o desespero de Guénon diante da crise de apendicite aguda da esposa em junho de 1926.
    • Guénon ficou como uma criança perdida, para logo em seguida retornar ao cigarro e à conversa filosófica.
  • Em fins de janeiro de 1928, a esposa de Guénon morreu de meningite cérebro-espinhal e foi sepultada em Blois.
    • Oito dias depois, Guénon já conversava sobre filosofia e metafísica, e num jantar com Mario Meunier não foi pronunciada uma palavra sobre a falecida.
  • A morte da tia e a partida da jovem Françoise deixaram Guénon só.
    • O Doutor Grangier observou os dois Guénon: o desespero fugaz e, quase imediatamente, a preocupação com o próximo livro a publicar pela Valois.
    • Guénon sentia-se permanentemente perseguido por influências maléficas.
  • Em 29 de janeiro de 1930, Guénon chegou tarde e visivelmente animado à casa de Mario Meunier, François de Pierrefeu e do Doutor Grangier, anunciando que partiria em fevereiro para uma viagem de vários meses ao Egito.
    • Grangier perguntou-se se Guénon havia sido chamado ao Egito por um centro iniciático secreto.
  • Ao mesmo tempo, Guénon havia organizado sua colaboração ao Voile d'Isis de Paul Chacornac de modo a não ter nenhuma obrigação.
    • Recusou o posto de redator-chefe proposto por Jean Reyor, contentando-se com prometer colaboração regular em troca da exclusão dos ocultistas.
    • Buscava também um editor que se especializasse na tradição e assumisse seus livros.
  • Maria Shillito, filha de um milionário americano e viúva do engenheiro egípcio Hassan Farid Dinah, trouxe a solução.
    • Ela visitou a Alsácia com Guénon e depois ambos permaneceram em sua propriedade “les Avenières” em Cruzeilles, antes de embarcar para o Egito à busca de manuscritos.
    • Pouco depois, Madame Dinah retornou sozinha à França e fundou a livraria Véga, que publicou Le Symbolisme de la Croix e Les États multiples de l'Être; ela acabou se casando com um inimigo de Guénon.
  • No Cairo, Guénon viveu inicialmente com grande pobreza no hotel Dar-El-Islam, em frente à mesquita Seyidna El Hussein, falando árabe e vestido como o povo.
    • Um amigo que veio de Paris verificar a situação encontrou o Sheikh Abdel Wahêd Yahia à beira da fome, mas absolutamente decidido a permanecer.
    • Valentine de Saint-Point forneceu informações úteis sobre seus primeiros tempos no Cairo.
  • A situação de Guénon estabilizou-se gradualmente; ele passou a fornecer dois artigos mensais ao Voile d'Isis, que se tornou Études Traditionnelles, incluindo um estudo de simbolismo.
    • Entre os conhecidos feitos no Cairo, Paul Chacornac destacou o Sheikh Salâma Radi, de uma confraria Sufi da ramo Shadilita, e o Sheikh Mohammed Ibrahim, comerciante cuja filha mais velha Fatma Hanem Guénon desposou em julho de 1934.
    • Guénon passou a viver na casa do sogro e em 1935 renunciou ao apartamento da rua Saint Louis na Île.
  • No ano seguinte, um admirador inglês, diante da desordem em que Guénon vivia entre seus arquivos, comprou-lhe uma casa no bairro de Doki: a villa Fatma, onde habitou até a morte.
    • Paul Chacornac descreveu o interior mobiliado à francesa, em contraste com o traje e o comportamento do Sheikh.
    • Havia nas paredes divisas religiosas segundo o costume muçulmano e um oratório particular.
  • A vida do Sheikh não foi reclusa nem secreta; ele permaneceu discreto, evitando publicidade e curiosidade.
    • Sua correspondência chegava em poste restante, e muitos, especialmente jornalistas, ignoravam que ele não morava na França.
    • Gabriel Boctor conseguiu estabelecer contato mediante a promessa de não publicar nada de sua conversa, promessa que manteve enquanto Guénon viveu.
