Frithjof Schuon — Sufismo, Véu e Quintessência (FSSVQ)
“Véu” e “quintessência”: duas palavras que marcam uma oposição na ordem simbólica e doutrinal e que se referem, respectivamente, ao exterior e ao interior, ou à contingência e à necessidade. Ao discernir no sufismo um “véu”, entendemo-lo aqui, não no sentido completamente geral que se aplica a toda expressão do transcendente, mas num sentido particular que é próprio do sufismo histórico devido à sua solidariedade com uma psicologia confessional e com um temperamento ardente.” (Prefácio)
Tradicionalmente ou convencionalmente, considera-se o sufismo como o esoterismo do Islã. O presente livro pretende mostrar que esta definição só pode ser aceite com certas reservas; de facto, quando se estuda o sufismo sem qualquer ideia preconcebida, deve-se perceber que ele não é o esoterismo, mas que o contém. Isto significa que há dois sufismos: um que simplesmente prolonga a religião comum no sentido da piedade, da ascese, da imagética mítica e mística, e outro que é a quintessência do simbolismo religioso e que, por isso mesmo, o transcende; esta quintessência é metafísica e, consequentemente, universal.
Isto significa que o sufismo se apresenta, em primeiro lugar, como um véu, e é o sufismo geral e médio que, na prática, pouco se distingue do zelo religioso, exceto por certos simbolismos mais ou menos elípticos; em seguida, apresenta-se como uma quintessência, que coincide, por definição, com toda a metafísica e toda a espiritualidade contemplativa, independentemente da sua origem tradicional.
É claro que o sufismo propriamente esotérico baseia-se sempre nos símbolos fundamentais do Islã, tanto rituais como doutrinais, mas os reduz às suas intenções arquetípicas e, portanto, universais, aproximando-se assim do que podemos chamar de sophia perennis.
Na literatura sufista, esta quintessência encontra-se por toda parte, mas de forma esporádica, em vez de sob uma forma de exposição sistemática. O autor do presente livro considera, em todo o caso, que o esoterismo, independentemente dos testemunhos escritos, resulta, em primeiro lugar, da natureza das coisas.
Resumo e tópicos abaixo traduzidos de site francês dedicado a Schuon, sobre o qual estaremos aditando excertos traduzidos desta obra.
O Sufismo, véu e quintessência — resumo
- Prefácio
- Véu? Solidariedade do sufismo com uma psicologia confessional
- Quintessência? Doutrina integral examinada naquilo que ela tem de fundamental e de necessário
- Não há nada de pejorativo na noção de sistema
- As expressões doutrinais são sentidas ser exaustivas?
- A inteligência é sempre conforme a sua essência a saber a objetividade?
- Um Islã contingente e um Islã absoluto
- Qual é a ortodoxia intrínseca do Islã?
- Elipse e hiperbolismo na retórica árabe
- Do estilo árabe
- Dos dois polos do estilo árabe cristalizados nas escolas de Koufa e de Basra
- Do estilo metafórico e hiperbólico da língua árabe
- Do caráter de bom grado indireto da retórica árabe
- Emotividade fulgurante e profunda generosidade da mentalidade árabe
- Função da hipérbole árabe
- Exemplos de hipérbole
- Das metáforas quantitativas sobre a ilimitação do Paraíso
- Da imageria infernal
- Qual é a função da utilização de imagens excessivas?
- Ainda sobre a emotividade e a impulsividade
- Que é o Beduíno, metaforicamente falando?
- O piedoso exagero e o piedoso absurdo se encontram por toda parte
- É preciso se guardar de ver em uma certa racionalidade moderna uma superioridade total
- Da tautologia árabe, exemplos
- Da enunciação doutrinal mediando uma contradição, exemplos
- Da questão das expressões antinômicas no Corão
- Do acanhamento do humano
- Coerência lógica/caráter obscuro
- A simbiose exo-esotérica
- Inspiração e revelação
- Reflexão e Intelecção
- Raciocinamento e visão
- Da interpretação das Escrituras sagradas, da hermenêutica
- Exoterismo e esoterismo
- Dos Arianos (metafísicos e lógicos) e dos Semitas (místicos e moralistas)
- Dos antigos árabes céticos e supersticiosos
- Para o Muçulmano piedoso, a racionalidade lhe aparece como uma lembrança pagã
- Da afinidade, paradoxal, entre o Islã e a gnose
- A metafísica sufi solidária do criacionismo antimetafísico e moralizante das teologias monoteístas
- Que é que interessa o esoterista?
