Morte

(Perry1991)

“Toda mudança de estado, sem exceção, é simultaneamente uma morte e um nascimento, conforme o aspecto pelo qual é considerada: morte em relação ao estado anterior, nascimento em relação ao estado subsequente. A iniciação é geralmente descrita como um ‘segundo nascimento’, o que de fato ela é; mas este ‘segundo nascimento’ necessariamente implica a morte para o mundo profano” (Guénon: Aperçus sur l’Initiation, pp. 182-183), e por consequência deve implicar em última instância o término ou fruição de uma iniciação que se tornou plenamente efetiva, plenamente realizada. Pois a morte em questão — como mostrarão as passagens seguintes — é algo completamente diferente de meras formalidades verbais. Guénon acrescenta no mesmo parágrafo que ‘toda mudança de estado deve ser considerada como ocorrendo nas trevas’. Esta é a ‘noite escura’ que deve ser atravessada, a ‘separação entre alma e espírito’ que deve ser realizada, ainda nesta vida, por aquele que se torna o que Rûmî chama de ‘um morto que caminha’.

Pois é certo que não se pode viver na realidade até que se tenha morrido para a ilusão, que ‘Meu reino não é deste mundo’, que ‘a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus’, e que ‘a amizade do mundo é inimizade com Deus’. ‘Há no homem algo que deve morrer ou ser destruído: é a alma como desejo, cujo ponto terminal é o corpo sensorial’ (Schuon: L’Oeil du Coeur, p. 209). Similarmente Hermes: ‘A causa da morte é o desejo carnal’ (Lib. I. 18). Como diz o Buda: ‘Pela luxúria as criaturas caem na angústia: são atormentadas nos seis estados de existência e povoam o cemitério repetidamente’ (Saddharma-pundarika, II. 63). Não há como escapar da morte: ou os desejos são mortificados, ou eles entregarão o homem ao reino da morte.

‘Só fazendo degraus de nossos eus mortos, até percebermos finalmente que literalmente não há nada com que possamos identificar nosso Eu, é que podemos nos tornar o que somos’ (Coomaraswamy: Hinduism and Buddhism, p. 63). ‘Bem-aventurado o homem em cujo túmulo se pode escrever: Hic jacet nemo [Aqui jaz ninguém]’ (id., p. 30).

Se alguns textos deste capítulo parecem implacavelmente severos, o mesmo tema será encontrado tratado ainda mais inexoravelmente, se possível, em certas passagens do LIVRO TRÊS, onde se trata da extinção universal. Mas ‘o Eu não está ao alcance dos fracos’ (Alain Daniélou: Yoga, p. 17). ‘O fio de uma navalha afiada, difícil de atravessar. Difícil é este caminho — declaram os sábios!’ (Kaṭha Upanishad, III. 14). ‘Agora para todos nós está no fio da navalha, ou a ruína lamentável… ou a vida’ (Ilíada, Livro X). ‘Um caminho estreito entre o abismo sem fundo do Inferno, fino e afiado como uma lâmina de espada’ (Shabistarî: Gulshan-i-Râz; Lederer, p. 66). ‘Antes de alcançar esta estação (da iluminação), quantas árvores espinhosas e gumes de espada!’ (Jîlî: Al-Insân al-Kâmil: Burckhardt, p. 38). Sobre o ‘Caminho Direto’ tibetano, Marco Pallis escreve: ‘Não é para corações tímidos pensar em enfrentar seus perigos’ (Peaks and Lamas, p. 144). ‘Pessoas tímidas são absolutamente inaptas para a vida espiritual’ (Swami Sivananda: Yogic Exercises, p. 97). O esoterismo islâmico define um sufi como ‘aquele que pode caminhar segurando brasas na mão’. Segundo William Law, ‘Não há segurança na religião, exceto em um curso de comportamento que não deixe nada para a natureza corrupta se alimentar ou viver; o que só pode ser feito quando cada grau de perfeição que almejamos é um grau de morte para as paixões do homem natural’ (Hobhouse, p. 20).

Uma santa indiana foi perguntada quando se poderia ter certeza de segurança no caminho espiritual; ela enviou como resposta um pequeno prato de cinzas.

E ainda não se deve esquecer que a morte aqui representada é aquela ‘morte feliz’ da qual São José, como protótipo do mestre espiritual, é o patrono, pois esta morte está no limiar da verdadeira vida, da imortalidade e da beatitude infinita. ‘Não é um morrer, mas uma… transmutação’ (Boehme: Sig. Rerum, XI. 35). Para o possuidor do Eu, a morte nada mais é do que o abandono da agitação e a perfeição da serenidade.