RENÉ GUÉNON, TESTEMUNHA DA TRADIÇÃO
René Guénon — Témoin de la Tradition, publicado pela Robert Laffont em 1978. [JRRG]
Biografia de René Guénon que tem o mérito de apresentar o desdobramento de seu pensamento em suas principais obras.
Pôde-se dizer da obra de René Guénon que ela constituiu “o milagre mais fascinante produzido diante da consciência moderna” (Michel Valsan). E verdade que em um tempo onde a mudança se torna um fim em si, e onde a noção de progresso se dissolve em um perpétuo questionamento de hipóteses sempre mais frágeis e decepcionantes, esta obra intemporal se apresenta tal um incomparável monumento erigido à glória “daquilo que não passa”.
I Vestígios esparsos
II O Enigma da Esfinge
III A Metafísica Oriental.
IV O Símbolo dos símbolos
V A Iniciação
VI Um Primeiro Balanço
VII A Sorte do Ocidente
VIII O Sheikh Abdel Wahed yahia
IX O Adversário
X Os Magos Negros
XI A “Personalidade” de René Guénon
XII Do “Voile d'Isis” aos “Études Traditionnelles”
Apresentação (resumo)
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A obra de René Guénon foi caracterizada como um prodígio intelectual ímpar diante da consciência moderna, constituindo-se como um monumento atemporal em uma época que consagra a mudança e o progresso efêmero.
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A obra é definida como um monumento à glória do que é permanente e não se dissipa.
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O contexto histórico é marcado pela valorização da mudança como um fim em si mesma e pela fragilidade das noções de progresso.
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Após o fracasso da conspiração do silêncio e o declínio dos ataques diretos, a obra de Guénon permanece inalterada e imponente, alcançando uma ampla audiência intelectual após um período de influência secreta reconhecida por diversas personalidades.
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A obra superou a fase de incompreensão que a relegava a uma influência secreta.
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Personalidades como Daniel Rops, Robert Kanters, André Breton, Antonin Artaud, André Gide, Jean Paulhan e Raymond Queneau reconheceram sua importância.
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A crescente audiência é atestada por constantes reedições, inclusive em edições de bolso, e pela adesão de meios antes refratários, como a Universidade.
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Disciplinas como o orientalismo e a história comparada das religiões não podem mais ser seriamente concebidas sem referência a Guénon, ainda que implícita.
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No Oriente, intelectuais que se desiludiram com o ocidentalismo redescobrem suas próprias tradições por meio da obra de Guénon, o que valida sua autoridade como intérprete do Oriente, reconhecida inclusive por figuras como Shri Ramana Maharshi.
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A obra de Guénon auxilia no retorno de alguns orientais à sua própria tradição.
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Esse fato constitui uma prova da autoridade de Guénon como intérprete do Oriente.
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A função primordial de Guénon pode ser resumida como a de um intérprete, papel que ele próprio reivindicava ao atribuir as doutrinas a uma fonte que não a sua individualidade, em contraste com o individualismo narcísico do Ocidente.
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Guénon afirmava que as doutrinas expostas não lhe pertenciam, chegando a lamentar não poder manter o anonimato.
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O autor considerava as individualidades de pouca importância, em oposição à valorização ocidental do “eu”.
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Um exemplo dessa postura é sua resposta a um crítico, afirmando que sua personalidade importava menos do que a ordem de coisas que ele abordava.
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A recusa em se expor às investigações psicológicas de seus contemporâneos intensificava a irritação e o temor causados por sua obra.
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É possível que a incompreensão tenha gerado, em alguns casos, um temor reverencial que contribuiu para a conspiração do silêncio.
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Apesar da aparente contradição com a postura do autor, a vida e a obra de Guénon são indissociáveis, embora os critérios psicológicos comuns de análise sejam inúteis para compreendê-las, como demonstra a futilidade da busca por suas supostas fontes.
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As considerações psicológicas habituais são inaplicáveis a Guénon.
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A relação entre o homem e sua função é de natureza diferente da convencional.
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A investigação das fontes intelectuais de Guénon, prática comum nos meios acadêmicos, revela-se de proveito irrisório.
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A distância entre qualquer possível iniciador e a magnitude da obra é evidentemente incomensurável.
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A obra de Guénon não encontra paralelo ou explicação em correntes tradicionalistas ou esotéricas anteriores, caracterizando-o como um homem fundamentalmente só, cuja função para o Ocidente exigia uma heterogeneidade radical em relação ao pensamento dos últimos séculos.
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Nenhuma obra preexistente facilita a compreensão da gênese do conjunto da obra guenoniana.
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Os eventuais elogios a predecessores na juventude são atribuídos a conveniência e polidez tradicional.
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A solidão de Guénon é um traço marcante de sua trajetória.
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A função que desempenhava em relação ao Ocidente exigia que seu pensamento não derivasse de aquisições intelectuais recentes.
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O caráter inovador da obra de Guénon, cujo propósito era religar o Ocidente às suas fontes espirituais originárias, apresenta um paradoxo apenas aparente, que ilustra a apropriação distorcida de mitos pelo pensamento moderno.
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A obra visava reconectar o Ocidente, que rompera com sua tradição, às suas origens espirituais mais profundas.
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Esse “passado” eternamente presente é visto negativamente pelos adeptos do evolucionismo.
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O paradoxo entre o aspecto revolucionário e o propósito tradicionalista da obra é um exemplo da reutilização inconsciente e deturpada de mitos pela modernidade.
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A aparente contradição entre o caráter revolucionário e a orientação tradicionalista da obra de Guénon resolve-se pelo fato de que, dado o esquecimento secular da própria tradição no Ocidente, o retorno às fontes assumiu inevitavelmente a forma de uma novidade radical.
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O distanciamento do Ocidente de sua própria tradição, inclusive por parte de seus guias espirituais, era secular.
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Escritos medievais de caráter espiritual, como os de Mestre Eckhart e Dante, eram lidos apenas como literatura ou poesia, ou então mal interpretados como panteísmo ou misticismo.
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O estudo das doutrinas orientais, que preservavam a metafísica pura, poderia ter alertado o Ocidente para sua carência, mas a abordagem dos orientalistas distorceu essas doutrinas.
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A obra de Guénon se ordena em torno do ternário Verdade metafísica, simbolismo e iniciação.
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A Verdade metafísica é o objetivo da busca espiritual; o simbolismo é sua expressão no mundo; a iniciação é o fio condutor que liga o ser individual à Origem, fundamento dos métodos de realização espiritual em todas as tradições.
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Desse ternário fundamental decorriam as noções de unidade essencial das tradições, oriunda de uma Tradição primordial, e da doutrina da Identidade Suprema ou Delficação, objetivo final da via iniciática, conceitos inéditos no Ocidente desde Mestre Eckhart ou deturpados pela noção exotérica de salvação.
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A universalidade da metafísica implica a unidade essencial das tradições, manifestada originalmente pela Tradição primordial.
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A Identidade Suprema (para os muçulmanos) ou Delficação (para os hindus) é a meta última da via iniciática, a reintegração no Princípio.
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Nenhum ocidental, com uma exceção a ser estudada, havia tratado dessa meta desde os tratados de Mestre Eckhart, pois ela era confundida com a noção de salvação, própria de um catolicismo diminuído.
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No vácuo deixado pela incompreensão da metafísica e pela religiosidade limitada, surgiram o ocultismo e o teosofismo como alternativas enganosas, o primeiro pretendendo reconstituir artificialmente uma tradição ocidental, e o segundo oferecendo um sincretismo pseudo-oriental a serviço de interesses políticos.