- O que tem em comum Judeus e Árabes: uma imaginação transbordante
- A alma árabe é pobre, mas heroica e generosa
- Riqueza pobre, pobreza rica
- Do inteleccionismo ariano e do inspiracionismo semita
- Da acentuação totalitária da Unidade divina no Islã e daquela do Cristo no cristianismo
- Parêntese: comparação entre a Bíblia e o Corão
- So sufis buscam combinar duas tendências, o platonismo e o asharismo
- Como a tese “platônica” se encontra expressa no Corão?
- Do raciocinamento asharita a respeito deste verso “Deus faz o que quer”
- O grande mérito de Ibn Arabi
- A distinção entre o necessário e o possível aplicada ao domínio do pensamento e da inspiração mística
- Logo há dois sufismos…
- Da presença do elemento “embriaguez” no Islã
- Da dança dos dervixes
- Porque existe a estreiteza confessional e mesmo a intolerância no sufismo?
- Porque as religiões e as teologias não são tolerantes a respeito de outras religiões e de outras teologias?
- A respeito de uma declaração de Ibn Arabi sobre a religião do coração
- Deus somente é o mesmo para todas as religiões na “estratosfera” divina, não na “atmosfera” humana
- Dos diversos níveis da piedade
- Paradoxos de um esoterismo
- Exemplos de dialética excessiva
- Um exemplo tirado de Ibn Arabi (o patriarca José)
- Da história extravagante do espinho do manto do Cristo o impedindo de subir ao Céu
- Daqueles entre os exegetas que sabem sempre tudo…
- Da piedosa unilateralidade
- Asharî exige um máximo de virtude, sobre a base de um mínimo de inteligibilidade metafísicia ou simplesmente lógica de Deus
- Para Asharî, o mal vem de Deus assim como o bem
- Retorno aos piedosos excessos de linguagem que parecem autorizar o ponto de vista da fé
- Ghazâli sobre Abû Bakr
- Paradoxo de uma perspectiva de temor que não se opôs ao casamento nem mesmo à poligamia
- Da confiança
- Aspecto por vezes mais aparente que real da incoerência da moral sufi
- Do “Deus ME é suficiente”
- Das duas subjetividades espirituais, indivíduo empírico e espírito
- Retorno sobre a questão dos exageros moralistas ou ascéticos
- Exemplos tirados da “Vida dos santos andaluzes”
- Os sufis que dão a impressão de se desinteressar da exatidão dos fatos e dos imperativos da lógica
- Ariano e Semita
- Do culto oriental do símbolo / do culto ocidental do fato
- Só há uma alternativa entre uma linguagem crédula e indisciplinada da “fé” e uma linguagem cética e pedante da “razão”?
- Distinção a fazer entre a imageria transbordante do fideísmo e a inspiração simbolista objetivante
- Do excesso contrário nos sofistas e cientistas gregos
- Raciocinamentos perfeitamente formulados de certos pensadores e intelecções mal expressas de certos gnósticos
- Do fideísmo hanbalita, refratário, até o absurdo, a toda interpretação simbolista das imagens corânicas
- Paradoxo de Ibn Arabi sustentando as vezes o fideísmo hanbalita
- Tafsîr e ta’wîl
- Presença de medidas ascéticas para pessoas passionais (logo não-qualificadas) no semi-esoterismo
- De que há necessidade um Ocidental desejoso de seguir uma via esotérica?
- Inútil impôr ao “pnesumático” das atitudes que não tem para ele qualquer sentido
- Concepção, mediação, concentração, conformação
- Grau de inspiração no Corão e em um livro místico
- Que é o sentimentalismo?
- Uma das razões da incoerência de certos escritos sufis: o místico escreve em estado de êxtase
- Lógica dos amorosos em um clima ardentemente religioso
- Da diversidade da “alma árabe”
- A chave de muitos enigmas no domínio do pensamento espiritual: Deus exige dos homens que sejam piedosos e virtuosos e não inteligentes
- Papel do Espírito Santo
- Premissas humanas de um dilema religioso
- Tornar acessíveis as verdades transcendentais sem as trair
- As religiões se endereçam a todos e não somente aos contemplativos
- Como se afirma o elemento “intelecção” ou “contemplação” no Islã?
