Outrora, meus monges, eu residia em Uruvela, sobre a margem de Neranjara, sob o Banyan dos Cabreiros; foi logo depois de ter alcançado o grande Despertar; meditando na solidão, pensava: “É um mal viver sem respeitar nem obedecer. Que eremita, que brâmane existe junto do qual eu poderia viver rendendo-lhe homenagem e respeito? Visando tornar perfeita a soma total dos hábitos morais, da contemplação, da sabedoria, da liberdade ainda não perfeita, eu quereria viver junto de um outro eremita ou brâmane rendendo-lhe homenagem e respeito. Mas no mundo com seus Devas – devas, Maras, Brahman – Brahmans, em toda a raça — eremitas, brâmanes, Devas – devas ou homens — não vejo nenhum outro eremita ou brâmane mais perfeito nestes ramos do estudo que não o seja eu mesmo, e junto do qual, por esta razão, poderia viver rendendo-lhe homenagem e respeito.
Então pensei: “Este dhamma no qual recebi o despertar total, se eu vivesse junto deste dhamma rendendo-lhe homenagem e respeito?” Sobre isto, meus monges, Brahma Sahampati, tendo desaparecido do mundo de Brahma, se apresentou diante de mim e disse: “É bem assim, ó Altíssimo! É bem assim, bom viajante! Os que outrora foram Perfeitos, totalmente despertos, estes Altíssimos, eles também, só viveram junto do dhamma, honrando-o e respeitando-o. Os Altíssimos que virão no futuro farão o mesmo. Que o Altíssimo, senhor, que é agora um Perfeito, um totalmente Desperto, só viva junto, do dhamma, honrando-o e respeitando-o.”
E Brahma Sahampati acrescentou ainda isto:
Os Budas perfeitos que se foram
os Budas perfeitos que virão
O Buda perfeito do presente
e que para numerosos seres baniu o sofrimento,
todos viveram honrando o verdadeiro dhamma,
vivem e viverão: Tal é o seu Caminho.
Assim aquele a quem o Eu é precioso
e que deseja ardentemente o Grande Eu,
deve prestar homenagem ao dhamma
lembrando-se da palavra de Buda
[Anguttara Nikaya, II, 20-21, cf. S. I, 138.]
Quando estais reunidos, ó monges, de duas coisas uma podeis fazer: seja falar do dhamma, ou guardar o silêncio ariano. Estas, monges, são as duas buscas: a busca ariana e a busca não-ariana. Em que consiste a busca não-ariana?
Tomai o caso de um homem que, sujeito ao nascimento, devido ao eu, busca o que é igualmente sujeito ao nascimento: uma mulher e filhos, escravos de ambos os sexos, ovelhas, cabras, galos e porcos, elefantes, gado, cavalos e éguas, ouro e prata; e que, sujeito à velhice, ao declínio, à morte, à dor, à impureza, sempre devido ao eu, busca o que está igualmente sujeito a estes estados (enumeração como esta acima, exceto o ouro e a prata que são omitidos dos casos de declínio, de morte, e de dor). Eis aí a busca não-ariana.
E qual é, então, a busca ariana? Neste caso um homem sujeito ao nascimento devido ao eu, mas tendo percebido o perigo no que é igualmente sujeito ao nascimento, busca o não-nascido, a mais absoluta segurança contra a escravidão[[Yogakkhema: geralmente é a imunidade contra os dados fornecidos pelos seis sentidos (o intelecto é o sexto sentido); literalmente: repouso, cessação de aplicação”; é antes uma “recompensa do trabalho” do que a prática do domínio dos sentidos.]], o Nirvana. Um homem, sujeito à velhice devido ao eu.. . busca o que não envelhece, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o Nirvana. Um homem, sujeito à dor devido ao eu… busca o que não conhece a dor, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o Nirvana. Um homem sujeito à impureza devido ao eu, tendo visto o perigo no que é igualmente sujeito à impureza, busca o imaculado, a mais absoluta segurança contra a escravidão, o Nirvana. Eis aí a busca ariana.