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O ocultismo buscava reconstruir uma tradição ocidental de forma artificial, misturando arqueologia tradicional com magia cerimonial.
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O teosofismo consistia em um sincretismo grosseiro de elementos orientais, por vezes alinhado aos interesses do imperialismo britânico na Índia.
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Ambas as correntes eram perigosas e enganosas para aqueles que buscavam algo além do materialismo ou da religiosidade convencional.
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A obra de Guénon foi elaborada em meio a esse contexto de ignorância e falsificações, exigindo um trabalho preliminar de crítica para desobstruir o terreno e evitar associações indevidas, como a de seu Hinduísmo com o dos teosofistas.
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O primeiro momento da obra de Guénon consistiu em “limpar o terreno” dos obstáculos à compreensão correta dos temas que abordaria.
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Era fundamental evitar que seu estudo do Hinduísmo fosse confundido com a versão dos teosofistas, o que desacreditaria seu trabalho.
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O objetivo era permitir uma apreciação sadia e uma reorganização do conhecimento que se encontrava confuso.
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No início de sua imensa tarefa, Guénon contava apenas com o apoio moral de leitores isolados e de alguns católicos tímidos, o que torna ainda mais notável que um homem tão solitário pudesse cumprir sua função, o que se explica pela perfeita adequação de sua individualidade a essa função.
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Guénon não podia contar com auxílio efetivo no Ocidente para sua obra.
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Seus primeiros leitores, oriundos de diversos meios intelectuais, ofereceram apenas um suporte “moral”.
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A maioria dos católicos que poderiam apoiá-lo mostrou-se tímida e recuou.
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A capacidade de Guénon para assumir tal destino é explicada pela afirmação de Michel Vâlsan de que as “matrizes da Sabedoria” o haviam preparado para isso.
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A adequação total entre a individualidade e a função, entre a vida e a obra, é o ponto central, afastando interpretações psicológicas, sociológicas ou econômicas comuns.
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A dissociação entre o homem e sua obra foi considerada inadequada, optando-se por seguir sua trajetória comum, pois o reconhecimento da função de Guénon permite compreender o alcance de sua obra, que, por sua vez, manifesta sua dignidade superior, especialmente quando considerada em sua interação sensível com o contexto.
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Acompanhar a gênese da obra em paralelo à vida do autor é indispensável.
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A função de Guénon ilumina o significado e as consequências de seus escritos.
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A obra, apesar do anonimato desejado pelo autor, manifesta sua própria eminência.
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A formulação das verdades imutáveis não era monolítica, mas sim sensível ao contexto, demonstrando intuição das oportunidades e conhecimento profundo das circunstâncias.
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Acompanhar a obra é também acompanhar o destino espiritual do Ocidente.
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A obra tem caráter de dádiva sacrificial e inclui advertências, cujas consequências deveriam ter sido extraídas para que a hipótese mais pessimista sobre o destino do Ocidente, presente desde seu primeiro livro, não prevalecesse.
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O livro se propõe a responder, vinte e sete anos após a morte de Guénon, qual das hipóteses sobre o destino do Ocidente se confirmou.
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A compreensão profunda da mensagem de Guénon não se limita à adesão teórica, pois sua obra, a mais intelectual dos últimos séculos no Ocidente, conclama ao combate interior da Grande Guerra santa, cujo objetivo é a paz que não é a paz do mundo.
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A obra exorta à “Grande Guerra santa”, a guerra interior.
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O objetivo desse combate é uma paz de ordem superior, conforme a citação evangélica.
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A obra, portanto, culmina em um chamado à ação espiritual, e não apenas à contemplação teórica.
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A obra de Guénon pode ser considerada de duas maneiras: como uma síntese de verdades antigas para a época moderna ou como o testemunho discreto de precursores.
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Uma das maneiras é vê-la como uma síntese genial de antigas verdades.
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A outra maneira é enxergá-la como o testemunho discreto de precursores ao longo do tempo.
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