(Zolla2002)
Plutarco fala de antros ou câmaras (mégara ou ádito) onde eram depositadas oferendas. Eusébio narra que Constantino ordenou a exploração sistemática desses recintos subterrâneos — antros de ninfas, de Mitra, de Átis, de Cibele, entradas para o Hades, cavernas onde Zeus nasceu —, mas certamente nem o exército romano bastaria para investigá-los todos! Damáscio, em A Vida de Isidoro, menciona os rios subterrâneos nas cavernas, próximos do Estige. A partir dessas informações, abundantes nos escritos patrísticos, compreende-se a descida ao Hades em Homero e Virgílio e talvez até o episódio em Mateus (a abertura dos sepulcros após a morte de Jesus): as visitas ao Sheol eram acessíveis a todos. E justamente quando Jesus desceu à morada dos mortos, ofereceu-se a “descida”. Para essa jornada, era necessária uma guia: Thoth, Hermes, mais tarde Virgílio, Miguel Arcanjo ou uma anciã inspirada — a Sibila, especialmente a de Cumas, ou Inanna, representada no pavimento da Catedral de Siena com a inscrição: “Et mortis fatum fini et trium dierum somno suscepto tunc initium ostendens in lucem veniet primum resurrectionis” (“Até o destino da morte e, após um sono de três dias, mostrando então o início, virá à luz o princípio da ressurreição”).
Houve também sinais eloquentes no Templo de Jerusalém, onde o véu se rasgou, além de presságios celestes como o sol que se escureceu. Ao acompanhar Jesus em sua descida ao Hades, todos refariam o percurso de Odisseu e Eneias. O Evangelho de Nicodemos relata que dois filhos do Sumo Sacerdote Simeão, Lúcio e Carino, correram a Jerusalém para anunciar o triunfo de Jesus no Sheol. Eles o tinham visto e voltavam para testemunhar.
A visita ao Hades era, portanto, uma experiência relativamente comum: Jesus desceu e foi visto atravessando os rios infernais, erguendo Adão, Eva e os patriarcas salvos. Enquanto isso, outros o avistavam nas estradas do campo, acompanhado pelos discípulos e comendo com eles — no mesmo momento em que aparecia no submundo e ressuscitado na terra. Na pintura sienesa, ainda próxima à tradição bizantina, destaca-se a obra-prima de Pietro di Sano, na Colegiada de San Quirico d’Orcia. No frontão triangular que a coroa, há dois compartimentos: à esquerda, no lugar do poder, Jesus é pintado ressurgindo com o estandarte da cruz; à direita, no lugar do ato, segurando o mesmo estandarte branco e vermelho, ele desce ao Hades.
Resta uma questão preliminar: o que se sente quando subir e descer se alternam até se confundirem? A vertigem — comum após exercícios de equilíbrio ou trabalhos em alturas extremas, como a arte do pedreiro em andaimes. Por si só, a vertigem não traz vantagens; é apenas sinal de despreparo. Só superando seu desorientação se avança além do comum. A sucessão espasmódica de movimentos, que beira a náusea, é domínio de artesãos ou atletas de certos esportes. Ao temor do risco enfrentado, deve suceder o hábito enraizado no sofrimento, que o apaga. Estamos subindo ou descendo? Essa pergunta exige uma resposta clara. A incapacidade de respondê-la é prova de que se entrou num estado equivalente ao do martírio: não se sabe; visita-se o Hades ou ascende-se aos céus? Vive-se simultaneamente no abismo e nas alturas. É-se torturado e elevado ao ponto em que a dor cessa, inundada por uma torrente de sensações intensas, por uma alegria transbordante.
É preciso lembrar o horror que ainda ecoa em Immanuel Romano, o famoso amigo de Dante, quando em seu Inferno declama contra os indiferentes a Deus e seus piedosos, cujos corações não raciocinam e cujos olhos estão obscurecidos “como se tivessem feito um pacto com o Sheol”.
Que concepção tinham os antigos da vida após a morte? Uma existência precária de sombras entre sombras, uma mortificação dolorosa, a repetição tediosa do que já foi vivido plenamente. Visitar as moradas dos mortos era uma prova angustiante, feita para colher conhecimentos, encontrar quem não se pôde conhecer em vida e ouvir seus alertas — num ambiente psíquico turbulento, repleto de vinganças frustradas e rancores não apaziguados. O ar dos mortos vibrava com palavras arrancadas dos delírios da agonia. A irrupção dos defuntos no mundo dos vivos causava pavor: falavam de modo desordenado e obsceno, faziam gestos infantis e ameaçadores, formavam um exército de vingadores sinistros. Torturavam não só pelo medo que sua presença inspirava, mas com gestos anarchicamente cruéis. Era essa a face da visita ao Hades que se devia recordar — e o torturador romano explorava o terror gerado por esse contato doloroso. Mas a alucinação oposta servia de alavanca, e a dor da ferida cessava.