(Zolla2020)
O homem percebe com os sentidos aparências contingentes, limitadas pelo espaço e alteradas pelo tempo; e enquanto pela razão as classifica segundo as hipóteses gerais que melhor as enquadrem, de modo a poder usá-las tecnicamente, com a alma ou psique sente atração ou repulsa por essas mesmas contingências.
O corpo, a razão e a alma ou psique são as únicas partes ou funções que o homem geralmente reconhece: entre o sentimento e a ciência ele oscila, quando não reduz sua existência às sensações do corpo. A essas três partes ele presta até mesmo três cultos respectivos: o materialismo, o cientificismo ou racionalismo, que projeta à sua frente sua sombra – a utopia do homem-máquina – e, finalmente, o irracionalismo ou sentimentalismo. O ouvido, naturalmente, sente tanta aversão por essas terminações depreciativas em série quanto o espírito deveria sentir pelas coisas que elas designam. O homem comumente vive nessa prisão triangular, onde os manipuladores dos três cultos condicionam tão rigorosamente seus reflexos que sua interioridade se transforma em uma réplica fiel desse triângulo carcerário. Mas essa reprodução interna do ambiente circundante não é inteiramente precisa, pois ele não raro mostra desconforto e até mesmo angústia, e nem o bem-estar material, nem a perícia técnica, nem a satisfação sentimental que lhe são sugeridos como paraísos parecem torná-lo feliz; é como se ele sentisse saudades de algo diferente e distante. Contudo, se ele demonstrasse tal sentimento, logo lhe seriam apresentadas novamente, em formas diferentes, esses mesmos três bens insuficientes ou ilusórios; talvez como um talismã, uma ideologia lhe fosse oferecida, isto é, juntamente a algum sentimentalismo social declamatório, um racionalismo simulado. Por outro lado, ele seria incapaz de conceber uma religião que não fosse uma fantasia com intenções humanitárias e, se uma Margarida o questionasse sobre sua fé, ele responderia, como Fausto, que acredita em um Deus enquanto vaga imagem do universo, para o qual ele não tem um nome: senti-lo é tudo. Raramente ele consegue reconhecer na filosofia algo além de um apêndice da ciência, e na arte, algo além de uma sensação mais ou menos rara.
De tempos em tempos, ele se dá conta de que está vagando entre os três muros de uma cela, fechada toda saída para a liberdade, e ousa então perguntar a que serve adorar a ciência; responde-se que ela promove novas técnicas, oferecendo satisfações sensoriais e até mesmo sensacionais a todas as necessidades. Mas ele percebe que as necessidades, sejam elas corporais ou psíquicas, nem mesmo possuem um valor absoluto, revelando-se, ao contrário, mutáveis, ambíguas e, por fim, desoladoras quanto mais são veneradas, e ele exclamará, com Fausto (v. 3348):
Não sou, então, tornado o fugitivo, o sem-casa?
O não-humano que, sem objetivo nem descanso,
como uma cascata que despenca de rocha em rocha,
enfureceu-se avidamente rumo ao abismo.
Ou talvez ele não consiga responder com tanta clareza; talvez já há muito tempo se tenha encerrado em uma espécie de estupor sonhador, como é o destino de quem não possui propósito em um mundo sem origem e sem fim. Mas mesmo que ele chegue a entender qual desolação recai sobre ele, caso persista em venerar o corpo e adorar a razão científica, em vez de romper o triângulo, ele se entregará a declarações sobre os “valores” sentimentais, como esperança, otimismo, filantropia indistinta ou alguma imprecisa utopia.
Quem, afinal, escapa dessa angustiante prisão triangular infernal? Quem admite que os três lados não definem o homem inteiro, mas apenas o atrofiado; que entre essas três paredes não só não prevalece a paz, como tampouco se concebem propósitos que a prometam? De que serve viver, afinal? Para produzir e consumir bens materiais ou, como se costuma dizer, culturais, isto é, metade sentimentais e metade científicos? E qual seria, em tal estreiteza, o modelo de perfeição humana? Aquele que produz bens científicos e consome bens sentimentais e políticos? Tal é a oleografia moralista tantas vezes inculcada. Ou será perfeito aquele que, sem produzir, consome montanhas de mercadorias, como sugere o sonho sentimental fabricado pela máquina publicitária, repleto de Narcisos atônitos entre mercadorias, como antigos santos extasiados entre anjos?
É muito provável que o homem, reduzido a preencher os cinco sentidos com fantasias pré-fabricadas e a razão com informações sem discriminação ou fim, acabará por buscar conselho e ajuda de algum psicólogo. E este, a qual modelo tentará conformá-lo? A qual não frase sobre o homem, mas ideia exata do homem?
Qual propósito poderiam jamais ter a sensibilidade, a técnica e o sentimento?