Separação

(Perry1991)

O Taoísmo considera a dicotomia atual entre o homem e sua natureza primordial em termos de desequilíbrio. O Vedanta parte da perspectiva da ilusão, enquanto o Budismo fala do mesmo em termos de ignorância. O Judaico-Cristianismo ensina que o homem está em estado de queda, e o Islã o descreve como rebelião.

“Se dissermos que não temos pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1 João 1:10). “A manifestação, por definição, implica imperfeição, assim como o Infinito, por definição, implica manifestação; este ternário — ‘Infinito, manifestação, imperfeição’ — constitui a fórmula explicativa para tudo o que pode parecer ‘problemático’ à mente humana nas vicissitudes da existência” (Schuon, Da Unidade Transcendente, p. 66). “Não estranhes a ocorrência de aflições enquanto estiveres nesta morada perecível, pois, em verdade, ela nada gerou senão o que merece sua designação — e inevitável é esta designação” (Ibn ‘Aṭā’illāh, Ḥikam, nº 34). Do mesmo modo, Boécio: “Rendeste-te ao domínio da fortuna; deves contentar-te com as condições de tua senhora” (Consolação da Filosofia, II, 1). Nenhum indivíduo, enquanto tal no tempo e no espaço, está livre dessas condições. “O homem que encontrou a realidade, assim como aquele que ainda está enredado no fenomênico, é como um viajante numa estrada inundada” (Hōnen, p. 610) — lembrando, porém, que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, dos que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8:28). “Portanto, se sofreres perseguição, miséria e outros males, tens o que condiz com o lugar em que habitas” (Richard Rolle, O Fogo do Amor, I, 8). “Não é o mundo que engana os homens”, diz Hermes (“Sobre a Correção da Alma”, Hermética, IV, p. 289); “são os homens que se enganam a si mesmos e assim se arruínam. Pensam que sua felicidade consiste nos bens que este mundo lhes dá, e acreditam que esses bens durarão para sempre, esquecendo-se de que a vida neste mundo é uma alternância de bem e mal.”

“É inevitável que venham escândalos, mas ai daquele por quem o escândalo vem!” (Mateus 18:7). Uma vez admitida a doutrina do “pecado original” — que o homem está em estado de desequilíbrio, queda, ilusão, ignorância ou insubordinação —, pode-se reconhecer a realidade do pecado ou do mal e a necessidade de responder adequadamente a uma situação que de fato existe. “A ignorância é muito mais do que mera falta de informação sobre este ou aquele assunto. Inclui todo tipo de pecado contra a Luz: não apenas crenças falsas, mas inconsciência, pensamento disperso, obscurantismo e, acima de tudo, indiferença ao conhecimento, negligência do dever de buscar a verdade e a inteligência; uma vida organizada de modo a produzir distrações constantes, sufocamento desonesto de dúvidas, dúvida quanto à própria necessidade de buscar conhecimento, desprezo por oportunidades de ouvir aqueles que têm uma doutrina a ensinar — tudo isso está no âmbito da Ignorância” (Marco Pallis, Picos e Lamas, 3ª ed., 1942, p. 157). O moralismo do século XIX deriva do sentido do pecado que ainda persiste “biologicamente”, mesmo quando sua compreensão intelectual se perdeu; no século XX, é o próprio sentido do pecado (e, por consequência, o sentido da virtude) que praticamente desaparece, junto com a capacidade de conceber uma relação inescapável de causa e efeito entre as ações do homem, o estado de seu ambiente (macrocosmicamente) e seus futuros estados (microcosmicamente).

“Cada transgressão deve ser considerada como expressão, por parte do agente, da falta de uma qualidade positiva, como sabedoria, força ou pureza. Ora, se cada qualidade positiva se relaciona a um aspecto divino, a ausência dessa qualidade deve igualmente se relacionar — se não a outro aspecto divino do qual procede (ainda que indiretamente) — pelo menos a um centro cósmico de natureza luciferiana ou satânica, fonte direta da qualidade negativa e que se opõe ilusoriamente ao aspecto divino que nega. O vício vive pela comunicação regular e ritmada com esse centro obscuro que determina sua natureza e que, como um vampiro invisível, atrai, envolve e engolfa o ser em estado de transgressão e desequilíbrio. Se não fosse assim, uma simples infração permaneceria um caso isolado; mas toda infração é, por definição, um precedente e estabelece contato com um centro tenebroso — o que, por sua vez, esclarece a necessidade de ritos de purificação, que têm justamente o efeito de romper tais contatos e restabelecer a comunicação com o aspecto divino do qual a transgressão (assim como seu centro cósmico) foi a negação” (Schuon, O Olho do Coração, pp. 114-115).

Há passagens que sugerem a possibilidade de o pecado ser revertido em proveito espiritual, mas a chave fundamental para esse ponto delicado é a questão da volição (“Nada é impuro em si mesmo; mas, para quem considera algo impuro, para esse é impuro”, Romanos 14:14), pois todo pecado reside na vontade. O mal, enquanto tal, é sempre mal: “Acaso se retribuirá o mal pelo bem?” (Jeremias 18:20); “Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem, mal; que fazem das trevas luz, e da luz, trevas; que fazem do amargo doce, e do doce, amargo!” (Isaías 5:20). “Pode existir uma Lei do Buda que encoraje os homens ao mal e os impeça de buscar o bem? Tal coisa é impensável” (Hōnen, p. 350). Quando se trata de pecado real, o critério estará no arrependimento gerado ou no conhecimento obtido, e em seu poder de efetuar uma cura duradoura e uma verdadeira “metanoia”. Nos casos de pecado aparente, onde a intenção é pura e o ato conforme à vontade de Deus, o “pecado” está apenas na aparência — como comprovam os frutos positivos decorrentes da ação.