User Tools

Site Tools


robin:realidade

CHUANG-TZU E A MARIPOSA

Realidade

Em verdade, todo esse tecido de incoherências tem uma única causa: a ignorância do homem moderno, do ser individual que se levanta frente ao Criador e reivindica direitos ilusórios, por não ter reconhecido que sua individualidade, precisamente, não é senão uma modalidade — entre outras, em número indefinido — de um só e mesmo Ser. Não há um fosso, uma solução de continuidade entre o Criador e a criatura. Há uma Realidade única que manifesta suas possibilidades em todos os níveis do Universo. Há o eu individual e o Si, do qual retira toda a sua realidade e do qual está apenas ilusoriamente separado. Visto que todas as possibilidades que os seres individuais manifestam de modo distintivo estão contidas principialmente e sinteticamente nesse Si; fundidas, mas não confundidas, como dizia Mestre Eckhart, que sabia de tudo isso um pouco mais que os clérigos de hoje.

Fundidas, pois segundo a doutrina hindu da Liberação, ou a doutrina muçulmana da Identidade Suprema, a Existência é Uma em seu princípio e todos os seres, atualmente em um estado individual e privados desta consciência universal, podem e devem reintegrar esse Princípio que é seu Origem e seu Fim, em uma palavra, sua Realidade Última. Dele emanaram e a ele retornam segundo o simbolismo onipresente da peregrinação, da viagem iniciática, da Busca do Graal.

Mas não confundidas, pois não existem dois seres idênticos, e suas diferenças estão também virtualmente contidas no estado não manifestado, no Princípio. Em outros termos, o Princípio é Uno, mas contém em germe todas as possibilidades destinadas a manifestar-se. Como ilustrar esta unicidade da Existência onde se apagam as noções religiosas e exotéricas de Criador, de criatura (para sempre separados), de liberdade, de determinismo, etc.? Simplesmente com este sonho de um sábio taoista: Em outro tempo, conta Chuang-Tzu, uma noite fui uma borboleta que esvoaçava contente com sua sorte; logo acordei sendo Chuang-Tzu. Quem sou em realidade? Uma borboleta que sonha que é Chuang-Tzu, ou Chuang-Tzu que imagina que foi borboleta? No meu caso, existem dois indivíduos reais? Houve transformação real de um indivíduo em outro? Nem um nem outro; houve duas modificações irreais do ser único, da norma universal na qual todos os seres em todos os seus estados são um.

Assim sucede com as possibilidades manifestadas pelo Si que, qualquer que seja a modalidade — humana ou outra — segundo a qual se expressam, não deixam nunca de estar vinculados ao seu Princípio por esse fio (o senhor Anatrella não acreditava falar tão bem) que os hindus chamam de sutratma. Longe de reduzir o ser ao humilhante papel de marionete manipulada por um Criador retorcido, cruel e iníquo, permite-lhe, pelo contrário, incorporar-se à sua origem, através dos estados múltiplos do Ser. Sabendo disso, o homem interpreta seu papel nesta terra — como um ator que conhece o enredo da peça — com convicção, mas sem se iludir estupidamente pela qualidade e a importância do traje que vestiu… Pois se se aplica a este ator (consciente de ser infinitamente menos e infinitamente mais do que imaginam seus contemporâneos) a fórmula de São João: a Verdade o libertou, a consciência que possui doravante da Unicidade da Existência permite-lhe ver todas as coisas sub specie aeternitatis, e determinar-se propriamente, enquanto Si, e consciência de Si. O fim proposto ao homem é, com efeito, libertar-se de sua individualidade, de seu eu, para reunir-se com seu Si eterno; e não adorar seus próprios limites, confrontado assim aos falsos problemas do orgulho e da humildade, que não poderiam, aliás, existir um sem o outro e que se alimentam reciprocamente.

Assim fica resolvido o problema do determinismo e do livre-arbítrio: liberdade total ao nível do Si, determinismo absoluto ao nível do mim… E ao não haver nem Deus zeloso de suas prerrogativas, nem trêmula criatura eternamente exilada de sua pátria celeste, o mim pode identificar-se com o Si, não — repita-se — conservando suas limitações, mas libertando-se delas, como de tantos outros véus que lhe ocultassem a Última verdade. Aí reside a razão de ser da busca espiritual que empreenderam os homens de todos os tempos e de todos os países, tendo os Liberados balizado o caminho para os que os seguirão.

Acrescente-se de imediato que, se Nostradamus tivesse sido um desses Liberados vivos, para usar a terminologia hindu, não se teria ocupado em absoluto dos detalhes infinitesimais da História humana, e considerando todas as coisas em seu Princípio, não se teria visto obrigado a recorrer à astrologia judiciária para colocar em ordem o caos de imagens que oscilavam diante de seus olhos. Não, o mago provençal limitou-se a levantar o véu que separa o mundo de um plano mais sutil. Poder-se-ia dizer também que teve acesso às causas segundas dos acontecimentos, mas não à Causa primeira.

