René Guénon – Rei do Mundo (RGRM)
NOÇÕES SOBRE “AGARTHA” NO OCIDENTE (tr. Rui José Sacramento Alecrim)
A obra póstuma de Saint-Yves d’Alveydre intitulada Missão da Índia, publicada em 1920[[2ª edição, 1949.]] , contém a descrição de um misterioso centro iniciático, designado pelo nome de Agartha; muitos leitores desse livro persistiram em supor essa descrição como puramente imaginária, espécie de ficção sem base real. Com efeito, entendida à letra, contém inverossimilhanças que poderão, pelo menos para quem se fixa nas aparências exteriores, justificar uma tal apreciação; sem dúvida que Saint-Yves tivera fortes razões para a não publicação dessa obra, escrita desde há muito, mas nunca completamente acabada. Nunca anteriormente ninguém se referira na Europa a Agartha e ao seu chefe Brahmatma, com exceção de Louis Jacolliot[[Os Filhos de Deus, pp. 236, 263-267, 272; O Espiritismo no Mundo, pp. 27-28.]], escritor que não nos merece crédito nem autoridade; este ouvira, de fato, referências a Agartha durante a sua estadia na Índia, mas tal como em relação a tudo o resto, interpretou-as à sua maneira eminentemente fantasista. Em 1924, porém, produziu-se um fato novo e algo inesperado; a publicação do livro, Animais, Homens e Deuses, no qual Ferdinand Ossendowski relata as peripécias da sua movimentada viagem, entre 1920 e 1921, através da Ásia Central, relatos que, sobretudo na parte final do livro, nos surgem quase idênticos aos de Saint-Yves; a polêmica gerada à volta deste livro parece-nos ser uma ocasião favorável para romper finalmente o silêncio que se fez em torno de Agartha. Como se previa, alguns espíritos céticos ou mal intencionados não deixaram de acusar Ossendowski de ter pura e simplesmente plagiado Saint-Yves, realçando em apoio desta tese, todas as passagens concordantes das duas obras; efetivamente, um bom número delas apresenta uma similitude espantosa que vai até ao pormenor; em primeiro lugar, a que poderá parecer a mais inverossímil das afirmações contidas no livro de Saint-Yves: a existência de um mundo subterrâneo com ramificações por toda a parte, sob os continentes e oceanos, pelas quais se estabelecem invisíveis comunicações entre todas as regiões da terra; por seu turno, Ossendowski não assume a autoria desta afirmação, declara mesmo não saber o que pensar acerca dela e atribuía-a a vários personagens encontrados no decurso da sua viagem; Depois, já sob aspectos mais particulares, a passagem em que o “Rei do Mundo” é representado diante do túmulo de seu antecessor, a que se refere à ordem dos Boêmios, povo que teria vivido outrora em Agartha[[A existência de povos em “tribulação”, de que os Boêmios são um dos exemplos mais claros, é, sem dúvida, qualquer coisa de muito misterioso, a exigir cuidada análise.]] e ainda muitas outras mais. Saint-Yves afirma que existem momentos, durante a celebração subterrânea dos Mistérios Cósmicos, em que os viajantes que se encontram no deserto se detêm, em que até os próprios animais permanecem silenciosos[[O dr. Arturo Reghini fez-nos ver que este fato poderia ter qualquer coisa a ver com o timor panicus dos antigos, hipótese que nos parece extremamente plausível.]]. Por seu turno, Ossendowski assegura ter ele próprio assistido a um desses momentos de recolhimento geral. E como exemplo de coincidência estranha, refira-se à história de uma ilha, já desaparecida, habitada por homens e animais extraordinários: Saint-Yves cita o périplo de Iambule Diodoro de Sicília, enquanto Ossendowski relata a viagem de um antigo budista do Nepal; porém as suas descrições em pouco se diferenciam; se se podem dar desta história duas versões provenientes de fontes tão estranhas uma à outra, seria interessante encontrar essas fontes e compará-las atentamente.
