(Zolla2016)
Dioniso tem muitos nomes. Na Índia, na era védica, foi chamado Soma, nome dado à bebida estimulante mais venerada pelos sacerdotes, que o reconheciam como seu único deus. Eles o preparavam espremendo e filtrando o suco dos caules de uma planta de alta montanha ou, segundo outros, do Amanita muscaria, um cogumelo alucinógeno de chapéu púrpura que embriaga os cervos.
Era esmagado entre duas pedras e depois drenado com um filtro de lã, uma operação que remetia à agitação do mundo para extrair sua essência.
Soma proporcionava embriaguez, exultação, cura e sabedoria. Era filho do céu, depositado na terra pelo relâmpago, como sempre se disse dos cogumelos. Por fim, nascia em meio aos gritos emitidos na lã onde era pressionado e filtrado. Este momento crucial, uma espécie de morte, era chamado em sânscrito de savana, e da mesma raiz indo-europeia seu(k) provém nossa palavra “suco” e, em sânscrito, o nome de toda bebida inebriante, sudhā.
Na verdade, toda planta ou animal tem uma força vital que vem dos céus, mas no Soma há o máximo: o universo em sua essência e poder supremo, porque contém a possibilidade do êxtase, que, na existência, na Índia é considerada o coração e fundamento. Soma era fogo (Agni) e encarnava-se no touro (Ṛg Veda, IX.70).
Mais tarde na história indiana, esse personagem, em grande parte desaparecido, passou a ser chamado de Shiva, que reside no haxixe. Nele, os soldados da expedição de Alexandre, o Grande, identificaram Dioniso. Ele é sentido no ímpeto do touro e do falo, no tremor que surge quando se está sozinho na floresta à noite. O Bhagavāta Purāṇa (IV, 2-7) diz que ele provoca o arrepio da impureza, quebra ritos, castas, costumes; como um louco, vagueia nu, cabelos ao vento, nos cemitérios, rindo ou chorando, coberto de cinzas, adornado com ossos e crânios. Mas seu nome significa “auspicioso”.
Ai de quem o banir, como ousaram os sábios védicos. Ele humilha os ascetas, obriga-os a descobrir a androginia e fascina as mulheres. Pode parecer homem ou mulher, pode dividir-se em duas metades: macho à esquerda e fêmea à direita, adotando o nome de Ardhanārīśvara, porque sua essência é a volúpia infinita, na qual êxtase viril e feminino se confundem. Ele tem o pescoço azul porque engoliu o veneno, cujos princípios destrutivos transforma em exultação. Como em uma batedeira, nele cada par de opostos – consciente/inconsciente, amabilidade/terror, prazer/sofrimento – funde-se em unidade. São características que, em parte, parecem retornar em Krishna, que se move brincando entre as pastoras apaixonadas por ele, à loucura, depois de abandonarem suas famílias.