  • As precauções de Guénon suscitavam tanta curiosidade quanto evitavam; G. Rémond narrou em L'Egypte nouvelle como chegou até ele por via imprevista e material, descobrindo Guénon sob a aparência burguesa e indigna de seu proprietário Ali el Dib.
    • Velhos amigos parisienses de Guénon, entre eles Mario Meunier e o pintor Pierre Giricud, haviam encarregado Rémond de procurá-lo.
  • Olivier de Frémond e Charbonneau-Lassay se inquietavam com rumores sobre a conversão de Guénon ao Islã e um casamento muçulmano.
    • Questionaram o professor Debien, que vivia no Cairo, o qual confirmou em 1937 que se tratava de uma muçulmana.
    • Uma carta de junho de 1938 informava que Guénon teria encontrado Massignon e conversado com ele por uma hora em 1937, e que o Sheikh Abdel Razek, professor de filosofia muçulmana, o via todas as semanas, mas alegava não o conhecer.
  • A vida material de Guénon e de sua família foi modesta, mas assegurada; o período 1940-1945 foi favorável ao trabalho, mas difícil para a subsistência.
    • As Études Traditionnelles haviam cessado de aparecer, e Guénon sobreviveu graças ao auxílio de amigos que lhe enviavam dinheiro pela valise diplomática.
  • Duas filhas nasceram após a guerra, e em 5 de outubro de 1950 Guénon anunciou o nascimento de Ahmed, o primeiro filho.
    • Um segundo filho póstumo nasceria no ano seguinte.
    • Guénon levou uma vida familiar normal, recebendo muitos amigos pessoais do Egito e da França, e alguns correspondentes faziam a viagem ao Cairo ao menos uma vez.
  • As autoridades políticas e religiosas do país pouco o conheceram; Chacornac narra que Guénon fez o Doutor Abdel Hâlim Mahmoud, professor de teologia na Azhar, esperar na rua antes de mandá-lo voltar no dia seguinte.
    • Guénon precisou de recomendação oficial para obter a nacionalidade egípcia, e G. Rémond lhe prestou ajuda, descrevendo-o como um homem frágil, muito louro, de olhos azuis, vestido com a maior simplicidade, extremamente afável, mas silencioso e transparente.
  • Entre os amigos de Guénon no Cairo havia muitos islamizados: o jovem inglês Paterson, que morreu acidentalmente; Martin Lings (Sheikh Abu Bakr); Valentine de Saint-Point (Rawheya Nour-Eddine).
    • Alguns deles participaram, após sua morte, de uma Associação dos Amigos de René Guénon.
  • O testemunho de Bammate é particularmente interessante: enviado ao Cairo pelo pai, que pertencia a uma confraria sufi no Afeganistão e correspondia com Guénon, encontrou um intelectual desconcertante para quem esperava algo diferente.
    • Bammate notou os olhos extraordinários de Guénon: grandes demais, pareciam vindos de outro mundo, buscando alhures.
    • Guénon havia perdido a vontade de convencer; sua polidez perfeita se afirmara ainda mais, com respeito e discrição, na forma mais oriental de receio de importunar.
  • A conversa de Guénon era simples e amável, salpicada de bênçãos familiares, evitando grandes temas; Bammate recorda uma noite em que, ouvindo o chamado do muezzin, Guénon lhe falou sobre o Islã diante das transformações do mundo.
    • Rama Coomaraswamy, filho de A.K. Coomaraswamy, e Marco Pallis visitaram a villa Fatma em fevereiro de 1947 e o descreveram como “santo e de grande saber”.
    • Para Pallis, o principal foi ter visto o Darshan de quem havia exercido influência tão profunda em sua vida; a conversa se limitou a assuntos superficiais.
  • Louis Caudron, comerciante de Amiens que recebeu a revelação da vida espiritual pela leitura de Guénon, empreendeu a viagem como uma peregrinação, já doente.
    • Frithjof Schuon, com quem Guénon era muito ligado e em quem via o prolongamento natural de sua obra, ficou terrivelmente decepcionado: o homem não correspondia ao aspecto magistral da obra, e a familiaridade da conversa e do comportamento o chocou.