Eu também, monges, antes do meu total despertar, quando era ainda bodhisattva, não totalmente desperto, e pelo fato de que estava sujeito ao nascimento devido ao eu, buscava o que estava igualmente sujeito ao nascimento, etc. Veio-ME esta ideia: “Por que, sujeito ao nascimento devido ao eu, busco o que é igualmente sujeito ao nascimento?… etc. Se (sendo) sujeito ao nascimento devido ao eu, tendo percebido o perigo no que é igualmente sujeito ao nascimento, buscasse o não-nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana? E se, sujeito à velhice, à morte, à dor, à impureza devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito a estes estados, eu buscasse o que é sem velhice, sem morte, sem dor, sem mácula, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana?
Então abandonei meu lar para viver sem lar, em busca do que é bom, buscando a incomparável vereda da paz. Eu ME dirigi primeiro para junto de Alara Kalama, depois para Uddaka Ramaputta; mas do dhamma e da disciplina destes dois (mestres) compreendi o seguinte: este dhamma não conduz à indiferença, à impassibilidade, à cessação, à tranquilidade, ao conhecimento superior, ao despertar, ao Nirvana, mas somente com Alara, até o plano de aniquilamento do eu; com Uddaka, até o plano de nem percepção nem não percepção. Então, buscando o que é bom, buscando a incomparável vereda da paz, e percorrendo a pé o Magadha, terminei por chegar a Uruvela, a Povoação do Campo. Ali vi uma deliciosa extensão de terreno plano, um bosque encantador, um rio que corria com águas bem claras; não muito ao longe havia uma aldeia onde era possível viver[[Onde poderia mendigar seu alimento.]]. Pensei: a um jovem que está resolvido a fazer esforços, que mais necessitaria para seus esforços? Sentei-ME, pois, ali, achando o local conveniente para meus esforços. Então, ó monges, sujeito ao nascimento devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito ao nascimento, e procurando o não-nascido, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana, encontrei meu caminho até o não-nascido, até a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana;. . . procurando o que não envelhece… o que não morre. . . o que é sem dor. . . encontrei meu caminho até o que não conhece nem velhice, nem morte, nem dor. Então, sujeito à impureza devido ao eu, tendo percebido o perigo no que está igualmente sujeito à impureza, buscando o imaculado, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana, consegui o imaculado, a segurança absoluta contra a escravidão, o Nirvana. Conhecimento e visão surgiram em mim: inabalável é minha liberdade, este meu último nascimento, não mais existe novo porvir. [Majjhima Nikaya I, 161-167.]
Os que dizem, ó Vaccha: “o eremita Gotama é omnisciente, tudo vê; ele tem a pretensão de um conhecimento e de uma visão que tudo abarcam; ele pensa: “Caminhando ou imóvel, adormecido ou desperto, eu disponho contínua e perpetuamente do conhecimento e da visão”: esses não falam de mim com exatidão; eles ME descrevem mal, em traços que são falsos e não de acordo com os fatos.
Se tu dissesses, ó Vaccha: “o eremita Gotama é um homem de triplo conhecimento”, explicando-ME assim tu falarias com exatidão, não ME descreverías em traços não de acordo com os fatos; tu ME explicarias de conformidade com o dhamma, e um confrade em religião não teria lugar de fazer uma exposição sectária para o refutar. Pois, Vaccha, eu ME lembro de muitas moradas anteriores tão longe quanto quero no passado, isto é, de um nascimento ao precedente, com todos os seus detalhes e todos seus traços. Depois, Vaccha, eu vejo com a visão purificada dos devas, que supera a dos homens, criaturas morrendo [aqui] e surgindo [alhures]. Enfim, Vaccha, pela destruição dos fluxos [asava], tendo realizado neste mundo e desde agora, graças a meu próprio conhecimento superior, a liberdade do coração e a liberdade do espirito que são sem fluxos, é nesta liberdade que permaneço [[A noção destes três “conhecimentos” se encontra mais desenvolvida alhures.]]. [Digha-Nikaya III, 28]
Do começo das coisas, em última análise, êu tenho a presciência, ó Bhaggava; tenho a presciencia daquilo e de mais do que aquilo. Tendo esta presciência, a ela não concedo importância. Não lhe concedendo importância, conheço subjetivamente esta calma que é tal que, [77] conhecendo-a intuitivamente, o Descobridor da Verdade não cai em nenhum erro. [Digha-Nikaya III, 28.]
