Criação

(DRG)

A Cruz, pela universalidade do seu símbolo, não poderia deixar de ser objecto de um estudo preciso por parte de René Guénon que, na sua abordagem, quis em princípio alargar o campo do seu olhar ao maior e mais amplo conjunto da Tradição universal. Ora, este estudo não só foi em grande parte realizado por Guénon, como testemunha inegavelmente toda a sua obra, mas, ainda mais no que diz respeito ao tema da Cruz, foi levado a um grau de precisão raramente alcançado na história do simbolismo, um grau também de investigação e sobretudo de extraordinária e vertiginosa profundidade metafísica, a tal ponto que chegou a dedicar a esta questão uma das suas obras mais famosas, uma obra com o significativo título: “Simbolismo da Cruz”.

Diante da riqueza e da densidade doutrinária deste texto, seria difícil pretender resumir uma obra que ocupa tal lugar na perspectiva guenoniana. Poderíamos afirmar, sem medo de nos enganarmos, que ela condensa em si a contribuição teórica do pensamento de René Guénon, pensamento que ele já havia formulado de forma brilhante e explícita em seus escritos anteriores, e que se apresenta na forma de uma segunda parte, parte que pode ser descrita como uma dobradiça, de um tríptico composto por sua primeira e terceira partes de: “O homem e seu devir segundo a Vêdânta” e “Estados Múltiplos do Ser”.

Este livro, poderíamos dizer, é sem dúvida o melhor exemplo de uma compreensão profunda do símbolo da Cruz, entre a já rica literatura disponível sobre este assunto. Digamos, porém, que se quisermos reter os principais elementos do argumento de Guénon, que a Cruz, longe de ser um símbolo exclusivamente cristão, como muitos erradamente imaginam, é um símbolo de totalização espacial, é portanto oportuno restituir-lhe toda a sua dimensão real, sem a fazer perder o seu significado literal ou histórico, significado que obviamente lhe pertence no cristianismo. Além disso, longe de querer desenvolver todos os múltiplos significados do símbolo da Cruz, Guénon indica que tem essencialmente em mente o significado metafísico, o primeiro e mais importante de todos, pois é, segundo a sua expressão: o significado principal.

Em primeiro lugar, Guénon observa que o sinal da Cruz está diretamente ligado à Tradição primordial, através da verticalidade e da horizontalidade, representando o “duplo desenvolvimento”, desde a extensão da realização da abertura de base ao desenvolvimento indefinido das possibilidades de manifestação, às reafirmações verticais da estrutura hierárquica de múltiplos estados, extensão e reafirmação unidas num único símbolo, síntese total do “Homem Universal”. Esta referência ao “Homem Universal”, exaltado no sinal da Cruz, que o Islão identifica com o Profeta, permite a Guénon notar uma reflexão que lhe foi transmitida e que lhe causou uma forte impressão, uma reflexão que dizia em substância isto: “Se os cristãos têm o sinal da Cruz, os muçulmanos têm a doutrina dela”.

O sinal da Cruz, que portanto sintetiza a magnitude através da horizontalidade e a exaltação através da verticalidade, é uma representação da totalização efetiva do ser que é idêntica ao que os hindus chamam de “Libertação” (moksha) ou Islã “Identidade Suprema”. Guénon não se detém, no entanto, no conhecimento dos dados teóricos relativos ao símbolo da Cruz, mas examina o significado que é possível extrair da espacialidade do signo, espacialidade vista tanto na ordem da existência, da qual a Cruz horizontal (sendo a Suástica o exemplo mais conhecido) manifesta o desenvolvimento, como na ordem de totalização representada pela Cruz vertical. A Cruz, que pode portanto ser considerada o sinal da maior Possibilidade, é, através do seu Centro, também o sinal da conciliação onde todas as oposições são resolvidas. Este Ponto central especifica Guénon, que o Islam chama de “Estação Divina”, é alcançado por El-fanâ (a extinção do eu, o retorno ao estado primordial), que pode ser comparado ao Nirvâna indiano. Sobre esta questão, Guénon aponta que além de El-fanâ existe Fanâ el-fanâi, a extinção da extinção, que corresponde paralelamente ao Parrinirvâna na Índia. O Centro da Cruz, portanto, Centro imóvel, Vazio e Princípio segundo Lao-Tseu, é também o Ponto por onde passa e se estabelece firmemente o “Eixo”, a Árvore da Vida (lignum vitae), que foi simbolicamente identificado na Idade Média com a Cruz de Cristo.

Guénon também não deixa de salientar que os egípcios, nos hieróglifos, utilizavam o sinal ordinário da Cruz no sentido de “salvação”, sinal distinto da famosa Cruz “ansée” (ankh) que significa “vida”, e que os próprios cristãos fizeram uso frequente nos primeiros séculos.

A Cruz é, como acabamos de ver, um símbolo universal por excelência; símbolo da Unidade, é também o testemunho da profundidade metafísica do Um, do Ser em si, para além das distinções limitantes da Manifestação, do Ser total, do Verbo “per quem omni facata sunt”, a união do Céu e da Terra, plenitude perfeita.

(“RGSC”, cap. I, “A multiplicidade dos estados de ser”, cap. II, “O Homem Universal”, cap. IV, “As direções do espaço”, cap. VI, “A união dos complementos”, cap. VII, “A resolução das oposições”, cap. VIII, “Guerra e paz”, cap. do yin-yang; equivalência metafísica do nascimento e da morte”, cap. XXIII, “A influência da Vontade do Céu”., cap. XXIV, “O Raio Celestial e seu plano de reflexão”, cap. XXV, “A árvore e a serpente”, cap. “. cap. XXIII, “Significado do eixo vertical; cap. XXIX, “O centro e a circunferência”, cap. XXX, “Observações finais sobre os símbolos fundamentais da ciência sagrada”, cap. XLV, “El-Arkân”.)

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