(DRG)
“É contingente”, escreve René Guénon, “aquilo que não tem em si uma razão suficiente”, o que também pode ser dito: aquilo que não possui uma razão própria de ser. Ora, esta definição que, diga-se de passagem, está em perfeita concordância com o pensamento e a doutrina de São Tomás de Aquino, é sempre acompanhada por Guénon com uma correção de significativa importância, pois, precisamente, o que poderia aparecer como o exemplo por excelência do “Contingente”, ou seja, todo o domínio da Manifestação, é de facto definido por ele como “absolutamente permanente segundo a Possibilidade universal”. Além disso, é esta permanência, sempre segundo a Possibilidade universal, que constitui inclusive toda a realidade do manifestado; fora desta permanência podemos afirmar que o manifestado não tem propriamente nenhuma realidade, é muito positivamente apenas uma pura ilusão, inexistente.
É portanto através da implicação na ordem da Possibilidade que a Manifestação recebe o seu critério único de realidade, a sua própria realidade, a sua verdadeira “razão suficiente”, porque Princípio e Razão Suficiente são essencialmente uma e a mesma coisa.
Portanto, dependendo se a encaramos como inscrita na Possibilidade, ou como dependente deste Princípio, podemos definir a Manifestação como efetivamente necessária, ou verdadeiramente contingente. Isto não é contraditório nem apresenta uma dificuldade teórica particular se tivermos o cuidado, é claro, de especificar o ponto de vista a partir do qual a Manifestação é considerada.
Para completar, em relação a esta questão, devemos finalmente admitir que o que está presente em modo transitório na Manifestação, “deve ser transposto em modo permanente no não manifestado”. Assim, é concedida à Manifestação como um todo uma permanência que lhe confere toda a sua realidade principal, mas, com a ressalva de que não é a Manifestação como tal que lhe é fornecida, mas as “possibilidades de manifestação” a partir do momento em que não se manifestam, incluindo, no entanto, a Manifestação na sua permanência não visível.
(RGEME, cap. XVII, “Necessidade e Contingência”.)
Veja Kshetra, Ilusão, Manifestação, Necessidade, Possibilidade, Real.