“ A Roda que eu pus em movimento, diz o Senhor,
a roda do dhamma, ó Sela, sem igual,
é Sariputta que continua a fazê-la girar.
É éle o herdeiro nascido ao Assim-vindo [[Tathagata que em outro lugar traduzimos também por “Descobridor da Verdade”.]]
Todas as coisas próprias a ser conhecidas, são por mim conhecidas,
próprias a ser abandonadas, são por mim abandonadas,
Assim estou eu desperto, ó brâname! ·
Dissipa tuas dúvidas a meu respeito, inclina teu coração.
É de longe em longe, bem raramente, que se vêem os Despertos.
Destes homens raros, raramente vistos no mundo,
eu sou um; médico sem igual,
plenamente desperto, ó brâmane, tornado
tal como Brahma, superior a toda comparação.
Todos os inimigos foram abatidos,
esmagadas as hostes de Mara, e sem medo eu ME regozijo [[Tradução inglesa por E. M. Haré, Woven Cadenees. Trata-se ainda em outra parte da questão de Sariputta fazendo girar a roda do dhamma.]]. [Suttanipata 557-561.]Minha idade está agora madura, minha vida chega a seu término; eu vos deixo, eu ME vou; é ao Eu que tomei por refúgio. [Digha-Nikaya II, 120.]
O brâmane Dona aborda o Mestre e lhe pergunta:
— O venerável deseja tornar-se deva?
— Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-ME deva.
— O venerável deseja tornar-se gandharva?
— Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-ME gandharva.
— Yakkha, talvez?
— Não, em verdade, brâmane, também não yakkha.
— O Venerável deseja tornar-se um ser humano?
— Não, em verdade, brâmane, não desejo tornar-ME um ser humano.
— Quem, por gosto, deseja tornar-se o Venerável?
— Brâmane, estes fluxos que, se não fossem abandonados, far-ME-iam tornar deva, estes fluxos em mim estão abandonados, extirpados na raiz, tornados iguais a um cepo de palmeira, inexistentes, não suscetíveis de reaparecer no futuro. Estes fluxos que, se não fossem abandonados, far-ME-iam tornar gandharva, yakkha, ou ser humano.. . todos esses fluxos em mim estão abandonados. . . não suscetíveis de surgirem no futuro. Da mesma maneira, ó brâmanes, que um loto, azul, vermelho ou branco, se bem que nascido na água, se ergue quando atinge a superfície acima dela, sem ser maculado pela água, também, ó brâmane, embora nascido no mundo, embora tendo crescido no mundo, eu vencí o mundo e permaneço não maculado pelo mundo. Reconhece, ó brâmane, que eu estou desperto [[Budiha, como na passagem precedente do Suttanipata. Ou, se se deseja “o Desperto por excelência”.]]”.
Os fluxos pelos quais poderíam nascer
um deva, um genio do ar
um gandharva; ou pelos quais eu mesmo
poderia atingir o estado de yakkha,
ou bem ir nascer no seio de uma mulher:
estes fluxos agora estão por mim
aniquilados, destruidos, extirpados.Como um loto, puro, admirável,
pelas aguas não é contaminado,
eu não sou contaminado pelo mundo,
é por isso, bramanes, que eu estou desperto [[Seguimos F. L. Woodward, GS. II, 44-45, mas traduzimos asava pelos ‘‘fluxos” o budha por “despeito”.]] [Anguttara – Nikaya n, 38-39.]
Depois de ter ensinado, despertado, incitado e reconfortado a assembleia falando-lhe do dhamrna, entrei no estado de fogo [[Tejadhatu samapajjitva. Tejas é o calor, o fogo, ou a energia ardente. Esta passagem parece provir de alguma lenda apresentando Buda como uma coluna de fogo.]], e ME elevei acima do solo à altura de sete palmeiras; após ter produzido uma chama que ardia e fumegava à altura de sete outras palmeiras, eu tornei a descer à sala dos Pinhões no Grande Bosque. [Digha-Nikaya III, 27.]