  • Se o número de visitas permaneceu limitado, a correspondência atingiu proporções desmedidas, atestando a vontade de Guénon de manter contato com o mundo que havia deixado.
    • Quanto à contra-iniciação, Guénon não cogitava abandonar a luta; sua partida o colocara fora de alcance, e a correspondência lhe conservava as mesmas armas contra os adversários.
    • O trabalho doutrinário de Guénon no Cairo abrangeu três domínios principais: o aprofundamento simbólico, a ação do mal e a iniciação.
  • A correspondência e os testemunhos informam sobre seu modo de trabalhar, às vezes de forma contraditória.
    • Bammate o viu preenchendo inúmeras fichas, enquanto outros afirmam que nada era mais oposto a seu estado de espírito.
    • As cartas abundam em pedidos de documentação, sempre em direções pré-estabelecidas.
  • A correspondência com Louis Caudron contém numerosos pedidos e agradecimentos por envios de livros, como os dos Padres Brosse e Mandonnet sobre Dante teólogo, em novembro de 1935.
    • Em abril de 1936, Guénon pediu a História da antiga cidade de Autun e recebeu por essa via um dicionário de sânscrito, livros de Evans Wantz e Paul Mus.
  • Com Marius Lepage, especialmente de 1948 a 1950, as informações sobre documentação maçônica são numerosas.
    • Essas cartas mostram o interesse permanente de Guénon pelo simbolismo e pelas diversas revistas de história ou ocultismo que alimentavam sua revista de revistas nas Études Traditionnelles.
    • Guénon pedia informações sobre fontes maçônicas inglesas, sobretudo o Médiéval Mason de Knoop, o Early Masonic Catechism e The New Early Masonic Manuscripts.
    • É notável que Guénon tenha conhecido pouco a revista Ars Quattuor Coronatorum, particularmente importante para as fontes da Maçonaria.
  • Em 1950, Guénon se interessava pela reedição da Didaché, por C.B. Lewis, The Scottish Mason, e retomava Knoop e os rituais operativos, além de Yarker e do rito sueco-borgiano.
    • Pedia também Les Quatre Âges de l'Humanité de Georgel e o Freemason's Guide and Compendium.
  • A correspondência com J. Tourniac concerne mais especialmente a Igreja, a Maçonaria e as igrejas orientais.
    • Em setembro de 1948, Guénon anunciava o recebimento dos dois volumes do Padre Berteloot, criticava as tendências modernistas da revista jesuíta Études e se regozijava com a publicação dos Padres gregos, nos quais via indicações claras sobre a existência de um esoterismo cristão nos primeiros séculos.
    • Guénon recomendou o livro de W. Lossky, Théologie mystique de l'Église d'Orient, e a Kabbale Juive de Vulliaud.
    • Guénon comentou as assimilações de deuses gauleses e romanos em Lyon, e acompanhava de perto a pesquisa de Tourniac junto às igrejas gregas e armênias.
  • Certas influências documentais são fáceis de seguir, como a de Charbonneau-Lassay, a quem Guénon fez referência até o fim, especialmente nos artigos de simbolismo entre 1933 e 1950.
    • Guénon acompanhou as publicações de Charbonneau-Lassay em Le Rayonnement Intellectuel até 1940, sobre iconografia cristã e símbolos animais.
  • A forma como Guénon entrou em contato com A.K. Coomaraswamy é tão desconhecida quanto no caso de Charbonneau-Lassay.
    • Guénon inicialmente desconfiava de Coomaraswamy como hindu contaminado pela civilização anglo-saxônica; a documentação fornecida foi enorme, ultrapassando cem referências.
    • Vários artigos de Guénon, como “La Pierre angulaire” e “L'Arbre du monde”, foram construídos a partir dos trabalhos de Coomaraswamy.
  • O artigo “Mâyâ” (julho-agosto de 1947) retomou a tradução de Coomaraswamy de Mâyâ por “Arte” e comentou as relações entre arte e ilusão.
    • Do ponto de vista doutrinário, houve troca real entre os dois: Coomaraswamy evoluiu de concepções progressistas para um sentido tradicional, enquanto Guénon abandonou os preconceitos sobre o Budismo transmitidos por Matgioi.