Assinalados estes paralelismos, diremos, todavia, que pouco ou nada nos convencem da realidade do plágio; aliás, a nossa intenção não é de entrar aqui numa discussão que no fundo só muito relativamente nos interessa. Para lá dos testemunhos fornecidos por Ossendowski, temos conhecimento, através de outras fontes, de que descrições como as referidas são correntes na Mongólia e em toda a Ásia Central e de que existem, nas tradições de quase todos os povos, outras que se lhes assemelham. E, se Ossendowski tivesse plagiado em parte a obra de Saint-Yves, não vemos porque é que, nesse caso, teria omitido certas passagens, nem porque teria alterado a forma de certos vocábulos, por exemplo, Agarthi em vez de Agartha, o que, doutro modo, é explicável por Ossendowski ter recolhido de fonte mongol as informações que Saint-Yves obtivera de fonte hindu (sabe-se que este teve, pelo menos, contatos com dois hindus)[[Os adversários de M. Ossendowski pretenderam fazer acreditar que este tivera antecipadamente conhecimento de uma tradição russa do livro Missão da Índia, tradução cuja existência é mais que problemática, pois até os próprios herdeiros de Saint-Yves a desconhecem. – Ossendowski foi também criticado por escrever Om quando Saint-Yves escreveu Aum; se Aum é, de fato, a representação do monossílabo sagrado decomposto nos seus elementos constitutivos, é, contudo, Om a transcrição correta tal como é pronunciado na Índia, Tibete e Mongólia; este preciosismo parece-nos provar bem a (in)competência de certas críticas.]]; também não compreendemos porque teria usado, para designar o chefe da hierarquia iniciática, o título de “Rei do Mundo”, o qual não figura na obra de Saint-Yves. Mas se são de admitir certos empréstimos, também há que reconhecer que Ossendowski descreve por vezes coisas sem equivalente em Missão da Índia, que são justamente aquelas que, fora de dúvida, não inventou na íntegra, tanto mais que, mais preocupado com a política do que com ideias e doutrinas, ignorando tudo o que se aproxima do esoterismo, se revelou manifestamente incapaz de lhes perceber o alcance exato. Tal é o caso, por exemplo, da história de uma “pedra negra” enviada noutros tempos pelo “Rei do Mundo” ao Dalai-Lama, depois transportada para Urga, na Mongólia e desaparecida há cerca de cem anos[[Ossendowski, que não sabe tratar-se de um aerólito, procura explicar certos fenômenos, como a aparição de caracteres na sua superfície, supondo tratar-se de uma espécie de ardósia.]]; as “pedras negras” desempenham um papel importante em numerosas tradições, desde a que era o símbolo de Cibele até à que está guardado na Caaba de Meca[[Refira-se analogamente o lapsit exillis, pedra tombada do céu e sobre a qual, em determinadas circunstâncias, apareciam igualmente inscrições: esta pedra, segundo Wolfram d’Eschenbach, identifica-se com o Graal. O que torna o fato mais singular é que, segundo este mesmo autor, o Graal teria sido por fim levado para o “Reino do Prestes João” que alguns pretenderam situar na Mongólia, embora não se trate aqui de uma literal localização geográfica. (Ver RGED, ed. 1957, pp. 35-36, e mais adiante, neste livro).]]. Ainda um outro exemplo: o Bogdo-khan ou o Buda vivo, que se encontra em Urga, guarda, entre outras coisas preciosas, o anel de Gengis-Khan, no qual existe gravada uma suástica e uma placa de cobre com o selo do “Rei do Mundo”. Segundo nos consta, Ossendowski apenas pôde ver o primeiro destes dois objetos, mas ter-lhe-ia sido difícil inventar a existência do segundo: não lhe terá vindo muito naturalmente ao espírito a ideia de referir-se aqui a uma placa de ouro?
Estas são algumas observações preliminares que nos parecem suficientes para o que nos propomos, na medida em que entendemos permanecer absolutamente alheios a toda e qualquer polêmica ou questão de pessoas; se citamos Ossendowski e mesmo Saint-Yves, é unicamente porque o que escreveram pode servir como ponto de partida para considerações que nada têm a ver com o que possamos pensar de um e de outro, e cujo alcance os ultrapassa tal como a nós que, neste domínio, não devemos levar vantagem. Não queremos, a propósito dos seus livros, fazer uma “crítica de textos” mais ou menos inútil, mas fornecer indicações ainda não transmitidas, tanto quanto o podemos saber, indicações suscetíveis de ajudar, em certa medida, a esclarecer aquilo a que Ossendowski chama o “mistério dos mistérios”[[Muito nos surpreendeu, recentemente, saber que certas pessoas tinham pretendido fazer deste livro um “testemunho” em favor de um personagem cuja própria existência ignorávamos na época em que o escrevemos; opomos o mais veemente desmentido a toda a asserção deste tipo, venha ela de onde vier, já que o entendemos apenas como uma exposição de dados que, pertencendo ao simbolismo tradicional, absolutamente nada têm a ver com qualquer tipo de “personificações”.]].