Um iniciado muçulmano da Idade Média, Al-Qashani, fornece a este respeito valiosas indicações sobre as transposições sucessivas que sofre a noção de tempo, muito contingente e relativa, à medida que se ascende na hierarquia da existência.

O mundo sensível ou corporal, o da manifestação ordinária, é chamado no tratado alam ash-shahadah, mundo do testemunho, conhecido também sob o nome de mundo do Reino (alam al-mulk).

No mundo da Realeza (alam al-malakut), o tempo dá lugar à perpetuidade do mundo psíquico ou intermediário: é o domínio da manifestação sutil, chamado também mundo dos Modelos (alam al-mithal). Aí é onde estão inscritas as coisas da Tábua Preservada do Destino (al-qadar).

O domínio espiritual da manifestação informal é chamado mundo da Onipotência (alam al-jabarut): é o lugar do Decreto imutável (al-qada), onde está fixado pela eternidade.

Embora Nostradamus não tivesse acesso ao lugar do Decreto imutável, os acontecimentos que via não deixavam por isso de ter uma incontestável realidade em sua ordem — o mundo dos Modelos — e sua manifestação terrena não era em absoluto condicional. Pois, como diz René Guénon em Os Estados Múltiplos do Ser: O ponto de vista da sucessão cronológica não é em realidade mais que a expressão simbólica de um encadeamento lógico e causal.

Dito em outros termos: a vida de um homem está contida no Intelecto divino como um todo finito, e o indivíduo não faz mais do que realizar de modo sucessivo e de uma maneira analítica o que está escrito sinteticamente desde toda a eternidade no Princípio.

Mas, replicar-se-á, o que se torna o Mal nestas condições? Também é querido pelo Si? Existe em Deus? Escândalo aos olhos dos agnósticos, esse problema do mal… De fato, o mal em si mesmo é puro nada. Não possui realidade própria. Ao nível do ser, trata-se apenas de uma limitação de tal ou qual possibilidade, destinada a assegurar a diferenciação e a hierarquização harmônica de todas as coisas no seio do Universo. Por isso, todo desordem parcial concorre para a Ordem geral. E ainda aí, o mal é somente sentido pelo indivíduo que deseja limitar-se a si mesmo sem levar em conta a possibilidade que possui de escapar a qualquer limitação, a qualquer determinação e, em consequência, a qualquer mal. Assim, se as possibilidades mais inferiores e mais catastróficas de um ciclo humano chegassem a manifestar-se, acabando de fazer passar da potência ao ato (para usar a terminologia escolástica) todos os germes contidos principalmente na origem desse ciclo, não se poderia nunca assistir ao fim de um mundo e, correlativamente, ao nascimento desta terra nova e desses céus novos de que se fala no Apocalipse. Visto que a toda morte corresponde um nascimento em outro estado.

É por isso que o Juízo Final, embora marque o fim de um ciclo da humanidade, não equivale em absoluto ao fim do Universo manifestado, já que subsistem ainda — segundo a própria perspectiva religiosa — esses céus e esses infernos que correspondem aos estados superiores (ou posteriores) e inferiores (ou anteriores) com respeito ao estado que acaba de desaparecer — se assim cabe expressar-se. Mas esta doutrina dos ciclos é naturalmente ignorada pela perspectiva religiosa, cuja razão de ser é precisamente limitar-se à ordem individual humana — o que a força a adotar uma visão linear, retilínea, da história. Trata-se, pois, de uma limitação e não de um progresso, como alguns parecem crer.

Mas não se deve cair então no erro do eterno retorno de Nietzsche. Pois, e voltando ao esquema da helicoide cilíndrica que já havia sido utilizado para falar da astrologia judiciária, não pode haver ponto de contato entre as diferentes espiras, mesmo supondo que o passo que as separa seja infinitesimal. Deste modo, no processo ascensional geral de retorno ao Princípio dos mundos manifestados pelo Espiro divino, só podem existir analogias entre as fases diferentes, e não similitudes.

Esta doutrina dos ciclos cósmicos implica que o verdadeiro fim do mundo só poderia ser o pralaya dos hindus, a dissolução universal, após a qual não subsiste mais que Brahma, ou seja, o Princípio no qual se reabsorveu a Manifestação universal.

Quando se compreende isso, contempla-se o Jogo divino sem angústia — o que seria absurdo — e sem ódio — o que o seria mais ainda. Pois segundo A Sabedoria (XI, 24-25):

Tu amas, com efeito, tudo o que existe e Tu não odeias nada do que fizeste; pois se Tu tivesses odiado algo, Tu não o terias feito. E como uma coisa teria subsistido se Tu não a tivesses querido, como teria sido conservada se Tu não a tivesses chamado à existência?

robin/realidade.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki