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INTRODUÇÃO
AS SOCIEDADES SECRETAS AO ENCONTRO DO APOCALIPSE
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Escrever a história das sociedades secretas implica trabalhar apenas com vestígios e fragmentos que sobrevivem à superfície da história, pois uma sociedade verdadeiramente secreta deve por definição escapar à investigação dos historiadores, que dependem de documentos escritos inexistentes ou inacessíveis.
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Uma sociedade secreta que pode ser estudada teria, por isso, falhado em sua missão “meta-histórica”.
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René Guénon estabelece distinção entre sociedade secreta e organização iniciática, sendo esta última indestrutível de fora, pois a qualidade iniciática de seus membros não pode ser perdida nem retirada.
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Enquanto um único membro vivo e apto a transmitir a iniciação subsistir, a organização mantém existência efetiva.
A concepção guénoniana de iniciação e transmissão iniciática postula a existência de um misterioso “centro supremo” que, guardião da Tradição primordial e depositário exclusivo das influências espirituais, garante sozinho a regularidade iniciática.-
A iniciação recebida em organização ligada a esse centro supremo seria, como o batismo.
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As sociedades secretas com pretensões iniciáticas dispensariam apenas simulacros de iniciação.
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Esse centro supremo recebe o nome de Agarttha.
A Agarttha e sua possível localização suscitaram controvérsias acirradas mesmo entre guenonianos, mas o interesse dessa noção mítica está em ter influenciado e impregnado a ideologia esotérica muito além dos círculos guenonianos.-
Entre as influências figuram a Grande Loja Branca dos teosofistas e múltiplas interpretações contemporâneas dos temas dos superiores desconhecidos, do Rei do Mundo e do povo subterrâneo.
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Guénon teria retomado e explicitado um mito preexistente, ou um arquétipo jungiano presente em todas as civilizações, referente ao centro do mundo, à terra pura ou ao paraíso terrestre.
O fato de esse centro ter se tornado subterrâneo e oculto indica, segundo Bernard Ferrié, que as organizações iniciáticas não são tão antigas quanto o mundo, mas nasceram com a ocultação da Agarttha, o que torna indispensável levar em conta a doutrina dos ciclos para estudá-las.-
Bernard Ferrié sublinha que tal abordagem exige reservas quanto ao bem-fundado da visão cíclica, mas que essa visão dominava o pensamento dos iniciados.
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A ciclologia é o ponto de passagem obrigatório para a compreensão do fenômeno sectário, pois qualquer outro itinerário conduz a ideologias fantasiosas que aplicam categorias estranhas ao esoterismo.
Hostis ao mundo regido pela degenerescência cíclica, organizações iniciáticas e sociedades secretas desempenham duplo papel aparentemente contraditório mas complementar: restaurar para cada indivíduo qualificado o nível de consciência original e, de modo menos confessável, acelerar o processo de decadência coletiva que permitiria o advento de um novo ciclo.-
Esse novo ciclo seria iniciado pelo Grande Monarca francês, pelo Imperador adormecido germânico ou pelo Mahdi muçulmano, descrito por Marc-Jacques Yared como messias subversivo aguardado com fervor pelas populações próximo-orientais.
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Segundo Bernard Ferrié, essa espera da Parusia orienta a ação dessas organizações para uma política do pior, acelerando a corrupção da velha sociedade para preparar o advento de uma nova Idade de Ouro.
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As formas luciferinas da contra-iniciação teriam a função de privar de seu último recurso uma civilização em perdição espiritual.
A ambivalência é a noção fundamental que preside à metafísica e à hermenêutica guenonianas, e Guénon introduz o conceito de contra-iniciação para integrar a essa metafísica a sombra do mito, que obriga a considerar o mal como motor da história.-
A contra-iniciação, de origem divina mas pervertida, recebe a tarefa de preparar espaço para uma Renovatio.
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Organizações iniciáticas e contra-iniciáticas travam antagonismo dialético sutil, podendo um mesmo desígnio atualizar-se por modalidades políticas que vão da reação à revolução.
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Guénon afirma que o verdadeiro esoterismo domina os movimentos exteriores do mundo profano sem a eles se misturar, exercendo influência sobre cada um dos partidos contrários.
Essa abordagem guenoniana torna caduca a análise sociológica e reconcilia aparentemente os dois modelos opostos de explicação das relações entre esoterismo e política: o modelo negativo da conspiração e o modelo positivo dos superiores desconhecidos e do Rei do Mundo.-
Isso situa a perspectiva guenoniana nos antípodas do maniqueísmo católico, em que Igreja e Contra-Igreja travam luta implacável cujo desfecho para esta última, encarnada privilegiadamente pela Maçonaria, só pode ser o lago de enxofre.
A distinção entre organização iniciática e sociedade secreta não é utilizável metodologicamente, por dois obstáculos impeditivos que forçam a renunciar a uma distinção fecunda apenas in abstracto.-
O primeiro obstáculo é que a noção técnica de transmissão iniciática pressupõe a inexistência de contestação, o que está longe de ser o caso, pois o domínio iniciático exclui por definição critérios de aparência objetiva.
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O segundo obstáculo decorre da degenerescência das organizações iniciáticas, que criou confusão inextricável reconhecida pelo próprio Guénon: organizações iniciáticas que passaram a ter apenas objetivos similares aos das sociedades secretas podem se entrelaçar com estas de modo mais ou menos inextricável.
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Guénon menciona ainda organizações de existência temporária constituídas para objetivos especiais, nem propriamente iniciáticas nem simplesmente profanas, cujo enquadramento categorial levanta dificuldades exemplificadas pelo Ordre des Compagnons secrets, de origem gaullista.
Diante dessas dificuldades, adota-se a denominação clássica de sociedade secreta em sentido lato, pois o essencial não é testar a regularidade iniciática segundo critérios guenonianos, mas iluminar a função mítica de cada organização.-
Isso implica que uma sociedade secreta existente apenas no imaginário coletivo é tão digna de interesse quanto uma que corresponda a realidade efetiva, hipótese ilustrada pelo caso da Sinarquia.
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Retoma-se a distinção de Max Weber entre sentido vivido e sentido verdadeiro.
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Bernard Ferrié afirma que o importante não é determinar a existência ou inexistência dos Anjos, da Atlântida ou do Rei do Mundo, mas constatar que comportamentos intelectuais e sociais foram orientados por referência à angelologia, à geografia sagrada e ao mistério da Agarttha.
O mitólogo vem em auxílio do historiador e, à imagem do paleontólogo, pode reconstituir a partir de fragmentos o perfil de uma sociedade, ao menos em seus componentes essenciais e em seu desígnio metapolítico.-
O nascimento de uma sociedade secreta responde antes de tudo a uma necessidade de ordem mítica que permite filiá-la a correntes que atravessam subterraneamente a história.
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Trata-se de um mundo paralelo em busca de reconhecimento que suscita a ressurgência de mitos milenares revestidos de modernidade, como ilustram o Irã dos aiatolás e o pan-islamismo místico de Kadafi.
A sociedade secreta aparece menos como motor invisível ou deus ex machina de uma criptopolítica do que como ponto de emergência de um além imutável em nosso aquém cotidiano, móvel e ilusório.-
A força constrangedora dos arquétipos se impõe sobre grupos totalmente inconscientes do que está em jogo, que reproduzem até nos detalhes um modelo cujas raízes mergulham em um terreno mítico e em uma dimensão do tempo paralela ao tempo histórico.
O estudo das sociedades secretas convida a uma viagem pelas profundezas da alma humana, e a carga mítica que veiculam explica a fascinação exercida, que leva o público mal informado a dar crédito aos defensores da causalidade diabólica.-
Esses defensores, por vezes confortados por leitura apressada de Guénon, transformam a história em cena manipulada por um grande manipulador — judeu, maçom, jesuíta, etc. — que puxa os fios dos fantoches nos bastidores.
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Esse dualismo irredutível e perigoso nega a continuidade orgânica entre o aquém e o além e não dá conta de um fenômeno que tem sua fonte no coração da história, em suas profundezas invisíveis mas vivas e atuantes.
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O conceito guenoniano de contra-iniciação ilustra que, se há complô, ele é parte do próprio plano divino, sendo fermento do processo histórico e não obstáculo a ele.
Só na perspectiva organicista ou monista se precisam a natureza e o papel das sociedades secretas, o que pressupõe trazer à luz, por meio de exemplos particularmente significativos, as grandes correntes que constituem a trama político-mítica da história.A pretensão à exaustividade é absurda nesse domínio, e os critérios de escolha foram simultaneamente objetivos e subjetivos.-
Objetivos porque, ao explorar fundos míticos, privilegiaram-se as sociedades secretas investidas das mais pesadas responsabilidades, mesmo quando seu potencial subversivo e sua influência real se revelam insignificantes, como no caso dos Illuminati da Baviera.
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Subjetivos porque se buscou estudar no terreno sociedades cujo destino a história ainda não selou, mas que, filiando-se exemplarmente a um dos arquétipos maiores repertoriados, permitem assistir à elaboração espontânea de estruturas míticas e à sua fascinante confrontação com o século XX finalizante.
Um dos paradoxos levantados pelo estudo é o fato de que as sociedades secretas católicas aparecem como mais influentes e intrinsecamente perversas do que seus adversários declarados.-
A fascinação especular exercida pelo Outro em sua suposta malignidade leva a reproduzir, para melhor combatê-lo, suas estruturas orgânicas e dispositivos de ação, sem as justificativas de que ele pode se valer.
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Considerar a história como lugar de confrontação irredutível entre Bem e Mal, e seus episódios trágicos como exteriorização de um complô extra-histórico, acarreta consequências que o estudo procura evidenciar.
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