(Zolla2016)
A oposição entre razão e irracionalidade manifesta-se de diversas formas, assumindo versões distintas em cada época.
Nossa concepção de irracionalidade tem origem na Grécia Antiga, onde álogon significava, em primeiro lugar, “privado de discurso” (logos): o inefável, aquilo que contraria o cálculo e a expectativa, o inverossímil. Em Xenofonte e Plutarco, assim como em Platão e Aristótese, o termo passou a denotar o que é desprovido de razão e fundamento — a demência e o absurdo, que em latim designa o dissonante e o desprovido de bom gosto.
Foi chamado de álogon ou “anormal” o ritmo pirrico (˘˘) do pulso do recém-nascido, que bate antes de se regularizar em spondeu ou troqueu.
Na matemática, denominou-se álogon a relação entre duas grandezas incomensuráveis, cuja medida comum não pode ser expressa por um número inteiro ou fracionário, mas apenas por uma série infinita de frações. A descoberta do número irracional foi considerada um desastre para a teoria pitagórica, baseada no número como expressão da verdade. Assim, ele tornou-se o emblema da irracionalidade em geral e ressurge na filosofia moderna com Os Desvarios do Jovem Törless, de Musil.
Quanto ao logos — palavra e razão —, derivando de léghein (“recolher”), denota o que é reunido e organizado: o discurso coerente, a palavra sensata, o dito memorável, o oráculo, a origem, a investigação. No mundo antigo, o termo alcança seu ápice em Filon de Alexandria, designando o plano da criação universal, o supremo poder divino, a ideia das ideias e, por fim, a intuição intelectual que o apreende e com ele se identifica, elevando-se acima do pensamento. Essa oscilação de sentidos torna enigmático o prólogo do Evangelho de João — a menos que se leia logos como tradução do aramaico mem’ra Adonai: “palavra do Senhor” ou Torá. Com base no Crátilo (407e), pode-se imaginar como soava aos ouvidos gregos: logos é um hábil intérprete, um sábio engenhoso, ou ainda um mercador, um ladrão, um mensageiro — Hermes criança-e-ancião, ou a alma que, segundo Estobeu, Deus enviou ao mundo para ensinar os mistérios.
Léghein remonta à raiz leg-, que em latim gera tanto a reunião de soldados (legio) quanto o que é bem selecionado (elegans). Logos é o que ordena, reúne e compreende, distinto do saber como epistēmē (o “posicionar-se acima” do que se conhece, assimilando-o) e do conhecimento como diánoia (derivado de noéō, “pensar”, “ver”).
Em latim, logos poderia ser traduzido por comprehensio (de prehendere, “agarrar”, “apossar-se”). Em Cícero, prehendere gubernacula significa assumir o governo; no século IV, o verbo passou a significar o enraizamento de uma planta. O álogon grego poderia ser traduzido como insania — loucura e furor. Irrationabilitas aparece em Apuleio, e o advérbio irrationabiliter em Tertuliano, denotando irracionalidade e insensatez, o oposto de ratio (derivado de rērī, “contar”, do indo-europeu rē, “numerar”, ou rēdh, “preparar”, “refletir”). Em sânscrito, essa raiz gera rādhnōti (“fazer justiça”, “conseguir”, “pacificar”, “persuadir”) e rāddhanta (“fim predestinado”, “doutrina”, “verdade”). A esse complexo semântico associa-se também a ideia de decoração, ornamento.
Das raízes indo-europeias rē e rēidh vêm o latim ōrdo (“ordem”) e ōrdior (“começar a tecer”), bem como exōrdior (o início de uma tessitura). Essa conexão reflete uma concepção arcaica da tecelagem como sortilégio, urdido pelo entrelaçar dos fios no tear. Margarete Riemschneider [“Conhecimento Religioso”, 1983] examinou a proliferação de teares nas representações camunianas, interpretando-as à luz da Saga de Njáll, onde se menciona o uso do tear para lançar maldições e presságios: “Estende-se larga / para [causar] a morte em batalha / a nuvem do tear [o tecido]”.
Na magia, a lançadeira funciona como uma flecha. Os fios coloridos entrelaçam-se para operar feitiços ou prever o destino; o tear é, assim, a máquina pela qual a mulher-feiticeira, ao tecer (em alemão, Weib-weben; em inglês, wife-weave — termos que destacam a afinidade entre mulher e tecelagem), enreda, envolve e ata: ela “corrige” ou “racionaliza” a realidade, no sentido que “racionalidade” pode ter tido em suas origens. Esse momento, segundo a historiografia de I.M. Diakonov [1995], situa-se nas duas primeiras fases da história.
Essa hipótese é reforçada pelo latim exōrdior, pelo sânscrito rādh- (“profetizar”) e pelo nórdico antigo raða (“desembaraçar”, “ordenar”).
A união da urdidura à trama, que gera a concretude, aparece como obra feminina. Um percurso semântico similar ocorre com o grego kosméō (“enfeitar”, “ordenar”, “comandar”), do qual deriva kosmos — tanto “ordem” quanto “ornamento” —, termo que, segundo Plutarco, Pitágoras adotou para designar o “mundo”. Na concepção arcaica, o ornamento não era um acréscimo frívolo, mas um ato mágico, como demonstraram W. Andrae [1933] e A. Coomaraswamy [1939]. O adornado investe poderes em quem o veste; em sânscrito, traduz-se como alaṃkāra (de alam, “suficiente”, e kr, “fazer”). Em latim, ornare inicialmente significou “equipar”, e ainda no século XVI, na Inglaterra, ornament designava o que tornava uma pessoa ou objeto eficiente.
É provável que, em sua origem, a irracionalidade fosse a ação mágica insuficiente, a falta de autoridade — o oposto do sânscrito rāddha: “perfeito em poder mágico”, “misterioso”, “iniciado”.