- Da mentalidade prudente e realista dos negociantes e dos caravaneiros
- Precisão sobre o caráter do vaishya
- Da acentuação da amplitude das observâncias exteriores
- Piedosa agitação, piedoso fechamento
- Do convencionalismo do vaishya
- Um certo conflito, na alma árabe, entre a mentalidade do “cavaleiro” e aquela do “mercador”
- Dos ahâdîth como fonte do karma-yoga meticuloso e empenhado que vela o esoterismo
- Valor da imitação meticulosa dos menores fatos e gestos do Profeta
- Da Sounna
- Precisão sobre as relações entre as “castas” tipológicas e não sociais ou de classe
- Os desiquilíbrios, os equilíbrios, os disciplinados e os nobres
- O homem “Servidor” e “Vicário” segundo o Corão
- “Sufismo” pode significar o fanatismo mais chão assim como a especulação mais profunda
- Sobre os traços da noção de filosofia
- Ibn Arabi, Jili e outros teóricos do Sufismo foram filósofos?
- Que é a sabedoria segundo Pitágoras, Heráclito, Platão, Aristóteles?
- A palavra “filósofo” logo não tem nada de limitativo
- Pensadores profanos e filosofia no sentido próprio
- Do sensualismo de Tomás de Aquino
- Do filósofo em Ibn Arabi
- Algumas palavras em defesa dos filósofos árabes
- Exemplo da questão da eternidade do mundo
- Da crítica de Ghazâlî contra a filosofia helenizante
- É enquanto pensador e não enquanto gnóstico que Ibn Arabi tratou o problema do mal
- É enquanto gnóstico que ele tratou a questão da liberdade
- Diferença relativa ou total, segundo as relações, entre a filosofia e a gnose
- Sentido pejorativo da filosofia quando esta parte da dúvida ao invés da certeza
- Teoria e tomada de consciência pelo “coração”
- Do problema da infalibilidade e da questão de saber se o homem é condenado por sua natureza a se enganar
- Nenhuma infalibilidade englobando todas as ordens contingentes possíveis
- Infalibilidade e papel do Espírito Santo
- O esoterismo quintessencial do Islã
- As três partes constitutivas do Islã: Imâm, Islâm e Ihsân
- Que é o Ihsân ?
- Lugar do esoterismo quintessencial no Ihsân
- Exemplo de metafísica moralizante
- Da literatura sufi e da impressão média que ela dá
- Como o Islã vê as duas outras religiões semitas?
- Do primeiro Testemunho de fé: exposição metafísica
- Do segundo Testemunho
- Do sentido da palavra Rasûl
- Do ternário clássica dhâkir, dhikr, madhkûr
- Da “Bendição do Profeta”
- Do sentido da palavra “illâ”
- Do nome Alá
- Do nome Maomé
- A respeito do monismo ontológico de Ibn Arabi
- De uma maneira gnóstica de ver o mal
- Da função do mal
- Significação metafísica ou mística dos versos do Corão, perigo das interpretações forçadas
- Do caráter descontínuo, alusivo e elítico do Corão
- Dos “signos” corânicos em si mesmos
- Escolha de versos corânicos e de ahâdîth
- Da leitura salmodiada do Corão
- A respeito de uma crítica feita a Ibn Arabi
- Todos os outros “pilares” da religião só tem sentido em relação ao duplo Testemunho
- Da explicação esotérica das posições corporais da oração muçulmana
- Do Nome Alá como quintessência da oração
- Da lembrança de Deus no Corão
- Dhikr e Jihâd (combate espiritual)
- O Dhikr contem toda a Lei
- A Essência une porque é una
- Temor, Amor, Conhecimento e inter-relações entre os três
- Polo estático e dinâmico do temor e do amor
- Polo objetivo e subjetivo do Conhecimento
- Da tendência do Sufismo clássico de obter resultados cognitivos por meios volitivos
- Como o Corão apresenta os Profetas anteriores?
- De Maryam
- O sufi, “filho do momento”
- Todo o Sufismo em seus quatro termos: Verdade, Coração, Lembrança, Pobreza
- Dimensões hipostáticas da Unidade
- Síntese metafísica do simbolismo esotérico da Shahâdah
- Raiz de todo problema da criação ou da manifestação universal
- Das definições primeiras da natureza divina: Absoluto, Infinito, Perfeição
- Que é a divina Perfeição?
- Reflexo desta doutrina na progressão do número
- Jalâl, Jamâl e Kamâl (Majestade, Beleza, Perfeição)
- Fórmula trinitária no topo de cada surata (Em Nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso)
- A exterioridade divina e a interioridade
- Certeza, serenidade e fé; Luz, Paz e Vida