  • Marco Pallis, que traduzia Introduction générale à l'étude des doctrines hindoues para o inglês, correspondeu-se com Coomaraswamy sobre a ortodoxia do Budismo.
    • Pallis e Coomaraswamy escreveram a Guénon, um fornecendo a argumentação e o outro os textos de referência, e Guénon mandou suprimir da tradução inglesa suas críticas ao Budismo.
    • Acrescentou em nota da reedição francesa que suas fontes livrескas sobre o Budismo concerniam os ramos mais desviados do Hinayana e que nunca havia tido ocasião de aprofundar a questão.
  • Carta de Guénon a F.G. Galvão reconhecia que seus conhecimentos históricos sobre o Budismo vinham da literatura da época, não de uma transmissão oral.
    • Trabalhos como os de Hocart sobre as castas ou de Waite sobre o Graal serviram de pretexto para artigos ou justificaram tomadas de posição de Guénon.
  • O propósito de La Grande Triade foi ilustrar as relações entre a unidade primordial e as diversas tradições iniciáticas por meio do ternário extremo-oriental Terra, Céu, Homem, que é também o nome de uma sociedade secreta chinesa.
    • Guénon mostrou as articulações desse ternário com a Trindade cristã: o Homem corresponde ao Filho, o Homem Universal que ocupa o segundo lugar na Trindade.
    • O Céu é essência e Polo superior, a Terra é substância e Polo inferior; a manifestação se situa inteiramente entre os dois Polos, e o homem, mediador, está no centro.
  • Representações geométricas como a dupla espiral derivam do Yin-Yang, que representa a união das duas perfeições no Ovo do mundo ou no andrógino primordial.
    • Os paralelos estabelecidos a partir do Yin-Yang são inúmeros: dos Devas e Asuras na Índia aos casais de deusas e mortais na mitologia grega, como o ovo de Leda e os Dioscuros.
  • O homem, ativamente perfeito em relação ao Cosmos, voltava-se originalmente para o Norte; tornado passivo por sua degradação, volta-se para o Sul.
    • Essas duas atitudes são a base de todas as orientações sagradas, incluindo a circumambulação das Lojas maçônicas.
  • O homem só pode apreender as duas perfeições quando se encontra no ponto central que a Tradição extremo-oriental chama de “Invariável meio”.
    • Guénon analisou diferentes ternários relativos, como os três mundos manifestados do Tribuvhana hindu ou a divisão tripartite do ser vivo, aproximando-os do enxofre, do mercúrio e do sal dos alquimistas.
  • O “homem verdadeiro”, a não confundir com o “homem universal” dos Grandes Mistérios, é filho do Céu e da Terra.
    • O imperador, residindo no Ming Tang, imagem e centro do universo, era a representação do homem verdadeiro; o Mestre maçom entre o Esquadro e o Compasso é outra figura do mesmo.
    • O rei Wang é também Pontífice, eixo vertical ou eixo do mundo, e realiza os sacrifícios públicos; ele está além, ou em termos cíclicos “anterior”, à distinção do espiritual e do temporal.
  • Os últimos capítulos de La Grande Triade estabelecem aproximações com dados mais familiares aos ocidentais.
    • Os ternários Deus-homem-natureza e Providência-vontade-destino combinam em expressão única a ideia filosófica, a imagem simbólica e o fato histórico.
    • Referências a Fabre d'Olivet e ao pitagorismo também estão presentes, assim como à obra de Guillaume Postel e ao Tableau naturel de Louis-Claude de Saint-Martin.
  • A conclusão de La Grande Triade sobre a “cidade dos salgueiros” resume bem o pensamento guénoniano: certos elementos rituais da Tien-Ti-Houei se prendem ao simbolismo polar primordial.
    • O iniciado da Tien-Ti-Houei chega finalmente à “cidade dos salgueiros”, lugar da grande paz; o salgueiro é equivalente ao ramo de ouro dos mistérios antigos e à acácia da Maçonaria na “câmara do meio”.
    • Há correspondência com o Es Sakinah árabe e a Shekinah da Cabala hebraica, lugar da presença divina onde se manifesta a atividade do céu.
