(DRG)
O Ser (Sat) é o Princípio da Manifestação, como tal é apenas um aspecto da metafísica que, com demasiada frequência, é reduzido no Ocidente apenas à ontologia. Certamente, lembra René Guénon, o Ser é Um, “é a própria Unidade”, mas esta Unidade que mostra que o Ser está isento da dualidade não é menos uma determinação, a primeira de todas, mas ainda assim uma determinação. O que significa que o Ser não pode ser identificado com o Princípio Supremo, um Princípio que está além de todas as determinações, abrangendo em si o Ser e o Não-Ser. Mesmo o Ser puro, sublinha René Guénon, que é considerado para além de qualquer forma existencial, ou de qualquer manifestação formal ou informal, “ainda implica uma determinação que, embora primordial e principial, já é uma limitação”.
O Ser é, portanto, determinado, e determinante, “é através dele que todas as coisas subsistem em todos os modos de Existência universal…; ele determina todos os estados dos quais é o princípio”. Obviamente, especifica Guénon, o Ser só recebe a sua determinação de si mesmo, representa portanto um estatuto superior àquele que recebe a sua determinação de alguém que não ele próprio, “mas determinar-se ainda é algo a ser determinado, portanto limitado de alguma forma, de modo que o Infinito não pode ser atribuído ao Ser, que não deve de forma alguma ser considerado como o Princípio Supremo”.
Esta é a demonstração do limite da metafísica ocidental que não vê nada além do Ser e, devido a esse limite, é incapaz de abarcar a totalidade real do campo metafísico. “Parando no Ser”, escreve Guénon, “eles são incompletos, mesmo teoricamente (e sem falar da realização que de forma alguma imaginam), e, como geralmente acontece em tais casos, têm uma tendência infeliz a negar o que os ultrapassa, e que é precisamente o que mais importa do ponto de vista da metafísica pura”.
Contudo, é verdade que através da sua Unidade, o Ser vai além das distinções de “essência” (Purusha) e “substância” (Prakriti), mas sendo Unidade ele também contém a multiplicidade que se revela sob o simples efeito do desdobramento das possibilidades do Ser. Uno e múltiplo, pode-se dizer que o Ser está além da “separatividade”, mas ainda sujeito à distinção (vishishta) porque, se no Ser todas as coisas são “uma”, elas o são sem confusão, distintas e separadas. Só para além do Ser é que podemos falar de uma ausência de distinção, “mesmo de uma distinção de princípios”, acrescenta Guénon, sem esta confusão de sentido. Nesta fase já não existe multiplicidade nem mesmo Unidade, é a transcendência Absoluta do Estado Supremo, um “Estado” para o qual nenhum dos termos da linguagem, mesmo os da linguagem analógica, pode ser utilizado. Isto explica porque somos obrigados a usar fórmulas negativas quando falamos sobre isso, para podermos, não sem dificuldade intransponível, nomear aquilo que não tem nome, e cujo único qualificador, o menos impreciso de todos, é o de “não-dualidade” (adwaita).
(RGEME, cap. V, “Relações de unidade e multiplicidade”. O homem e seu devir segundo Vêdânta, cap. VI, “Os graus de manifestação individual”, cap. XXII, “Libertação Final”. RGSC, cap. IV “As direções do espaço”, cap. XVII, “A Ontologia da Sarça Ardente”, cap. XXI, “Determinação dos elementos de representação do ser”, cap. XXVI, “Incomensurabilidade do ser total e da individualidade”.
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