Eu Sou

DEUS — ALMA — SOU ESTE SOU

VIDE: ipsum esse; eu; atman; ahamkara; ego; tat tvam asi; natureza-própria

Ananda Coomaraswamy

Sería una antinomia aplicarme a mí mismo — a este hombre, Fulano — o a cualquier otro hombre entre otros las palabras, «Eso eres tú», o pensar de mí mismo, le moi, en los términos del «Yo» de estos versos de Swâmi Nirbhyânanda: «Yo soy el pájaro cogido en la red de la ilusión, Yo soy el que inclina la cabeza Y el Uno ante quien él se inclina: Solo Yo existo, no hay ni buscador ni buscado Cuando al fin realicé la Unidad, entonces conocí lo que había sido desconocido, Que Yo había estado siempre en unión con-Tigo». (Ananda Coomaraswamy: Coomaraswamy Metafisica, Coomaraswamy Transmigrante)

André Allard

O «Ser-que-é», o Eheieh asher Eheieh da Sarça Ardente, aquele que a Vulgata traduziu Ego sum qui sum, Guénon garante que o dito Eheieh não é um verbo, mas um nome (Ser) e asher um pronome relativo que desempenha um papel de cópula. Ego sum qui sum traduziria então: «O Ser é o Ser», quer dizer o Ser-que-é, o Ato Puro de Ser, sem qualquer traço de negatividade, de Não-Ser. Assim se aponta a perfeição do Ser, a expressão «Ser-que-é» significando o mesmo que o Existir Divino.

Nenhum pensamento, tão profundo e opiniático que se suponha, não é capaz de abrir o Olho do Coração pelo qual o «Ser-que-é» é visto pela mente como vendo a mente. Todo processo mental se desenrola necessariamente aquém do portal que se deve atravessar para que o reviramento das perspectivas tenha lugar. Quem pensa somente a ilusão universal ainda está na ilusão, quer dizer na ignorância e uma convicção pelo menos o sustenta: a certeza de sua própria existência de sujeito pensante. Cogito, ergo sum: tal é a verdade que, apesar de tudo, permanece para aqueles que, se não viram existencialmente a Verdade absoluta, constataram pelo menos o pouco de realidade do mundo. Mas quando ela é vista, no instante onde se cumpre a extinção existencial radical, a Verdade absoluta é tal que não posso dizer ergo sum, e nem mesmo sum, mas Esse, Ipsum esse; pois o despertar tem por efeito não somente extinguir as coisas sensíveis (sem no entanto abolir sua aparência), mas ainda o «mim mesmo» que pensa estas coisas, de sorte que não há mais, em face do Ipsum esse, senão uma pura irrealidade (coisas e pensamentos de coisas), verdadeiro «resíduo essencial» na textura do qual o mim mesmo com todas suas faculdades, está detido. Encontro-ME então, enquanto sujeito pensante, inteiramente relegado à esfera dos objetos que, na inexistência deles, fazem face ao Sujeito absoluto cujo Existir ressoa em minha mente. E esta «realização» é tal que a mais alta região da alma que, só, emerge da esfera dos objetos, não pode, no horror sagrado, se distinguir do Sujeito absoluto, este Vidente que vejo ME ver. Na medida onde vejo que, criatura individual, estou inteiramente, com minha alma psíquica e com meu corpo, na esfera dos objetos, realizo esta perfeita inexistência que o pensamento cogitativo não pode realizar. Mas, na medida que, no entanto, não posso ME distinguir do Vidente supremo que ME vê e ME deifica, realizo minha identidade com o Existir absoluto, de sorte que, visto sob este ângulo, o despertar e a extinção devem ser descritos como tomada de consciência disto que eternamente sou. (Andre Allard: L’Illumination du coeur)

Joaquim Carreira das Neves

A expressão EU SOU (ego eimi) é típica do Jesus joanico. Trata-se duma expressão de revelação em que o sujeito — Jesus — se autoproclama como AQUELE QUE É, referindo-se a ele mesmo, sem predicado, ou com predicado: “Eu sou o pão da vida” (6, 35. 48); “Eu sou o pão que desceu do céu” (6,41); 6,51: “Eu sou o pão vivo”; 8,12. “Eu sou a luz do mundo”; 8, 23: “Eu sou do Alto”; 8, 24 “…De fato, se não crerdes que Eu sou o que sou, morrereis nos vossos pecados”; 8, 28: “Então ficareis a saber que Eu sou o que sou…”; 10,7: “Eu sou a porta das ovelhas”; 10, 1 l: “Eu sou o bom pastor”; 10,30: “Eu e o Pai somos um”; 11, 25: “Eu sou a ressurreição e a vida”; 14, 6: “Eu sou o caminho e a verdade e a vida”; 15, l: “Eu sou a videira verdadeira”; 18, 5, 6.8: “Sou Eu”.