  • A letra G no centro da abóbada nos antigos rituais da Maçonaria operativa é identificada por Guénon como derivada do iod hebraico, primeira letra do Tetragramma.
    • O fio de prumo suspenso à letra G desce do polo celeste ao polo terrestre, sendo a figura do “Eixo do Mundo”.
    • Dante, na Divina Comédia, faz Adão dizer que o primeiro nome de Deus foi I, coincidência que Guénon considera notável.
    • Não há exemplo mais claro de intuição do verdadeiro sustentada por argumentos misturados.
  • As expressões “homem verdadeiro” e “homem transcendente” remetem à noção de “realização espiritual”, preocupação dominante dos últimos anos de Guénon.
    • A frequência das referências ao esoterismo ocidental, especialmente à Maçonaria, pode parecer surpreendente.
  • A ruptura com Paris também foi um acabamento: ela libertou a combatividade de Guénon diante das forças do mal e da contra-iniciação.
    • Em julho de 1929, antes de partir, Guénon ameaçou a Revue Internationale des Sociétés Secrètes de revelar documentos em sua posse.
    • Do Cairo, o tom se elevou nas disputas com os redatores da RISS, G. Mariani e Henri de Guillebert des Essarts, ligadas às antigas querelas dos tempos de Jules Doinel.
  • Para Guénon, as relações passadas de Guillebert des Essarts com Le Chartier provavam o pertencimento deste à contra-iniciação, responsável pelo confronto entre a Maçonaria e a Igreja Católica para desviar a atenção dos verdadeiros malfeitores.
    • Em julho de 1931, Guénon executou sua ameaça, revelando possuir um importante manuscrito de Le Chartier e cartas comprometedoras.
  • G. Mariani foi ameaçado de processo por Guénon; o epílogo foi a morte de Guillebert e o anúncio da de Mariani, ao que Guénon reagiu perguntando se as pessoas compreenderiam que há coisas que não se tocam impunemente.
    • Para mostrar a ilusão dos “poderes” de Guénon, Mariani maquinou seu próprio desaparecimento, fazendo circular a notícia da morte de um homônimo oficial de marinha.
    • Mariani revelou o embuste numa carta aberta ao Voile d'Isis, mostrando o perigo de ver diabruras em tudo; Guénon não apreciou a brincadeira e afirmou seu caráter diabólico.
  • Guénon recomeçou com o sucessor de Mariani, Raymond Dulac, advertindo-o de que havia tocado num assunto proibido.
    • Em outubro de 1933, concluiu perguntando o que havia acontecido com Raymond Dulac.
    • Guénon nunca admitiu que Fabre d'Olivet não havia morrido de vinganças ocultas.
  • Chacornac, como diretor de revista, considerava inoportunas essas controvérsias com publicações sem importância, mas Guénon fez disso condição expressa de sua colaboração.
    • Para Guénon, suas respostas eram armas de riposte contra os ataques psíquicos dos quais era objeto.
  • A inquietude permanente com o mal persistiu até a morte de Guénon; qualquer carta atrasada ou perdida o deixava em pânico.
    • Jean Reyor testemunha que Guénon lhe enviava bilhetes angustiados nessas ocasiões.
    • Guénon encarregava frequentemente Reyor de investigar obscuros boletins mimeografados, cuja existência no Cairo parecia inexplicável.
  • Guénon repugnava que seu tema astrológico fosse conhecido ou que se possuíssem fotografias suas.
    • Em carta de novembro de 1946 a F.G. Galvão, alertava sobre o perigo real caso retratos caíssem em mãos mal-intencionadas: europeus e judeus no Cairo haviam procurado por todos os meios obter fotografias suas.
    • Em dezembro de 1946, protestou contra a exibição de seu horóscopo pelo Doutor Rouhier na livraria Vega.
  • Em duas cartas de novembro e dezembro de 1933, Guénon explicitou sua posição: os transmissores são inconscientes nessa guerra que lhe é movida, e todos os meios são bons; devia abster-se de voltar à França, pois as manobras subterrâneas correspondiam à cessação dos ataques abertos.
    • Sua revista de revistas detectava constantemente vestígios de ações subterrâneas: em 1934-1935, o ex-rabino Paul Rosen suspeito de ter inspirado Léo Taxil; em 1938, o interesse do Abade Rigaux pelas profecias de La Salette; em 1938, os episódios vintrasians do século XIX e sua possível continuidade.
  • Após a guerra, a correspondência de Guénon retomou o caso Teder, qualificado de “insigne falsário” do qual Papus foi vítima.
    • Em 1949, Guénon manifestou indignação violenta e perturbada contra Frank-Duquesne, que o havia atacado no número especial das Études Carmélitaines consagrado a Satã.
    • Os assassinatos de Denoël e Constant Chevillon, em Lyon, foram por Guénon atribuídos a influências contra-iniciáticas.
  • A polêmica com a RISS permanece o elemento mais importante; a correspondência de Olivier de Frémond informa sobre como Guénon se documentava e agia.
    • Frémond pensava que os serviços secretos ingleses estavam intimamente misturados a tudo isso.
    • Em 1933, Frémond confirmou o desaparecimento de Raymond Dulac e a tese de uma espécie de complô contra Guénon, cujas raízes remontavam a seus combates anteriores contra teósofos e a “Sinagoga de Satã”.
    • Em novembro de 1937, Frémond reconhecia no neopaganismo hitleriano o desfecho do que havia sido previsto nos tempos do Sphinx.
  • Na medida em que o mal era desbaratado, a questão da Realização tornava-se essencial; os leitores de Guénon que meditavam sua doutrina não encontravam em sua obra uma solução prática.
    • O apelo à formação de uma elite no interior do catolicismo não havia dado os resultados esperados.
    • A imagem dos maçons dada por Guénon em Le Théosophisme e L'Erreur Spirite era pouco lisonjeira, e o termo “iniciado” chegara a ser empregado em sentido pejorativo.
  • Algumas notas em L'Homme et son devenir... tratavam da questão dos ritos, cuja função parecia secundária.
    • A iniciação, a fronteira entre esoterismo e exoterismo e a necessidade de prática religiosa permaneciam mal definidas.
    • Os leitores dirigiram-se a Guénon com suas questões, e as respostas provocaram esclarecimentos e revisões, às vezes acompanhados de desejo de justificação.
  • As primeiras demandas recebiam frequentemente respostas evasivas: “Não posso dar nenhum conselho de realização prática, é necessária uma transmissão regular.”
    • A mesma discrição prevaleceu com C…, que chegou a lançar um apelo desesperado em maio de 1935 diante da tempestade que se anunciava no Ocidente.
    • Guénon limitou-se a recordar sua função: nunca prometera nada além de escrever tudo o que pudesse para os capazes de aproveitar.
    • Aconselhou o sufismo de preferência à Maçonaria, fornecendo o nome do contato, e desaconselhou a viagem ao Cairo naquele momento.
  • O novo iniciado expressou sua alegria em agosto de 1935: após vinte anos de espera confusa, finalmente obtinha a preciosa influência iniciática da confraria Alaouite.
    • Quanto às iniciações femininas, as respostas foram mais decepcionantes; em junho de 1947, Guénon admitia a Madame N. que a possibilidade era ainda mais restrita em relação às mulheres.
    • Guénon se dizia espantado com a proporção de mulheres que haviam feito essa pergunta após a publicação dos Aperçus sur l'Initiation.
    • Uma longa advertência se seguia contra Gurdjieff e sua escola, e Guénon confirmava não ser ele mesmo o mestre procurado.
  • No prefácio dos Aperçus, Guénon advertia que não encorajava ninguém a pedir ou a se abster de pedir uma iniciação.
    • Pretendia retomar noções tornadas evidentes por sua obra, mas que a incompreensão do mundo moderno tornava necessário expor novamente.
  • O artigo “Sobre a ligação iniciática” recorda que as coisas mais elementares já não são compreendidas, especialmente o papel e a eficácia própria dos ritos.
    • A iniciação consiste essencialmente na transmissão de uma certa influência espiritual por meio de um rito; transmissão e ligação são dois aspectos inversos de uma mesma coisa.