No AT é o próprio Deus (YHWH) que se manifesta como o EU SOU. A expressão de Ex 3, 14 significa EU SOU O QUE SOU. Na tradução dos LXX (ego eimi ho ôn) significa EU SOU AQUELE QUE É. A tradução grega sublinha a essência do ser de Deus ou a sua natureza única: Deus é.

Em João, o EU SOU na boca de Jesus revela também o seu ser e natureza divinas. Jesus não diz EU SOU YHWH, mas revela o seu ser divino. E bem elucidativa a declaração de 8,24: “De fato, se não crerdes que EU SOU O QUE SOU, morrereis nos vossos pecados.” Jesus tem a vida em si mesmo (5, 26), como tem o poder de “oferecer a sua vida e de a retomar” (10,17-18). Tem o poder de dar a vida escatológica aos que guardam a sua palavra (8, 51: “Em verdade, em verdade vos digo: se alguém observar a minha palavra, nunca morrerá”, 17, 2: “… a fim de que dê a vida eterna a todos os que lhe entregaste”). E sintomática a afirmação de 8, 58: “Antes que Abraão fosse, Eu sou”. O presente do indicativo significa que a essência do ser de Jesus é o próprio SER. O contraste entre o verbo genesthai (vir à existência), aplicado a Abraão, e o presente do indicativo de eimi, aplicado a Jesus, já diz tudo. E é interessante a maneira como os judeus reagem a esta afirmação: “Então, agarraram em pedras para lhe atirarem.” Significa que Jesus tinha proferido uma blasfêmia, e que, por isso mesmo, devia morrer. O predicado VIDA ETERNA, que Jesus, juntamente com o Pai, oferece e dá a quem nele acredita, só pode significar o seu poder divino: 3,16.36; 4,14.53; 5, 21-26,6, 33.35.44.51-58.68; 8,12; 10,10.17-18; 11,25; 14,6; 17,2-3. Ora, segundo a ortodoxia judaica, só Deus é eterno e só ele pode dar a vida eterna; logo, a ação de Jesus, confundindo-se com a do próprio Deus, seria, naturalmente, para os judeus, uma blasfêmia. (Joaquim Carreira das Neves: Escritos de São João)

Daisetz Suzuki

Quando Hui-chung perguntou ao seu visitante o que ele sabia sobre o Zen-budismo do sul, este contou: “Há, atualmente, muitos mestres zen no sul e, de acordo com eles, existe em cada um de nós a natureza de Buda; e é essa natureza que nos faz ouvir, ver e pensar. Quando movemos as pernas ou as mãos, é a natureza que o faz em nós, e o faz consciente desses movimentos. O corpo está sujeito ao nascimento e à morte, mas a natureza escapa de ambos como uma serpente muda de pele ou um homem de casa.” A este relato feito pelo homem chegado do sul, Hui-chung acrescentou: “Também conheço essa espécie de professores de Budismo, pois encontrei muitos deles no tempo em que andei peregrinando. São como os filósofos hereges da Índia, que criaram a hipóstase de uma alma. Isso é realmente deplorável. Pois adulteram o T’an-ching e fazem toda espécie de alterações de acordo com suas próprias ideias, contrariando o ensino de seu Reverendo Mestre. Daí resulta a destruição do princípio que nós, os verdadeiros seguidores do Mestre, sustentamos…”

O T’an-ching parece ter sofrido muito nas mãos de sucessivos compiladores, e mesmo a cópia mais antiga pode não ser o relato muito exato dos sermões de sofia:Hui-neng. Mas não há dúvida de que mesmo a cópia corrente do T’an-ching contém muito do ponto de vista característico de Hui-neng, especialmente sua doutrina sobre o Prajna, distinta do ponto de vista dos seus antecessores e contemporâneos.

A concepção de uma substância da alma não é uma interpretação errônea de Hui-neng, tão sutil quanto a do mero nada. Podemos dizer que esses dois conceitos, Prajna e natureza-própria, são as duas grandes armadilhas nas quais a maioria dos seguidores do Zen e, na verdade, a maioria dos budistas podem cair. Os estudantes do Zen precisam cuidar para não cometerem tais erros. O que os leva à armadilha é a tentativa de substituir a experiência genuína do Zen por uma compreensão intelectual ou conceituai da experiência. Esse procedimento errôneo é a fonte de todos os erros graves.

Farei ainda outras citações dos anais do Zen segundo Hui-neng, a fim de ilustrar a facilidade com que nos desviamos da compreensão da relação entre natureza-própria e Prajna, Corpo e Uso, Inconsciente e consciência, Vazio e mundo do devir, Inatingível e atingível, Nirvana e o reino do nascimento e morte, não-discriminação e lógica, estado-de-não e pluralidade, etc.

No que se segue, mostra-se o esforço dos mestres empenhados em conseguir que seus discípulos experimentem algo que está ao mesmo tempo além das dualidades e nelas contido — tal como nos exemplos acima. Fundamentalmente, a experiência zen consiste em ver interiormente o trabalho do Prajna, de onde surge o nosso mundo de contradições. (Daisetz Suzuki: Doutrina Zen da Não-Mente)