    • A observação dos ritos é necessária, mas o neófito não sente seus efeitos; a influência transmitida é puramente espiritual, sem elementos psíquicos ou mágicos.
  • Muitas “sociedades iniciáticas” são de fato muito degeneradas e incapazes de fornecer mais do que uma iniciação virtual.
    • Essa degenerescência torna a iniciação absolutamente necessária: o ponto de vista iniciático deve partir das condições dos seres manifestados e religar o estado de fato à ordem principial.
    • Não é o “Si” que deve ser libertado, pois nunca é condicionado; é o “eu” que deve sê-lo, dissipando a ilusão que o faz parecer separado do “Si”.
  • Na condição humana presente, não há outro meio possível que o fornecido pela iniciação para realizar a consciência efetiva do laço com o Princípio.
    • O germe depositado no ser pela iniciação é o equivalente espiritual da semente, em estado de virtualidade e “envoltura”, como a semente.
    • Essa semente é o que resta da Tradição primordial, e a iniciação regular, transmissão ininterrupta desde as origens, a concede ao neófito.
  • A ligação a uma cadeia supõe contato pessoal e transmissão oral; a iniciação pelos livros é impossível.
    • Os livros de conteúdo iniciático podem apenas dar ao neófito uma ideia da pluralidade dos sentidos dos textos, ou fornecer aos mais avançados um suporte de meditação.
    • Em casos excepcionais, o contato direto pode tomar formas inesperadas, como o de Jacob Boehme com um personagem misterioso que não reapareceu.
  • Quando o transmissor, embora perfeitamente regular, não tem a qualidade de verdadeiro mestre espiritual, realiza a função que os hindus chamam de Upaguru: manifestação exterior do mestre oculto, o Guru interior sempre presente na iniciação.
    • Um Guru humano verdadeiro não é ele mesmo outra coisa senão uma materialização do Guru interior.
    • A presença do Guru humano não é essencial nas sociedades iniciáticas onde o trabalho coletivo assegura uma presença espiritual, como na Maçonaria ocidental.
  • Os ritos iniciáticos são diferentes dos sacramentos religiosos, e os estados realizados na iniciação não são estados místicos.
    • As duas noites de São João da Cruz estão para os dois caos da démarche iniciática assim como a salvação está para a Libertação.
    • As formas iniciáticas correspondem às três vias orientais: Jnâna (Brahmane), Bhakti (Ksatriya) e Karma (Vaicya).
    • Só o Jnâna pode dar a libertação final; Bhakti e Karma se referem aos pequenos mistérios e são preparatórios.
    • No Ocidente não resta traço da via de Jnâna; as iniciações cavalheirescas pertenciam a Bhakti e as de ofício a Karma.
  • Guénon abordou também questões mais particulares, como a iniciação feminina: restavam traços das antigas iniciações femininas ligadas ao tecelagem que poderiam ser reativados.
    • A tentativa efêmera das “Companheiras de Penélope” parece ter ido nesse sentido.
    • Guénon tratou ainda dos iniciados muçulmanos em posição marginal na sociedade, os Afrad, aos quais ele próprio se assemelhava.
  • Guénon abordou a questão da realização “descendente”, isto é, a função social do iniciado e seu estatuto exterior, que corresponde a uma missão precisa.
    • O ser que “redesce” ao manifestado assume um papel expresso pelo simbolismo do “irradiar” solar, que ilumina todas as coisas.
    • É a via do sacrifício que sacraliza o mundo manifestado: função do Bodhisatva na Índia e do Rasûl no Islã, o verdadeiro homem universal.
  • Enquanto não se podia olhar para o rosto de Moisés após sua conversa com Deus, Mohammed nada deixava transparecer e podia conversar sobre coisas cotidianas com os próximos.
    • O iniciado pode ocultar-se no povo ou mesmo adotar um aspecto exterior grosseiro, como os “gens du blâme”, os Malamatiyya, sobre os quais Abdul-Hadi (Aguëli) já havia falado na Gnose.
    • Cada precisão de Guénon suscitava novos problemas e uma avalanche de dificuldades com as quais ele se debatia ainda em 1951, data de sua morte.
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